Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A crise desde 2008: que lições para o futuro?

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2015-06-13 às 06h00

António Ferraz

Apropósito da grave crise económica e financeira global iniciada em 2008, o economista heterodoxo americano H. Minsky, citado por Martin Wolf, articulista renomado do Financial Times (“As Mudanças e os Choques”, Clube do Autor, 2015), diz, com toda a propriedade, que “a estabilidade desestabiliza”. O que significa isso? Apenas que a aparente estabilidade do sistema bancário e financeiro global se “desmoronou” de forma inesperada em 2008. Mais, à crise de 2008 se veio juntar em 2010, nomeadamente nos países da Europa do Sul, caso de Portugal, a chamada “crise das dívidas públicas soberanas”, em grande parte, fruto da intensa especulação nos mercados financeiros mundiais e, que teve efeitos dramáticos, ainda hoje sentidos, como resultado da imposição externa (dos credores) aos países deficitários e devedores, por um lado, de políticas agressivas de austeridade e disciplina orçamental e, por outro, de políticas de “desvalorização interna”, leia-se, mais competitividade externa feita à custa e de que ma- neira do fator trabalho.
Assim, nos últimos quatro anos as principais recomendações da “governança” europeia tiveram uma nefasta incidência nos países deficitários e devedores da Europa do Sul, forçados à recorrer à assistência financeira externa. Embora com ligeiras variâncias, tais recomendações visavam: (1) a desvalorização salarial (e.g., precarização laboral, redução do rendimento salarial ilíquido dos trabalhadores do sector público e privado, restrições aos apoios sociais); (2) a desvalorização da legislação social (e.g., erosão da negociação coletiva na formação dos salários). Assim, para atingirem esses objetivos Assim esses países deveriam: (a) a indexar e baixar os custos com pensões e cuidados de saúde, em nome da sustentabilidade e da racionalização; (b) a alterar os sistemas de formação dos salários, erodindo os regimes de contratação coletiva, subordinando mais fortemente o fator trabalho aos imperativos do mercado e da competitividade; (c) a reduzir os custos salariais nominais e reais, através, do uso de vários meios com o argumento (falacioso!) da promoção do emprego; (d) a flexibilizar os despedimentos coletivos e individuais face a segmentação do mercado de trabalho e o aumento do emprego; (e) a restringir os benefícios sociais porventura desincentivadores da procura de trabalho; (f) a privatizar, em muitos casos em sectores estratégicos da economia nacional (EDP, REN, PT, TAP?, etc.), obedecendo esta atuação a uma agenda ideológica prévia de reforço da economia neoliberal: privatizações e redução do papel do Estado na economia. Tudo isso tem vindo a subtrair cada vez mais à autonomia de decisões dos Estados-membros da União Europeia e que anteriormente eram da sua exclusiva competência.
Que explicações e ilações tirar então da crise económica e financeira global profunda desde 2008? O que fazer para impedir que no futuro tais situações não aconteçam ou que sejam pelo menos previsíveis? Desde logo será de reter que em 2007, com a completa (ou quase) desregulação dos mercados bancário e financeiro criaram-se as condições potenciais para a emergência da crise em 2008. Interessante ainda de referir é o relacionamento da crise global com a crise da própria democracia parlamentar “liberal” vigente, que por ações errôneas ou omissões permitiu toda essa confusão económica e financeira. Será que a democracia parlamentar “liberal” estava e, ainda está, em perigo por ameaças do comunismo, do socialismo, da militância sindical, da alta inflação ou da quebra acentuada na rentabilidade, tal como sucedeu nos anos 1970? Claro que não, os verdadeiros perigos são exatamente aqueles que motivaram a grave crise em 2008 e, que, diga-se, a bem da verdade, continuam a existir, a saber: instabilidade económica e financeira, desemprego elevado, crescente pobreza e aumento da desigualdade social.
Atualmente há um desafio importante a travar que é a de encontrar alternativas aos modelos de cariz neoliberal dominantes, ou seja, modelos voltados para a promoção do crescimento económico e geração de emprego. Pensamos, que um modelo económico e social alternativo passaria pelos seguintes pontos: (1) considerar que as razões causadoras da crise económica e financeira global desde 2008, foram, no essencial, o triunfo da ideologia do mercado livre (desregulado), a bolha especulativa imobiliária, os produtos mais ou menos complexos vendidos as pessoas e famílias que muitas vezes não sabiam o que estavam a adquirir, o crédito excessivo e com riscos pouco calculados e, os incentivos fiscais e outros irrealistas; (2) consciencialização de que não voltaremos a realidade do mercado livre do século XIX, de que a doutrina liberal do Estado mínimo não é aceitável nas democracias parlamentares “liberais” com eleições livres e universais no mundo globalizado atual, de que o fornecimento de segurança social, de coesão económica e social e de despesa pública produtiva (consumo e investimento público) é legitimamente do domínio do Estado.
Em suma, conhecidos os motivos geradores da crise económica e financeira global desde 2008, pensamos ser imperativo no presente que as autoridades nacionais e supranacionais (e.g. União Europeia): (1) evitem a repetição dos erros entretanto cometidos devido ao funcionamento desregulado da economia de mercado livre; (2) que se reconheça o papel central do Estado na estabilização económica, no crescimento económico, na criação de emprego e na promoção da equidade social.
Uma última observação: aparentemente não tem sido esta a via que tem vindo a ser prosseguida pelos governos, retomando-se mais uma vez “velhos” argumentos liberais. Se assim for, não tenhamos dúvidas que negras nuvens negras se vislumbram no horizonte nacional e internacional.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.