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A dor de não poder salvar

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Ideias

2013-04-15 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Os 101 anos do naufrágio do Titanic, que se assinalam hoje, fazem-nos lembrar as duas maiores tragédias marítimas que ocorreram em Portugal: a primeira, no dia 2 de Dezembro de 1947, junto a Leixões, que provocou a morte a 151 pescadores; a segunda, na Póvoa de Varzim, causando a morte a 105 pescadores.
Sobre a catástrofe que ocorreu na Póvoa de Varzim, quero hoje partilhar uma reflexão.
Na noite de 27 de Fevereiro de 1892, um sábado, uma violenta tempestade atingiu a região da Póvoa de Varzim, provocando a morte a pouco mais de uma centena de pescadores e tripulantes.

Os relatos que nos chegam da época são impressionantes: “Os tripulantes de algumas lanchas, vendo perdidas as esperanças de se salvarem, arremessaram-se à costa de Villa do Conde e á d’esta villa, despedaçando-se e morrendo quasi todas as tripulações” (1).
Ainda segundo a fonte atrás mencionada, “Do barco de Francisco Nicolau, dos 22 homens salvou-se 1, agarrado à cana do leme”; dos 21 tripulantes do barco “Afurada”, apenas se salvaram 4; da lancha “Santa Vera Cruz”, morreram 22 dos 24 pescadores que transportava; do barco do célebre mestre José Maio ”Devoto de Nossa Senhora da Conceição”, morreram 17 dos 22 tripulantes…

A tragédia foi de tal forma grande que houve casas que perderam cinco e seis familiares.
À costa chegavam constantemente vários pedaços de barcos, roupas e cestos com mantimentos que as navegações transportavam.
O desassossego com esta catástrofe foi de tal forma medonho, que durante esse sábado, 27 de fevereiro, estiveram cerca de 200 pessoas na estação “telegráfica, dando telegramas e esperando respostas, único lenitivo ás suas grandes dôres” (1).

Nesse fim-de-semana, os comboios chegavam a Vila do Conde repletos de familiares dos pescadores, desesperados e angustiados, e percorriam tristes as ruas da vila, com gritos de desespero. Os habitantes de Vila do Conde, também eles comovidos, lançavam-lhes dinheiro das janelas e abriam-lhes as portas das suas casas para os acolher e os alimentar!
Nessa noite encontravam-se no mar junto à Póvoa de Varzim cerca de 60 embarcações, e dessas “só se sabe das de Divó, Melaço, João Leonor, João Praga, Domingos Russo e António Thriumpho”

(1). Ora, é precisamente sobre o mestre João Praga que quero recordar o seu exemplo de coragem e de humildade:
Junto da embarcação onde se-guia o mestre João Praga seguia outra, comandada pelo mestre Jéque, que era seu amigo e familiar. As duas embarcações lutavam a par contra a enorme tempestade e para manterem as embarcações à tona da água.
Junto a Esposende, a embarcação do mestre Jéque ficou repleta de água e começou a afundar-se. O mestre Jéque, apercebendo-se que o seu amigo João Praga o estava a tentar ajudar, gritou-lhe, de uma forma absolutamente notável:
“Não tentes socorro, compadre, que morreis todos. Deus te guie e leve a salvamento! Leva o último adeus para as nossas mulheres e nossos filhos! Até à eternidade, compadre!”

(2) O relato deste acontecimento, apresentado na “Epopeia dos Humildes”, de A. Santos Graça, é arrepiante:
“O velho mestre João Praga levantou a mão num gesto de despedida mas não respondeu. Duas lágrimas rolaram-lhe pela face - mas ninguém mais lhe ouviu uma palavra. Leme firme, todo o dia e toda a noite até ao alvorecer do dia seguinte, em que entrou em Vila Garcia, na Espanha. Salvou a companha. Dois dias depois chegava à Póvoa, de comboio. Após a tragédia nunca mais comeu, nunca mais falou. Oito dias depois da sua chegada morria! A grande dor de não poder salvar - matou-o!...”.

A impotência e enorme frustração sentida pelo mestre João Praga perante a dificuldade que se encontrava à sua frente foi-lhe fatal…
Na sociedade actual, marcada pela ganância e ambição desmedida, verificamos que existe, cada vez mais, falta de pessoas que sentem dor por não poderem (ou não quererem) salvar um amigo ou familiar; há falta de pessoas que sentem dor por não poderem (ou não quererem) salvar a instituição que lideram; há falta de pessoas que sentem dor por não conseguirem (ou não querem) salvar o país que governam.

Não só, mas também por esta falta de dor, a nossa sociedade encontra-se na situação actual, onde a ansiedade e o desespero marcam a vida de muita gente.
1) - Jornal “Commercio do Minho”, de 1 de Março de 1892.
2) A. Santos Graça, “Epopeia dos Humildes”, 1952.

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