Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A convergência e o futuro

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2018-04-24 às 06h00

Jorge Cruz

Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Habituámo-nos, por estes dias, a ouvir falar do 25 de Abril, das múltiplas histórias da Liberdade, enfim, dos pequenos-grandes detalhes do que aconteceu naquela madrugada que eu esperava os quais, no seu diversificado conjunto, possibilitaram a deposição do regime ditatorial conhecido por Estado Novo e a consequente instauração da democracia em Portugal.
Não nego a relevância da divulgação e consequente conhecimento desses acontecimentos essenciais da nossa história recente. Creio, aliás, que o desconhecimento que uma boa parte da juventude denota relativamente aos factos ocorridos há 44 anos se deve a uma enorme dose de passividade, para não lhe chamar outra coisa, daqueles que ao longo dos tempos tiveram responsabilidades ao nível dos programas de Ensino. Mas, embora reputando elevado valor ao trabalho de divulgação que ainda tem de continuar a ser feito, também tenho a firme convicção que essa não será a missão de um cronista de jornal, razão porque na véspera da comemoração de mais este aniversário da Revolução de Abril opto por fazer uma abordagem outra, mais incidente numa perspectiva do futuro e não na análise do espinhoso caminho que percorremos, frequentemente com enormes alegrias, mas por vezes com grandes obstáculos.

E o futuro, que já é hoje, apresenta-se-nos bastante risonho, talvez até como nunca antes tinha acontecido: Portugal tem um governo que alterou profundamente o rumo das políticas liberais, as tais que com excessiva dureza penalizaram os portugueses, e demonstrou que com as novas políticas, de cariz socialista, é possível obter os bons resultados que a Europa reconhece e aplaude. É esse caminho, de reposição de direitos, de rendimentos e de liberdades que terá de ser prosseguido, tanto mais que ficou demonstrado à saciedade que essa via não inviabiliza, bem pelo contrário, a tão desejada quão necessária redução do défice.
A fórmula política encontrada por António Costa um Governo formado pelo PS com o apoio parlamentar do PCP, do Bloco e dos Verdes é inédita, única na Europa, mas nem por isso deixa de ter grandes virtualidades. Desde logo, porque acabou com alguns dos mitos com que a direita frequentemente nos brinda, a começar pela secundarização da Assembleia da República. Agora ficou perfeitamente claro que as eleições legislativas se destinam a eleger um Parlamento e não um Primeiro-ministro!

Mas a decisão original e patriótica dos partidos de esquerda, que finalmente decidiram não se deixar guetizar fora daquilo que a direita convencionou chamar arco da governação ou do poder, também mostrou aos portugueses, à Europa e ao mundo que é possível governar com outras políticas, mais amigas dos cidadãos e sem colocar em causa os altos interesses do país.
Eu sei que a direita e até algumas franjas do PS não revelam grandes simpatias pelas soluções políticas postas em prática pelo Governo de António Costa. Mas também sei que esse engulho não pode nem vai alterar opções políticas suficientemente validadas e que até obtiveram resultados excelentes. É a vida, como um dia António Guterres disse ao referir-se a alguns populismos.
O meu amigo Manuel Alegre, aquele que é verdadeiramente o poeta de Abril, escreveu há dias no Público, sob o título manter a excepção, fugir à regra, um texto onde defende que o caminho para o PS é fugir à regra da tentação centrista e manter a excepção da convergência à esquerda. Absolutamente de acordo com Alegre, mas ouso ir mais longe porque considero que já é mais que tempo para a solução de esquerda deixar de ser a excepção e passar a ser um dos vértices das regras da Democracia.

O assunto dominará, certamente, o próximo Congresso do Partido Socialista, marcado já para finais do próximo mês de Maio. Será ali o fórum privilegiado de discussão de políticas porque, como disse este fim-de-semana António Costa, este é o momento certo para começar a preparar o próximo ciclo e "pensar estrategicamente o país a prazo". Costa lembrou que foi possível o PS cumprir os compromissos assumidos com os portugueses porque houve o cuidado de preparar bem", realçando ainda o contributo da " base sólida", também para se obter "o maior crescimento desde o início do século, a maior redução do desemprego das últimas décadas e o défice mais baixo da democracia".

Claro que ainda há uma enorme mágoa pelo facto de os 44 anos de percurso democrático ainda não terem sido suficientes para cumprir Abril em toda a sua plenitude. Defrontamo-nos ainda com terríveis condicionalismos e algumas ameaças à democracia, mas é inegável que nestes últimos anos a convergência das esquerdas liderada pelo Partido Socialista conseguiu corrigir a rota que vinha sendo seguida e, dessa forma, reconquistar direitos e apresentar resultados que deveriam fazer corar de vergonha as vozes agoirentas que tentaram amedrontar os portugueses. Esse caminho, que repito - tão bons resultados tem dado, deve e tem de ser prosseguido para bem do país. Por outro lado, politicamente, essa solução só trará vantagens para o PS, como muito bem sublinhou há dias o porta-voz do partido. O lugar histórico do PS é à esquerda, disse João Galamba, antes de precisar que a não ser assim é melhor deixar de se chamar PS e abandonar de vez a família social-democrata. É esse o lugar histórico do PS. Ou se mantém, ou perde qualquer lugar histórico.
* O autor escreve em total desacordo e intencional desrespeito pelo dito Acordo Ortográfico, declarando-se objector do mesmo.

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