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A engorda

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

A engorda

Ideias

2019-06-23 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

O negócio do porco parece ser empresa de grande futuro, visto que até na China o nosso reco goza de preferências.
Admita, o leitor, que se lhe mete na cabeça de dar umas de porqueiro de nova geração, de construir fortuna sobre os alicerces de vara de suínos a perder de vista. Admita, em seguida, que precisa de capitais com zeros como bota de bácoros, e que uns praças amigos da banca lhe abrem o baú, relativizando a ciência que não tenha em matéria de cerdos, passando por cima de bens de raiz ou de valor consensual para apresentar como garantia executável, por exemplo uns Rubens, uns Van Gogh, uns Matisse, uns Picasso, enfim, borratadas que não deslustrem uma Mona Lisa. Siga o leitor para bingo e admita que um partner ou padrinho nas cúpulas lhe varre a cerda compacta toda a renitência e entrave. Está o venturoso leitor garantido, como facílimo é de ver. Admitamos que tudo corre bem, até um dia, até ao imprevisto de peste que interdite pocilgas, até à inveja de vizinho que lhe envenene quanta fêvera tenha em verde. E pode acontecer, como exemplarmente ilustra o caso dos apicultores industriais de faixas ardidas, que perderam milhares de colmeias e dinheiros contratados para aumentar produção com mercado garantido. Tó engordado do qual nem chispe se aproveita, e lá vai quanto Maria fiou.
Diz, Teixeira dos Santos, que não se arrepende da promoção de Vara a bancário. Estivemos todos mal, acrescenta. Fomos todos vítimas, conclui, e descarrega a responsabilidade dos azares na insuficiência de apuro dos mecanismos de alerta e controlo. Que náusea! Como é que os meios prudenciais e de salvaguarda do negócio bancário existiam para uns, e não existiam para outros? A quantos empresários de pequeno e médio gabarito não recusou a banca capital para uma máquina, para mais uma viatura comercial? E o comboio de garantias que não era necessário prestar! Por que é que uns estão fadados para marcar passo, e outros para ir dando cabo de nós, atrasando-nos a vida, cortando-nos lascas de tranquilidade e bem-estar?
Correu mal este negócio, correu mal aquele, mas nada que não se explique senão pelo mero concurso de adversidades e imponderáveis. Ora, a especulação tem destas coisas: pode dar péssimo resultado. Cheia de buracos é qualquer grelha de análise, por inerência. Quem joga pelo certo, tira uma ridicularia, quem aposta na multiplicação exorbitante de valor, tanto pode ficar podre de rico, como num ápice perder o investido. Penso que esta máxima já existia à época dos hoje varados com a catadupa de infortúnios, e atrevam-se Varas e Santos a confessar-se tão aluados ou destituídos de bom-senso. Cada um é livre de especular com o seu, e Deus o ajude. Fazê-lo com depósitos, e por cartas-brancas sabe-se lá de quem, isso é outra coisa. Nenhum dos envolvidos pode escudar-se em atenuantes, não há virgens nestes cambalachos.
De suinicultura falei nesta digressão poética, não para emporcalhar jornal e leitores, tão-só para significar que até um negócio com tangíveis pode dar para o torto. Exemplo fajuto, contudo, visto claro parecer, nos dias correntes, que ninguém levantará cem para negócio de dez, nem dez para negócio de vinte, a menos que não tenha parqueado outro tanto no financiador: certo? Mas estou em crer, e insisto, que as regras do são negócio já existiam antes e, se desprezadas foram, aos figurões cabe a explicação, que não darão, naturalmente, substituída por lamechices de jardim infantil.
Sou pobre, meu São Joãozinho, E burro como um penedo, Mas com a guita do vizinho, Compro casa em Moledo.

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