Correio do Minho

Braga, segunda-feira

A Escola e os mandatos sociais

Como sonhar um negócio

Voz às Escolas

2018-10-10 às 06h00

Flora Monteiro

“Começou pela instrução, mas foi juntando a educação, a formação, o desenvolvimento pessoal e moral, a educação para a cidadania e os valores… Começou pelo cérebro, mas prolongou a sua ação ao corpo, à alma, aos sentimentos, às emoções, aos comportamentos… Começou pelas disciplinas, mas foi abrangendo (tudo)…”
(Nóvoa, 2006: 1)

A escola atual que perspetiva o futuro é uma escola plena de mandatos sociais, demasiado complexa, a quem se pede todos os modelos, todas as instruções, todas as educações, todo o trabalho de base de uma sociedade a contruir para o presente e o futuro.
Um aspeto caracterizador da instituição escolar atual prende-se com o fato da sociedade exigir que a escola preste um serviço público quase total, pedindo-lhe que faça tudo, nomeadamente que ensine TUDO e bem, que eduque para os valores, que desenvolva os princípios éticos e de cidadania, que trabalhe nas competências das novas tecnologias, que promova a educação rodoviária e ambiental, que ensine os princípios de um desenvolvimento sustentável, que oriente a educação sexual, ensine a educação para a saúde, que erradique a discriminação e a exclusão, entre tantos outros objetivos. Será o que Nóvoa classifica como transbordamento.

E também, a sociedade exige que a escola assuma também a função de suplência dos pais e que promova a instrução dos alunos numa imensa variedade de temáticas, transferindo para esta instituição diversas expetativas. Sinto-o diariamente no meu trabalho e nas missões que temos de incentivar. E, nem sempre é fácil, pois nem sempre é possível às escolas corresponder a muitas destas solicitações. A escola não tem capacidade para dar tudo, para responder a todas as missões e mandatos.

Porém, apesar de inumeráveis e complexos, esses mandatos, bem como as suas funções e finalidades, procuram caminhar num mesmo sentido e esse sentido é a missão da formação do ser humano. Socorremo-nos aqui de uma metáfora usada por Azevedo para classificar esta realidade: “a instituição escolar é como um cesto onde se tendem a colocar todos os ovos da construção do bem comum, da cidadania ativa, da responsabilidade social. Elas [escolas] educam para a cidadania, para a liberdade, para a participação crítica na sociedade, para a responsabilidade, para a saúde, para a paz, educam o «sentido moral e a sensibilidade estética» ” (2003: 13).

Para lidar com estes condicionalismos pede-se uma liderança atenta que deverá ser pedagógica e transformadora (sempre que as condições o permitirem), ética e moral, porque só uma liderança com estas características responde às expectativas atuais que recaem sobre a escola. E esta liderança abrange todos os domínios e estruturas da escola. Desde a sua direção, passando pelas diversas coordenações, até aos professores titulares e diretores de turma e a cada professor, enquanto “comandante/guia” de uma sala de aula, com tantas crianças e jovens para ajudar a alicerçar.

Esta Escola é uma instituição onde convivem e aprendem mutuamente adultos, jovens, adolescente e crianças, com fins lucrativos que são os fins educativos. “Isto é, se nós quiséssemos pensar em termos de produto de uma escola, ele não é o saber, não são os resultados escolares (somente). O produto de uma escola é o crescimento dos alunos” (Afonso, Barroso, Fonseca e Lima,1995: 22). Crescimento que abarca todas as vertentes referidas.
É necessário dar resposta a tudo e a todos. Temos de saber pegar em cada aluno e ajudá-lo na construção do seu projeto de vida. Saber focar nos melhores projetos, para obter os melhores resultados, aprendendo a trabalhar com as comunidades locais, com os parceiros e vizinhos do lado, procurando as melhores respostas para os problemas de cada escola/agrupamento.

Estamos conscientes que a tarefa da escola não é fácil, a luta que tem de travar com as normas e rotinas instituídas por um lado, e a pressão social por outro, transformam o desempenho da escola num exercício complexo.
Temos absoluta consciência que a escola meramente instrutiva não responde às necessidades da sociedade atual, sobretudo se tivermos em linha de conta que se trata de um local de frequência obrigatória. É uma escola de todos e que só responde cabalmente aos desafios se se organizar para estes diversos mandatos e aprendizagens que tem a seu cargo. E quando falamos de aprendizagem não nos limitamos somente à aquisição de novos conceitos ou ideais, mas também à assimilação de capacidades, competências e procedimentos encaminhados para a compreensão e melhoramento do mundo. Mas a ajuda da família é fundamental. As bases de toda a educação alicerçada nos mais elevados princípios de cidadania devem nascer em família e nos grupos sociais.
Temos de continuar também, nós os atores da escola, a aprender a provocar mudança! Efetivamente somos os engenheiros, os arquitetos, os construtores e os criadores da sociedade do dia a dia e da sociedade futura.

Deixa o teu comentário

Últimas Voz às Escolas

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.