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A despedida...

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Conta o Leitor

2020-08-30 às 06h00

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Carlos Manuel de Lima Barros

A2.ª Companhia de Nova Sintra esteve em Tite, integrada no Batalhão de Artilharia nº 6520 (BART) e depois de regressarmos do IAO de Bolama, sabíamos que o nosso destino era Nova Sintra e que a nossa permanência na sete do Batalhão (Tite) era efémera.
Existia uma capelinha, perto do quartel e alguns militares assistiam à missa, geralmente aos domingos e estava-se numa fase de “conquistar”- evangelizar - novos católicos entre os africanos.
Numa conversa amena com o Capelão, fui, como muitos outros, convidados para sermos padrinhos de baptismo de algumas crianças negras que residiam em Tite e, naturalmente, perante essa proposta de cariz religioso, aceitei e participei no ato baptismal de uma criança que tinha 11 anos (?) de idade e senti-me feliz por ser padrinho de uma simpática e maravilhosa criança que me acompanhou, durante algum tempo, no meu quotidiano em Tite.
Oferecia-lhe rações de combate para ele e familiares e algumas lembranças pouco significativas.
Quando regressamos de Nova Sintra para Tite, com a Comissão cumprida, no ato de entrega do destacamento ao PAIGC, o Carlinhos, meu afilhado de batismo, acompanhou-me até ao Enxudé numa despedida que seria a derradeira.
No pequeno ‘porto de mar’ de Enxudé, as LDGs foram carregadas com muito material existente no quartel de Nova Sintra, assim como dos nossos haveres pessoais e começou a retirada e o Carlinhos veio a nadar atrás da embarcação, talvez uns 100 metros, sempre a dizer-me adeus e as lágrimas escorreram-me pelo humedecido rosto sabendo, de antemão, que dificilmente veria o Carlinhos.
Partimos na embarcação, e o Carlinhos ia desaparecendo do horizonte e desapareceu mesmo, como era inevitável, e o soldado Serra perguntou-me:
- Furriel está tão triste quando devia estar contente por deixarmos este inferno de guerra!
O furriel Barros, olhou para o Padralva, o Araújo e Oliveira, soldados do seu grupo de combate, e disse-lhes:
- Meus amigos, deixei a guerra mas, perdi o Carlinhos, meu afilhado de batismo e é por isso que estou triste...
Os soldados compreenderam a mensagem e responderam-me:
O Carlinhos vai futuramente ser um homem feliz porque irá viver em paz neste País martirizado que é a Guiné.
Neste dia de despedida, a caminho de Bissau e, posteriormente, com regresso definitivo à Metrópole, o furriel Barros foi condecorado com uma “amarga medalha”, a do paludismo mas, felizmente recuperou bem embora passasse uns dias muito difíceis com essa maldita doença...
Mesmo no avião, de regresso à Metrópole, o Carlinhos não saía da mente do Barros, recordando aquela criança sorridente, de olhos cintilantes e de uma incomensúravel simpatia e, nem mesmo o tempo, apagou essa imagem e a prova disso, é este meu testemunho em homenagem aos muitos Carlinhos que existiram e existem na Guiné-Bissau.

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