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A Democracia ameaçada pela ignorância da História!

O maior desafio dos 50 anos de Democracia

A Democracia ameaçada pela ignorância da História!

Ideias

2024-01-28 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

Até há poucos anos, ia-se acalentando a ideia de que a Democracia na sua forma liberal é uma realidade indestrutível, quando alcançada, por ser obviamente o menos mau dos regimes políticos, como todos temos consciência.
Falava-se da Democracia consolidada, no caso português, após a Revolução do 25 de Abril de 1974, que restituiu ao povo a liberdade e a soberania, a que melhor serve os interesses dos cidadãos, nas várias áreas.
Reivindica-se um regime de tolerância, de desenvolvimento, de justiça, de maior acesso ao Estado Social, nas áreas da educação e da saúde, neste caso através do Serviço Nacional de Saúde universal e gratuito, criado há mais de quatro décadas.
Tudo isto é verdade, menos a ideia da consolidação da Democracia, que não é um bem para sempre, nem definitivo, ao contrário da ideia dominante, antes se constrói no dia a dia. Os exemplos à nossa volta vão-se multiplicando.
Como se tem verificado, é das falhas, das crises, dos erros e das debilidades das democracias que têm crescido as sementes da contestação ao regime, por forças da extrema-direita, sempre prontas a explorar o descontentamento e a revolta da população, ou de sectores profissionais, quando seria legítimo, se de boa fé, que procurassem contribuir para o melhoramento do regime, mas não é isso que lhes quadra.
Há uns anos, enquanto pela Europa fora e pelo mundo a direita extremista, xenófoba e antidemocrática era já uma realidade que entrava para parlamentos nacionais, regionais e locais, em países de fortes tradições democráticas liberais, julgávamos que Portugal, pelo seu posicionamento na ponta ocidental do Continente, estaria a salvo da peste política do século XXI.
Verificámos nos últimos anos que não, quando um sujeito bem-falante e verdadeiro vendedor de banha da cobra foi conseguindo arrebanhar seguidores em todos os estratos sociais, às vezes os mais improváveis, que se estão marimbando para uma ideologia que envergonha a modernidade, apenas na expectativa de que o partido “abane o sistema”.
Gente que aproveita a Democracia para a minar e a destruir por dentro, se os portugueses deixarem.
Curiosamente, o crescimento da extrema direita populista tem coincidido com o florescimento das redes sociais, que sabe aproveitar como nenhum outro partido da Democracia liberal. Fazendo o melhor uso de tecnologias que estão ao serviço de todos, sobretudo o Tiktok, muito voltado para a juventude, com mensagens manipuladas, mas que são apreendidas como verdadeiras por camadas populacionais que não têm outro tipo de informação, porque, por opção, não lêem jornais, não ouvem rádio, nem vêm telejornais, que são plataformas de informação mediadas por jornalistas, que seguramente não deixam passar a desinformação que interessa propagar por essa gente sem escrúpulos. Os apaniguados da extrema direita vivem numa bolha de ignorância, propositada, porque é aí que a ideologia se multiplica. E é aí que os radicalismos prosperam.
A direita populista tem vindo a crescer eleitoralmente, cavalgando as ondas da insatisfação de sectores sociais e profissionais descontentes com o governo, ou com o clima, ou, quem sabe, com a mulher lá em casa. Tudo serve para protestar, contestar, reclamar, manifestar, aproveitar.
Aliás, o tal partido não tem feito outra coisa que capitalizar, vociferar, falar alto, mentir, aldrabar, manipular factos e situações, seguindo a cartilha dos partidos “irmãos”. Acham que quem mais berra, algum dia há mamar…
Neste ano em que Portugal celebra os 50 anos do 25 de Abril o país encontra-se perante um dos desafios maiores das últimas décadas na sua construção democrática.
Há um país incomensuravelmente mais desenvolvido do que há meio século, a todos os níveis, fruto da Democracia, sem a mínima dúvida, mas que soma problemas por solucionar. A habitação é cara, os professores estão insatisfeitos, os polícias, os médicos e os enfermeiros também, muitos jovens optam por emigrar, os hospitais não conseguem dar resposta às necessidades dos cidadãos.
É a este caldo de crise, em alguns casos mais percepcionada que real, que o populismo vai ligar as suas fontes de alimentação.
Como alguém escrevia recentemente no Expresso, “O populismo materializou-se numa máquina bem oleada, com uma narrativa eficaz, atraindo um número cada vez maior de cidadãos, insatisfeitos com as respostas dadas pelas forças partidárias que há mais anos dominam a política nacional. A mensagem vence e convence, mesmo quando sustentada em alegações que nem sempre aderem à realidade. E acontece num contexto de um desemprego relativamente baixo (a taxa está hoje nos 6,6%, longe do pico de 17,7% de 2013), contas públicas em ordem, continuidade da percepção de Portugal como um dos países mais seguros do mundo”.
Mas essa gente quer saber disso para alguma coisa?
Que contem com verdade a estes ignorantes o que era o país antes do 25 de Abril de 1974. Só isso!!!
O partido de André Ventura usa as mesmas estratégias que a direita radical nos outros países, como a mentira, a desinformação, o ataque aos jornalistas, a humilhação dos adversários, o nativismo… O discurso do ódio, contra os ciganos, contra a imigração, contra a igualdade de género, pela intolerância e pelo sectarismo.
As falsidades da direita radical quanto à segurança social são arrasadoras. Os imigrantes alegadamente “vêm beneficiar da Segurança Social que os nossos pais e avós pagaram anos e anos”, como disse há dias um deputado extremista que devia ter vergonha na cara, porque está mais que demonstrado que a contribuição dos imigrantes para a Segurança Social em Portugal é largamente vantajosa para o país. No ano passado deram 1600 milhões de euros de lucro, além de virem laborar para postos de trabalho que ninguém quer e de contribuírem para minimizar a fraca natalidade do nosso país.
Se não fosse resultado de uma ignorância histórica, um discurso anti-imigração era até criminoso, se pensarmos que há milhões de emigrantes portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo e que abalaram para outros países exactamente para alimentarem os mesmos sonhos de uma vida melhor dos imigrantes que hoje!!!
Além de desinformação e mentira, os extremistas de direita apresentam propostas para tudo e para todos que sabem irrealistas, promessas para não cumprir, porque rebentariam com os cofres do Estado.
E a promessa de “acabar com a corrupção” é no mínimo delirante: “Prometer acabar com a corrupção é como prometer a paz no mundo”, notava há dias, na TVI, com inteira razão, o jornalista Pedro Santos Guerreiro.
Chega de atentar contra a inteligência e o bom senso dos portugueses!!!

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