Correio do Minho

Braga,

- +

A Ciência na Escola — Prémio Fundação Ilídio Pinho

Personalidade e carater

Voz às Escolas

2010-04-01 às 06h00

Vasco Grilo Vasco Grilo

Há sempre uma forma especial de lidar com uma tragédia. Foi nisso que pensei ao ouvir a forma apaixonada como o mentor da Fundação Ilídio Pinho falou da sua obra, ao discursar na entrega de prémios da edição 2009 da “Ciência na Escola”. Foi uma breve referência, plena de pudor, mas inspiradora. A criação da fundação foi talvez a forma que encontrou para melhor cho-rar o filho que perdeu. Talvez que as melhores obras nasçam assim, de um gesto de amor.

Foi uma referência contida. A fluidez e o brilho do que foi dito a seguir provaram a maturidade do gesto, unindo bom gosto e clareza de ideias. Uma tese fundamental: a ciência deve ser ensinada desde muito cedo nas escolas, por ser essa a forma mais competente de tornar Portugal um país mais desenvolvido. A ciência e a tecnologia.

Dificilmente poderia haver uma forma melhor de homenagear a memória do filho, bruscamente ceifado a uma carreira empresarial em que, justamente, a ciência e a tecnologia seriam as traves mestras do que havia a construir. O Prémio Fundação Ilídio Pinho permitiu seguir em frente, unindo o que podia ser ao que ainda é possível fazer, unindo o passado de perda ao futuro criador.

A educação é sempre uma forma especial de lidar com a fragilidade da vida, em especial a educação escolar, tendo como alvo as crianças e os jovens. O ser humano nasce nu e indefeso. Se ficasse entregue a si próprio nunca poderia sobreviver. O que o torna forte e criador é a vida em sociedade, vida essa que só é possível através da educação. O que mudou nos últimos anos, no último século, foi a amplitude e a intensidade dada a esta ideia. A escola para todos é uma invenção do iluminismo mas é uma concretização recente. É contudo uma ideia generosa e igualmente tocante, tal como o gesto de Ilídio Pinho, por permitir que todos possam usufruir dessa força criadora que é o conhecimento.

Não sei se a ciência e a tecnologia devam ser as traves mestras da formação do ser humano. Tudo dependerá do que se quer dizer com “ciência e tecnologia”. O que sei é que o mundo de hoje exige pessoas competentes em ciência e tecnologia, assim como exige pessoas competentes em literatura, arte, filosofia, direito, sociologia, economia, isto é, naquelas áreas a que se convencionou chamar de humanidades. O acento na ciência e na tecnologia deve talvez querer significar uma outra forma de olhar o mundo, mais pragmática, mais empreendedora e mais realista.

A visão de Ilídio Pinho passa por considerar que o essencial é dotar o ser humano, todos os seres humanos, de consciência crítica face à realidade do cosmos em que ele está inserido. Numa fórmula feliz, para ele cada cabeça é um mundo, uma forma de conhecer e de criar, que importa desenvolver através da educação. O que o mundo contemporâneo exige é que na base dessa educação esteja o estudo da ciência e da tecnologia.

No meu entendimento, nada disto é incompatível com a cultura e o humanismo, bem pelo contrário. A mesma exigência crítica, posta ao serviço da ciência e da tecnologia, pode ser colocada ao serviço do desenvolvimento da Pessoa, uma outra forma também especial de entender o fim último da criação do ser humano.

P.S.: Um acontecimento trágico ocorrido numa escola, ainda à espera de melhor esclarecimento, foi o pretexto para inúmeras notícias, comentários, proclamações e, até, iniciativas legislativas. Não querendo desvalorizar a gravidade do que aconteceu, a verdade é que, como bem escreveu Daniel Sampaio, as escolas ainda são, em regra, lugar de paz e não de guerra. Agir como se fosse o contrário não ajuda nada a resolver aqueles casos de indisciplina ou de violência, que existem, mas que se devem entender e combater no contexto e circunstâncias em que se dão. A árvore não deve ser confundida com a floresta.

Deixa o teu comentário

Últimas Voz às Escolas

24 Setembro 2020

Dois pesos e duas medidas

23 Setembro 2020

“As bolhas” de Cidadania

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho