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Braga, quarta-feira

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A confusão na Ponte de S. João

O Estado desta Nação

A confusão na Ponte de S. João

Ideias

2024-06-23 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A noite de hoje costuma ser uma das mais longas do ano para todos os que apreciam o S. João, como é o caso dos bracarenses. É uma noite em que as pessoas aproveitam para prestar homenagem ao S. João e, ao mesmo tempo, libertar muito do stress que acumulam ao longo do ano.
Em Braga, um dos locais de maior concentração popular é a ponte de S. João, bem próxima da capela com o mesmo nome. Foi precisamente nesta ponte que ocorreu uma das maiores confusões verificadas durante as festas sanjoaninas.
As festas de S. João de 1888 decorreram, como era habitual, no meio de enorme alegria popular, verificando-se que desde “sexta feira até domingo, a cidade transformara-se completamente”, com tanta “concorrência de forasteiros” que há muito não se via, escrevia “O Regenerador”, de 28 de junho de 1888.

Pelas ruas da cidade circulavam nesses dias de festa “grupos de aldeãos, entoando cantigas ao som da viola e do harmonium, que veio substituir o tradiccional cavaquinho”. Verificou-se ainda que nos “hotéis e casas de pasto era espantoso o movimento. Ao Senhor do Monte affluiu tambem muita gente”, acrescenta a mesma fonte.
Na noite de dia 23 de junho, “entre as duas pontes, nova e velha” sob o rio Este, “estava o quadro do baptismo que attrahia immensa gente”. No momento em que o trânsito que circulava pela ponte velha se tornou quase impossível, devido à concentração popular, um conjunto de pessoas tentou forçar a passagem, originando então muita confusão, com sucessivos empurrões e apertos de tal forma constantes que a situação tornou-se descontrolada. Os suportes de segurança da velha ponte eram formados por pedras sobrepostas que ali se encontravam há séculos. Por essa razão, não resistiriam aos embates da multidão que se movimentava no sentido ascendente e descendente da ponte, verificando-se que “as guardas da ponte, do lado do nascente, tiveram que ceder à violência do impulso, arrastando na sua queda algumas pessoas…”.
O mesmo aconteceu em sentido oposto, com uma multidão assustada e espezinhada de tal forma que as pedras “d’esse lado cederam por seu turno, precipitando muitas pessoas no rio”. O pânico que se gerou foi assombroso e os “boatos que se espalharam eram aterradores”, espalhando-se a ideia que a desgraça era enorme, “fallava-se em mortes, em braços e pernas partidos”, aumentando estes boatos numa grande rapidez, o que causou ainda mais pânico na multidão!

Uma consequência imediata desta desordem foi a proibição da circulação das pessoas pela ponte velha, sendo então obrigadas a circular apenas pela ponte nova “convergindo para alli todo o povo, o que deu motivo a grande balbúrdia”. Esta decisão da polícia não foi muito acertada “em consentir que os carros obstruíssem a ponte de um tal modo, que na occasião de maior aperto, segundo affirma um nosso collega, estavam nada menos do que 35 carros”!
O autêntico suplício popular verificado na nova ponte durou mais de uma hora, perante a pouca eficácia das autoridades e perante o desespero geral!
Também “O Constituinte”, de 27 de junho de 1888, faz alusão a este enorme caos popular, referindo que no local aglomerava-se uma multidão de mais de 30 000 pessoas! Acrescenta ainda que nessa noite, “descollaram-se as guardas da ponte, e por consequência quantas pessoas estavam debruçadas sobre ellas, cahiram dentro do rio”.

Nesse momento podemos imaginar “o alarido, a gritaria, a confusão e a desordem que similhante incidente seria capaz de produzir n’um arraial povoado por mais de 30:000 pessoas”! O momento vivido pela multidão constituiu “realmente um espectaculo doloroso e afflictivo” aquele que se verificou entre “milhares de pessoas, que estanciavam junto do sinistro e sobre a ponte nova”!
Como é habitual, não se encontraram responsáveis por este incidente, embora a pouca segurança da ponte, cujas pedras estão “desde tempos immemoriaes gateadas, indicassem a necessidade de serem observadas antes, não se permittindo que sobre a ponte permanecesse reunida a massa enorme de povo, que ahi se costuma fixar em alvar pasmaceria”!

O perigo não vinha apenas da ponte velha, mas também do trânsito das carruagens que circulava na ponte nova. Segundo “O Constituinte”, de 27 de junho de 1888, é estranho que se autorize a circulação de pessoas ao mesmo tempo em que circulam “carruagens e todas as direcções”, isto numa ponte que “terá quando muito 5 metros de largura”! A passagem de carros de ambos os lados dessa ponte, obrigou mulheres, crianças e idosas a “escorregarem-se pelas rampas da ponte, em uma altura de mais de dez metros”!
Nesse momento uma nova confusão se gerou, pois “houve gritaria medonha, rewolvers apperrados e navalhas abertas contra os cocheiros, um verdadeiro pandemónio enfim, que podia ter por desenlace numerosas desgraças”.
Segundo o “Commercio do Minho”, de 26 de junho de 1888, em alguns pontos “os carros estavam a par dous a dous” ocupando praticamente na totalidade quer a estrada quer a ponte nova! Acrescenta ainda que “N’uma occasião de maior aperto, havia na ponte 35 carros”! As pessoas, querendo sair desesperadamente do local, empurravam-se, “atropelava-se e gritava n’uma indignação indisivel. Os cocheiros, querendo pôr os carros em linha, atropelavam o povo com os cavallos”!

Conforme esta fonte, em Braga nunca se tinha visto “uma desordem egual á que observamos na noite de sabbado”. A polícia pouco podia fazer, pois preocupou-se mais em socorrer os feridos e encaminhá-los para o hospital. E no meio desta desordem, o “povo levantou por varias vezes morras aos cocheiros, e aos fidalgos que iam de trem para a romaria”!
Apesar de não terem existido vítimas mortais, foram 14 os feridos, alguns com gravidade, que foram parar ao Hospital de S. Marcos.
Por fim, é de referir que só na noite de S. João foram consumidas mais de 50 pipas de vinho, não contabilizando aqui as que foram consumidas no Bom-Jesus e no Sameiro!

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