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A densidade urbana

Aos cidadãos e cidadãs do meu Concelho e do meu Distrito

A densidade urbana

Escreve quem sabe

2021-04-19 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Há leituras que despertam em nós reacções tão distintas como a fúria discordante ou a anuência convicta ou comprometida. Há leituras que nos surpreendem pelo tom e pela novidade e há leituras que mais não são do que relatos de “coisas” que já sabemos e conhecemos. Há leituras que são notícias, constatações ou descobertas, apreensão ou aprendizagem, desafios ou acomodação. E há leituras que não mais deixam de ser o reflexo do momento, das circunstâncias e do contexto que vivemos e observamos.
O chamado momento pandémico que atravessa a nossa vida – e que apenas sabemos identificar (por aproximação) onde e quando começou, mas não advinhamos nem intuimos com segurança quando e como acabará – é fomento quotidiano e generalizado de reflexões, leituras, notícias e comentários. Independentemente do modo, do tempo e do lugar, o tema “pandemia”, e seus reflexos e consequências, está omnipresente e tudo condiciona e contextualiza.

Tanto assim é que descobrimos um novo vocabulário corrente na nossa comunicação, seja ela visual ou oral, gestual ou escrita. Na verdade, hoje verificamos que falar da distância e do cumprimento com o cotovelo é forma de assinalar encontro e respeito; letalidade, quarentena, morbidade, assintomático, (entre outras) são palavras repetidas vezes sem conta; teletrabalhar ou explanar são verbos que transitam para o grupo verbal dos mais concorridos; postigo, gel, viseira ou máscara são instrumentos tão comuns quanto (quase) intemporais; vacinas, higiene, quarentena, online são formas de avisar, dar esperança, trasmitir, …, tudo num processo cada vez mais global de mudança e ajustamento a uma realidade que, independentemente do que é e como deixará o mundo, sabemos que não deixará o mesmo mundo igual ao que foi.
Na Cidade, esta realidade repete-se e confirma-se, numa constatação óbvia e sem novidade de que a Cidade e as cidades são o espelho do pulsar do mundo.

Ao nível da Cidade, é recorrente ler-se e ouvir-se de que as cidades não poderão ficar iguais e que este é o momento de ousar romper e reformar, que este é feito de oportunidade de mudança porque, hoje, é momento coincidente da necessidade imperiosa de ajustar a velocidade e os ciclos de vida do Homem e da Natureza e da aceitação dos humanos para a inevitabilidade e premência da mudança.
A leitura diversa que se pode ir fazendo entronca nos mesmos temas e “títulos”. Alguns exemplos: “a pandemia urbanística”, “as cidades já não voltam ao que eram antes da pandemia”, “mais vida de bairro, maior uso do espaço público e do comércio local já são visíveis”, “há um antes e um depois da covid nas cidades”, “cidades sem carros, pensar o possível”, … Poder-se-ia continuar que, não há dúvidas, o caminho seria um círculo perfeito.
Acresce aos exemplos evidenciados, a problemática e a temática associada à habitação e aos problemas de quantidade e qualidade, acessibilidade e esforço financeiro que revela. E a esta poderiamos acrescentar a natureza, dinâmica e dependência sobre a actividade económica, a pendularidade e precariedade da boa mobilidade, tudo numa constatação (que já vai longa) de que a Cidade, necessária e desejavelmente, tem de mudar, ajustar-se e melhorar.

Sem colocar em causa tudo isto, há tema que se entende subjacente a este frenesim reflexivo sobre a Cidade e que, é convicção, é elemento fundador para o bom entendimento da actual realidade urbana e do seu bom desenvolvimento. É ele a densidade (urbana).
Densidade (urbana) feita ocupação de solo e sua consistência, feita de espessura consolidada de pessoas e movimentos das mesmas e de bens que conferem polaridade e atractividade urbanas.
Hoje, constata-se que a densidade (urbana) faz falta às urbes e que a vizinhança e a proximidade, a identificação com o lugar e o espaço público não são incompatíveis com a densidade. A ela são inerentes. E, por isso, é possível ter densidade sem perda de qualidade.

Todavia, ao longo do tempo não foi assim e, repescando palavras de João Seixas de 2012 “o horror à densidade fez escola no urbanismo. Resultou de séculos de profunda pobreza em cada vão de escada. Mas resultou também de um crescimento baseado em desenfreados desejos de espaços, automóveis, consumo, protagonistas políticos e, enfim, de dívidas. E temos hoje um país disperso e urbanizado em cada vão de estrada. Caríssimo e insustentável: baseado no crude onde toda a gota é importada, onde investimentos públicos e privados nunca chegam e não rentabilizam, onde sociabilidades, mobilidade e proximidades se tornam difícieis. E onde – como diz o nosso comerciante – o negócio é difícil”.
Distinguir densidade enquanto massificação de densidade enquanto optimização; consensualizar que densidade não depende tanto do seu conceito e significado, mas, estrutural e fundamentalmente, de como se materializa, é tarefa tão árdua quanto indispensável. O próximo texto procurará fazer caminho…

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