Correio do Minho

Braga, segunda-feira

A desvergonha é a lei

Escrever e falar bem Português

Ideias

2013-02-04 às 06h00

Artur Coimbra

1. Já se vinha adivinhando que os meros interesses da aritmética partidária se haveriam de sobrepor ao cumprimento e ao espírito da lei de limitação dos mandatos, com a qual todos concordam mas que os estados-maiores dos partidos que não querem perder o poder se esforçam por tripudiar, dando razão ao crescente repúdio popular pela classe política e suas artimanhas.
Luís Filipe Menezes já havia avançado para o Porto, saído de Vila Nova de Gaia, onde terá deixado “crateras financeiras”, ao que se ouve e que deveria ser fortemente penalizado, por isso, nunca premiado com acesso à segunda maior cidade do país. Mas todos sabemos que a “moralidade” que Passos Coelho e Paulo Portas pregam é para os outros aplicarem nos seus quintais, não para os seus correligionários, impolutas pessoas de bem, rigorosos gestores dos dinheiros públicos, como se verifica!...
Também Moita Flores já se anunciara para a autarquia de Oeiras, para tentar substituir o resistente Isaltino, que algum dia há-de apurar-se a razão pela qual conseguiu escapar incólume à merecida prisão. É o sinal acabado da justiça que neste país tem duas medidas: uma para os pobres e outra para os que têm posses para pagar as manobras dilatórias… até à prescrição!
E como não há duas sem três, na passada sexta-feira, o PSD e o CDS-PP formalizaram o acordo de coligação para a candidatura do actual presidente da Câmara de Sintra, Fernando Seara, à liderança do município de Lisboa, nas eleições autárquicas de Outubro.
Para que tal fosse possível, o virtuoso CDS-PP, que até fizera finca-pé no cumprimento escrupuloso da lei e que diariamente apregoa moralismos de espécie vária, deu de barato os princípios e os valores políticos, porque, mais importante que teses beatas, é a conquista do poder no principal município do país. Chama-se a isso ‘real politik’.
Lembremos que a famigerada lei de 2005 estabelece “limites à renovação sucessiva de mandatos dos presidentes dos órgãos executivos das autarquias locais”, exactamente para promover a mudança de actores políticos no Poder Local. Aí se estatui, sem margem para qualquer dúbia interpretação, que “o presidente da câmara municipal e o presidente de junta de freguesia só podem ser eleitos para três mandatos consecutivos” e que os autarcas, “depois de concluídos os mandatos referidos, não podem assumir aquelas funções durante o quadriénio imediatamente subsequente ao último mandato consecutivo permitido”.
Até à semana passada, o parti-do de Paulo Portas entendia, e bem, que, após os três mandatos definidos na lei, um presidente de câmara não deve poder candidatar-se a um outro concelho. Ponto final. Ponto de honra. Pelos vistos, a gula do poder vale mais que qualquer forma de ética na política. “Dadas as circunstâncias” e porque o que importa é “conquistar Lisboa” ao socialista António Costa, o CDS-PP mandou às malvas a sua justa interpretação e abraçou a supina vigarice de que “a limitação de mandatos é apenas territorial e não de função”.
O chico-espertismo impera, para “driblar” a lei e tentar manter ou aceder ao exercício do poder. Com gente desta, sem qualquer vergonha e sem o mínimo de escrúpulos, a mandar neste país, não custa a entender o crescente alheamento dos cidadãos da “coisa pública” e a repugnância que os nossos melhores manifestam em se acercar sequer do universo putrefacto em que se tece a vida política. Esperamos, como última tábua de salvação do regime, que o poder judicial coloque o chico-espertismo político onde ele deve ser arquivado: no caixote!

2. Por falar em desvergonha, não podemos eximir-nos a deplorar as declarações do banqueiro Fernando Ulrich, na semana passada. Depois de, em Outubro, ter ofendido os portugueses ao sustentar “Se o país aguenta mais austeridade? Ai aguenta, aguenta!”, desceu ao fundo de qualquer consideração, ao lesar a já péssima auto-estima dos portugueses, num momento particularmente crítico da sua existência: “Se os sem-abrigo aguentam, porque é que nós não aguentamos?”.
Mas onde é que o homem pensa que está? Quem é o imbecil, que é disso que se trata, para assim vilipendiar os seus concidadãos?
Ainda por cima, os lucros que o seu banco apresenta são extraídos dos juros da dívida portuguesa. Ou seja, o sem-abrigo mental está a ganhar dinheiro e a gozar com a cara de todos nós, à nossa custa!...
No meio de todo este lamaçal, como é admissível que um primeiro-ministro em exercício não tenha pejo de não se demarcar de declarações tão insultuosas e ultrajantes, escudando-se no subterfúgio de que não tem contas no BPI!...Mostrou ser da mesma laia!...
Eu também não tenho, mas se tivesse, nem mais um minuto a tinha. Gente desta, não merece a mínima consideração. E não contribui, nem por um momento, para o desígnio da consolidação mental e cultural dos portugueses. A economia não é tudo. Agredir os cidadãos, não é o melhor caminho!...

3. Desvergonha é também este governo no-mear secretário de Estado um homem como Franquelim Alves, não recomendado por mor da sua passagem pelo grupo SLN/BPN. Do ponto de vista ético e político. Não que constitua uma ilegalidade, criminal, uma vez que não é arguido, nem foi condenado. Mas está ligado directamente a uma fraude que revolta os portugueses até às fímbrias da alma e lhes pode custar 7 mil milhões de euros. Não é brincadeira!
Se houvesse um mínimo de pudor neste país, se houvesse respeito pelos contribuintes, se houvesse um pouco de ética na política, um homem como aquele nunca seria indigitado nem empossado para este cargo, por “perfeitamente tranquilo” que se mostre. A política não se faz apenas de estritas legalidades; faz-se de gestos, de sinais, de mínimos dessa arqueológica raridade que dá pelo nome de moralidade, enfim!
Mas a desvergonha instituiu-se em lei, neste país, está mais que visto!...

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