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Braga, segunda-feira

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A cega de Esporões e o cocheiro fugitivo

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Ideias

2019-01-06 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

O final de 2018 e início de 2019 ficaram marcados, nas estradas portuguesas, por um elevado número de acidentes e, consequentemente, de feridos e de mortos, aos quais já não estávamos habituados.
Entre os dias 21 e 26 de dezembro de 2018, ocorreram 1360 acidentes, dos quais resultaram 15 mortos (mais do dobro do ano anterior) e 29 feridos graves. Também, entre os dias 28 de dezembro de 2018 e 2 de janeiro de 2019, o número de vítimas mortais correspondeu a mais do dobro das verificadas em 2017. São números que devem fazer-nos pensar, numa análise que deve ser alargada também às caraterísticas próprias da sociedade em que vivemos, marcada por um ritmo, por vezes virtual, aparente e imediatista.
A questão dos acidentes faz-nos recuar a tempos em que era outro o tipo de transportes que atropelavam as pessoas, embora com menos intensidade do que atualmente se verifica. E o exemplo que aqui vou apresentar ocorreu em Braga há 115 anos.
Era um dia de verão de 1903. Na altura, os transportes públicos em Braga limitavam-se aos carros americanos (carruagens puxadas por máquinas a vapor) e aos transportes de tração animal, especialmente aqueles que eram puxados por cavalos e bois. Era um tempo em que alguns habitantes de Braga aproveitavam, por exemplo, para apanhar fezes de animais, a popular “bosta”, nas ruas de Braga, para fertilizarem as suas hortas!
Nesse início do século XX, as ruas de Braga eram percorridas por estes coches, autênticos táxis da época, onde muitos circulavam a alta velocidade e sem o mínimo cuidado pela segurança dos peões. Por ser um período estival e um sábado, algumas lojas abriam mais cedo, de maneira a conseguir servir com mais eficácia negocial os seus clientes. Com frequência, as pessoas deslocavam-se muito cedo à cidade, para aí fazerem as suas compras e foi o que aconteceu a Rosa Maria, uma viúva idosa, cega, natural de Esporões.
Nesse sábado, dia 25 de julho, pelas seis horas da manhã, Rosa Maria, de 70 anos de idade, estava a sair de uma mercearia, que se situava no então Largo do Beco, em Maximinos, quando surgiu como um autêntico relâmpago um “landeau”, com quatro pessoas, conduzido pelo jovem cocheiro Francisco José da Costa, de 19 anos de idade, filho do industrial Bento José da Costa.
Esse landau, que se encaminhava para o centro da cidade, deslocava-se a enorme velocidade, sem acautelar a segurança dos passageiros que transportava nem aqueles que percorriam as poeirentas ruas da época.
Apesar da velocidade com que circulava, o cocheiro ainda gritou e tocou várias vezes o sino de alerta, mas a idosa cega, que estava a sair de uma mercearia situada nesse Largo do Beco (no limite da rua Cruz de Pedra), não tinha já a agilidade física suficiente para atempadamente se desviar do veículo. Assim, a lança do “landau” desequilibrou-a, que caiu de imediato, tendo os cavalos e as rodas do veículo passado por cima da pobre mulher.
O choque foi de tal ordem que logo se juntaram várias pessoas, umas para socorrer a cega de Esporões e outros para assistirem, simplesmente, a este cenário dramático. Foi então que o cocheiro, assustado e muito transtornado, decidiu fugir do local, com medo da reação dos populares e da chegada da polícia.
Os ferimentos no corpo e na cabeça de Rosa Maria eram de tal gravidade, que ainda chegaram a transportá-la para o hospital de S. Marcos, em maca, mas quando lá chegou a senhora já estava morta.
A polícia foi chamada ao local e não tendo encontrado o jovem cocheiro, que tinha fugido, questionou os populares que tinham assistido ao acidente. No entanto, todos foram unânimes em ilibar o jovem, pois este tinha gritado por três vezes e tocado várias vezes o sino de alerta do “landau”, mas a idosa não ouviu estes alertas e não conseguiu atravessar a rua em segurança.
A autópsia à cega de Esporões foi realizada pelos respetivos médicos, tendo a ela assistido também os magistrados da Justiça. Seguiu-se o funeral, marcado por enorme pesar, quer dos familiares, quer dos amigos da idosa, uma vez que Rosa Maria era muito conhecida na freguesia, também por ser costureira.
Em relação a Francisco José da Costa, o cocheiro, andou fugido durante alguns dias, com medo das autoridades policiais, uma vez que se desconfiava que não tinha a habilitação necessária para conduzir o “landau”. Acabou, no entanto, por ser presente ao poder judicial e responder pela atitude que tomou.

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