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Braga, sábado

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A catástrofe que marcou a Festa das Cruzes

A resolução de conflitos de consumo através da Internet (RLL)

A catástrofe que marcou a Festa das Cruzes

Ideias

2021-05-05 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Aprimeira grande romaria minhota, que deveria acontecer neste primeiro fim de semana de maio, não se realizou pelo segundo ano consecutivo. Refiro-me à Festa das Cruzes, em Barcelos, que deve a sua origem a uma cruz que terá aparecido ao sapateiro João Pires, em 1504, no atual campo da Feira.
Desde esse ano de 1504, já passaram 517 anos e inúmeros acontecimentos marcantes na nossa região e no nosso país. Recordo os sessenta anos de domínio de Castela (1580-1640); as invasões francesas (1807-1811); as duas guerras mundiais ou a guerra colonial. Nenhum destes acontecimentos impediu a realização da Festa das Cruzes. Até mesmo as constantes epidemias, que ocorriam na nossa região, fruto das precárias condições de higiene dos raros cuidados médicos, foram suficientes para o cancelamento desta festa profundamente religiosa e popular.
Tal como o ano passado, assistimos ao cancelamento da Festa das Cruzes, numa decisão nunca antes verificada em mais de cinco séculos. Contudo, houve um momento absolutamente dramático que, não tendo originado o cancelamento da Festa das Cruzes, provocou o seu adiamento em cerca de cinco semanas. Refiro-me a um acidente rodoferroviário que trouxe o luto e o sofrimento ao concelho de Barcelos.
Foi exatamente no dia 1 de maio de 1938, passam agora 83 anos, que um desastre marcou profundamente não só o concelho de Barcelos, mas toda a região do Minho.
Nesses anos de domínio do Estado Novo, o Dia do Trabalhador era assinalado com enorme aparato, pela influência que esse regime exercia em todas as estruturas portuguesas, inclusive na Festa do Trabalho, onde os membros do Governo participavam ativamente.
Tendo o Estado Novo decidido realizar a II Festa do Trabalho em Viana do Castelo, de todos os pontos do Minho partiram milhares de pessoas, deslocando-se uns de comboio, outros de autocarros, outros ainda de camionetas, de carros ou até a pé. Foi neste contexto que foram de Barcelos para Viana do Castelo várias centenas de trabalhadores para aí se juntarem a outros participantes.
No final desse dia 1 de maio, os pontos de saída de Viana do Castelo foram poucos para escoar toda essa gente. Na estação de caminho-de-ferro da cidade aglomeraram-se milhares de pessoas, de- sejosas de apanharem os comboios especiais que os levassem a Barcelos, Braga ou Porto! Não havendo horários nem sistema de som na estação, foram milhares os passageiros que se aglomeraram nesse espaço, uns entrando pelas portas, outros pelas janelas dos comboios. E quando ouviam alguém dizer que não era esse o comboio, deixavam as carruagens em grupos desorientados, causando ainda mais agitação!
Entretanto, uma das muitas camionetas que saía de Viana do Castelo para Barcelos sofreu um acidente verdadeiramente brutal! Quando regressavam a casa, por volta da meia-noite de domingo, dia 1 de maio, logo à saída da ponte de Viana do Castelo, a camioneta “Ford”, de Chorente (Barcelos) com 41 passageiros, “sentados em três toscos bancos” (1) sofreu um violento acidente.
Nessa noite de nevoeiro e chuva, a camioneta atravessou a passagem de nível de Gondim, que no momento se encontrava com as cancelas abertas, foi apanhada pelo comboio especial que saía de Viana do Castelo e transportava para Braga centenas de passageiros, oriundos dessa II Festa do Trabalho, provocando 24 mortos!
O relato de “O Comércio do Porto” (1) é assustador: “A caminheta ficou em destroços. Dos 40 passageiros, quase todos jornaleiros e lavradores, uns ficaram, ali, logo mortos e quási todos irreconhecíveis; outros, foram arremessados á estrada, do outro lado, com enorme violência; outros, ainda, atirados ao cabeçote da locomotiva, ali ficaram, mortos e, quando o comboio parou, arremessou-os ao rio Lima (…).
Mas o relato não se ficou por aqui: “Os corpos voaram em todos os sentidos. Ao longo da linha férrea viam-se corpos mutilados, fragmentos de carne retalhada, escorrendo sangue, e pedaços de madeira e ferro partido ou contorcido, pertencentes à caminheta (…)”. Mesmo junto à ponte metálica viam-se “cabeças e mãos decepadas, de mistura com intestinos e braços; a dois metros das cancelas, montes de massa encefálica, pés decepados a meio!”.
Os mortos, na sua maioria das freguesias de Chorente, Chavão, Gueiral, Remelhe e Macieira de Rates, foram levados para a morgue do Hospital da Misericórdia de Viana do Castelo, tendo sido difícil efetuar a sua identificação, tal era o estado em que se encontravam. Os feridos foram entregues aos cuidados das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras Portuguesas.
Logo pela manhã do dia 2 de maio, foram milhares de pessoas que se aglomeraram junto ao Hospital, tendo a polícia muitas dificuldades em impedir que o Hospital fosse invadido.
Alguns familiares dos feridos graves pediram junto do Hospital que os deixassem ir para casa, apesar do seu grave estado de saúde, para que dessa forma pudessem viver em casa os seus últimos momentos de vida. Assim, na manhã de dia 2 de maio, “a instantes rogos da família, foram retirados do hospital e conduzidos para suas casas, na ambulância dos Bombeiros Voluntários de Viana, os feridos José Ferreira Araújo e Maria Ferreira Novais, que, poucos minutos depois de chegarem a sua casa, em Macieira de Rates, expiravam…” (2).
Ruy de Menezes, depois de visitar a morgue do Hospital, referiu, no Diário do Minho (3 de maio de 1938) que “…queria que todos os homens, todos os ricos, os avarentos, os egoístas, todos os tiranos que esmagam os povos e desprezam o semelhante, entrassem nela e, à vista daqueles vinte e um cadáveres, meditassem no fim que os espera! Eu queria que viessem ao Hospital de Viana êsses criminosos sem nome que preparam e fazem as guerras…”.
Quando se preparava para abandonar a morgue do Hospital, Ruy de Menezes viu “um montão de carne humana constituída por dedos, vísceras, couro cabeludo, enfim, mil pequenos fragmentos que não se sabia a quem pertenciam!”
Em volta do Hospital encontravam-se milhares de pessoas, algumas em silêncio, outras em prantosos choros, ao observarem o cortejo de caixões modestíssimos a saírem da morgue do Hospital! Alguns caixões escorriam sangue!
O mesmo cenário foi verificado em Barcelos, quando pelas 10 horas da manhã do dia 3 de maio atravessaram pela cidade os simples caixões das vítimas, verificando-se milhares de pessoas, em silêncio, a olhar para tão tenebroso cenário.
Após este acidente, foram presos o motorista da “caminheta” e a guarda da linha ferroviária (Angelina Brandão) que momentos antes da chegada do comboio, tinha aberto as cancelas para deixar passar dois automóveis conduzidos por industriais da região.
Este acidente provocou um verdadeiro luto nacional e “dum extremo ao outro das nossas fronteiras só se ouvem lágrimas e soluços”. (3)
De referir que o programa das Festas das Cruzes, que se deveria realizar nos dias 2 e 3 de maio de 1938, foram adiados e realizados nos dias 11 e 12 de junho de 1938.


1) O Comércio do Porto, 3 de maio de 1938.
2) O Comércio do Porto, 4 de maio de 1938.
3) Diário do Minho, de 8 de maio de 1938.

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