Correio do Minho

Braga, terça-feira

A Cultura como aglutinadora das populações

O bolo alérgico

Ideias

2018-06-17 às 06h00

Artur Coimbra

Poderia hoje falar das brunices cá do burgo ou das trumpalhadas do outro lado do Atlântico? Claro que podia, mas não ia adiantar nada às toneladas de prosa que justamente todos os dias são expendidas sobre tão desvairadas personagens, das quais há muito não há pachorra para aturar!...
É bem mais sedutor, luminoso e relevante abordar questões que têm a ver com a cultura que por cá se vai promovendo, quantas vezes com tremendos sacrifícios humanos e financeiros, sobretudo em regiões onde a arte e a criatividade não são feitas no “pronto-a-vestir” ou no “pronto a usar”, como tantas vezes acontece em situações em que o necessário é apenas a existência de um cheque bem recheado.
Porque estas coisas da cultura, quer dizer, das artes performativas, da música, das artes plásticas, da dança, do teatro, da literatura, do cinema, constituem geralmente a última das prioridades da maioria dos governos, e até de muitas autarquias, porque entendidas na acepção de que constituem lamentáveis despesas, muitas vezes feitas a contragosto, quando o que dá votos são obras bem mais materiais, palpáveis e vistosas.

Todavia, a cultura é um sector já com um peso económico considerável, movimentando milhares de pessoas e milhões de euros, o que deveria constituir motivo de reflexão para os vários poderes. Até porque a cultura é indissociável da identidade dos indivíduos e dos povos que, quanto mais cultos e conscientes são, mais atreitos se mostram a cultivar e a salvaguardar valores fundamentais como a liberdade, a cidadania, os direitos humanos, a democracia. E mais avessos, inversamente, a suportar tentações totalitárias ou totalizantes, vindas da ignorância e da arrogância que muitas vezes se querem fazer passar por competência.
A cultura é também, ou deve ser, um factor aglutinador das populações, mostrando os seus valores, apelando à sua participação nos processos criativos e transformadores da realidade social. É mais uma junção de esforços, de laços colectivos, de aproveitamento da proximidade entre os cidadãos de um determinado território.
Gostaria de dar um exemplo recente registado no município de Fafe, em torno da memória de Camilo Castelo Branco, que por aqui deixou também o seu prestigiado rasto.

“Camilo em Passos" foi o lema de um majestoso evento que movimentou a freguesia de Paços, ao longo de três dias, numa organização de elevado nível, da Junta de Freguesia, com um envolvimento notável da população local, a que se agregou a colaboração de associações locais e externas, como os Restauradores da Granja ou o Coro de Pais e Amigos da Academia de Música, recriações incríveis de ambientes e de épocas, fazendo algo de inesquecível para quem a ele teve o privilégio de assistir. Em causa estavam cenários e personagens que fizeram retornar ao passado do imaginário camiliano e da sua ligação à freguesia e ao município de Fafe, qualquer coisa como 158 anos depois, contados a partir de Junho/Julho de 1860, quando na Quinta do Ermo do seu amigo e confidente José Cardoso Vieira de Castro se acoitou, foragido dos esbirros policiais que o perseguiam, com um mandato de captura sob a acusação de adultério e rapto na pessoa de Ana Plácido, de que haveriam de ser absolvidos nos finais do ano seguinte.

A freguesia de Paços evidenciou-se pela positiva ao apostar fortemente numa iniciativa de elevado valor cultural, concitando a presença de ilustres camilianistas, de simples e atentos curiosos e de uma população local que, fantasticamente, se envolveu e colaborou activamente para que nada faltasse no sucesso do evento que tem tudo para se repetir e evoluir ainda mais. Como referia o Professor Cândido Oliveira Martins, reconhecido estudioso do autor do “Amor de Perdição”, Paços marcou pontos na recriação e recordação da memória camiliana, que em outras localidades, bem mais populosas e apetrechadas, já esmoreceu.
Tudo o que contribua para manter vivo o património de um dos escritores maiores da língua e da literatura portuguesas como foi (e é, que o património é perenidade e contemporaneidade…) Camilo, em cuja obra pulsa a sociedade e a cultura do Portugal do século XIX, é por demais relevante e fundamental para a solidificação da identidade cultural de um povo, bem dentro do nosso território sentimental e geográfico.

Neste evento prodigioso, que de alguma forma retoma o espírito do que foi uma marcante iniciativa de há alguns anos, no centro da cidade, o “Fafe dos Brasileiros”, promovida pelo município, evidenciou-se claramente a importância de uma entidade com ideias, neste caso a autarquia local, que soube rodear-se dos colaboradores e sonhadores do evento e que conseguiu seduzir uma população rural a recuar no tempo e a tomar como seu um evento que prestigia a localidade e o concelho.
É, na verdade, a cultura como aglutinadora da vontade, da força e do sonho das populações locais, pela proximidade e pelo entendimento de que estamos a falar de um instrumento (cultura) que une alegremente a comunidade em torno de uma “marca”, quando outros factores (a política, a religião, outras vivências) a podem dividir, separar e afastar.

A cultura é um património indestrutível para a tessitura da identidade dos povos, a nível global e local, e obviamente entrelaça-se de valores, memórias e momentos que aproximam e congregam os vizinhos, o que obviamente cumpre evidenciar.
Uma nota final para relembrar que o romancista Camilo Castelo Branco está ligado a Fafe, por diversos laços. Desde logo, através do seu íntimo amigo e confidente José Cardoso Vieira de Castro, a quem devotou uma estima imensa e de quem foi confidente insuspeito, apesar da diferença de idades entre os dois (13 anos). A desmesurada amizade e a cumplicidade entre os dois suscitou obras de um e de outro em defesa do amigo e volumes de correspondência entre ambos.
Como homenagem a esta terra, Camilo escreveu o romance Mistérios de Fafe (1868), bem como as duas peças de teatro O Morgado de Fafe em Lisboa (1861) e O Morgado de Fafe Amoroso (1865). O nosso concelho ficou assim perpetuado na extensa bibliografia de um dos maiores vultos da literatura portuguesa contemporânea. Da experiência de perseguição e fuga pelo Minho e Trás-os-Montes, Camilo deixou-nos páginas deliciosas, no livro Memórias do Cárcere (1862), obra escrita enquanto se encontrava prisioneiro na cadeia da Relação.

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