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A catástrofe no ‘Jornal de Notícias’

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Ideias

2014-11-23 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A época de Natal, que se aproxima, é propícia a concursos organizados por órgãos de comunicação social. Normalmente, nesses concursos são atribuídos prémios, que são a causa principal de todos os que concorrem aos referidos concursos. Neste sentido, recordarei aqui aquela que foi, muito provavelmente, a maior tragédia que ocorreu com um concurso organizado por um órgão de comunicação social.

Tudo aconteceu em 1907, com um concurso lançado pelo “Jornal de Notícias”, no verão desse ano. Nele, o jornal apresentava 12 figuras enigmáticas, as quais os concorrentes teriam de identificar.
Terminado o prazo de concurso, o jornal convidou os concorrentes a dirigirem-se à sua sede, situada na Rua D. Pedro, no Porto, para lá terem conhecimento dos respetivos vencedores. Isso ocorreu no dia 29 de agosto de 1907, uma quinta-feira, ao início da tarde.

Nesse dia, no momento em que numa das salas do jornal o júri do concurso se encontrava reunido para proceder à entrega dos prémios, um acontecimento de todo inesperado ocorreu: o desabamento do chão onde se encontravam os concorrentes!
No primeiro piso da sala atrás referida, encontravam-se várias centenas de pessoas que para aí se deslocaram, todas ansiosas pelo momento em que os responsáveis do jornal iriam divulgar o nome dos vencedores.

Foi nesse momento de ansiedade e de grande concentração de pessoas que tudo aconteceu: de repente o chão desabou, arrastando com ele centenas de pessoas e ainda estantes, armários, mesas e demais mobiliário. Todo este material caiu numa loja que se situava por baixo, na qual se encontrava um armazém com pipas de vinho. 
As consequências foram trágicas: morreram de imediato dez pessoas, ficando feridas mais de cem, algumas delas com gravidade.

Relativamente aos elementos do júri e aos funcionários do “Jornal de Notícias”, conseguiram salvar-se, pois na ocasião encontravam-se na parte do pavimento que não desabou.
A situação causou um pânico de tal ordem que, de imediato, chegaram muitos populares, os bombeiros voluntários e ainda os bombeiros municipais, que se depararam com um cenário verdadeiramente horroroso, pois, para além dos dez mortos, encontravam-se mais de cem pessoas feridas.

As ruas D. Pedro e do Laranjal foram de imediato guardadas por vários piquetes, compostos por populares, pela polícia, pela infantaria e pela cavalaria da guarda municipal, de maneira a protegerem os vários feridos e a facilitar os trabalhos de socorro.
De referir que uma das vítimas desta tragédia foi o jovem José de Araújo Braga, de 13 anos, residente no Campo de S. Tiago, em Braga, que se tinha apresentado a concurso e, naturalmente, tinha o desejo de ser um dos contemplados com um prémio.

Em sinal de recolhimento e luto, muitos estabelecimentos comerciais do Porto decidiram, logo nessa tarde, encerrar as suas portas e outros decidiram colocar a bandeira nacional a meia-haste.
A Ordem do Carmo e a Irmandade do Terço colocaram os seus hospitais à disposição das autoridades, para que estas encaminhassem para lá os sobreviventes feridos nesta tragédia.
É curioso verificarmos que, nos escombros do local, foram encontrados vários objetos pessoais, destacando-se mais de cem chapéus (noventa e oito de homem e cinco de senhora) e vinte e seis bonés.

Esta tragédia preocupou os portugueses e as entidades nacionais e, de imediato, foram surgindo telegramas de condolências, nomeadamente do Rei D. Carlos e de várias Câmaras Municipais, que se quiseram solidarizar com as vítimas deste desastre.


P.S. Uma referência a um dos maiores nomes que Braga adotou: Lúcio Craveiro da Silva.
Nasceu na Covilhã, a 27 de novembro de 1914, há cem anos. Sacerdote, doutorado em Filosofia, Superior Provincial dos Jesuítas portugueses, Diretor do Instituto Superior Económico e Social de Évora, membro da Comissão Instaladora da Universidade do Minho, Reitor da Universidade do Minho, tendo sido o primeiro reitor eleito em Portugal. Foi ainda membro do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e da Academia das Ciências de Lisboa. Faleceu em Braga, 13 de agosto de 2007.
Braga presta-lhe homenagem atribuindo o seu nome à Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva que é neste momento um dos melhores polos de divulgação da nossa cultural. Pela elevada frequência diária e pelos eventos que lá são realizados, também dessa forma o nome de Lúcio Craveiro da Silva se vai perpetuando na atualidade.
Assim se divulgam aqueles que deram o melhor de si em prol da sociedade e da época em que viveram.

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