Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A carta para entregar à viúva

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Conta o Leitor

2014-08-23 às 06h00

Escritor

Por: Félix Dias Soares

Todos os dias e em muitos locais, encontramos pessoas que têm muito de comum connosco, com muitos caminhos paralelos percorridos. Por vezes bastaria uns minutos de conversa para iniciar uma verdadeira amizade. Esta história começou quando um dia fui procurado para integrar uma equipa de portugueses, para substituir o único encartado. Nos anos sessenta e setenta, em França havia dificuldade encontrar Portugueses encartados para conduzirem as equipas ao trabalho, sobre tudo as equipas que trabalhavam ao metro como era o nosso caso. Depois de alguma hesitação aceitei o emprego, substituindo assim um Português chamado Arlindo. Era alguém muito reservado e a conversa foi de circunstância, apenas falamos de trabalho, desejando cada um boa sorte na despedida.

Passados poucos meses, os meus colegas de equipa zangaram-se entre si, eu como já era Dezembro e o Natal aproximava-se decidi vir para Portugal passar o Natal com a minha esposa e o meu filho que ainda não tinha dois anos. Em Janeiro voltei para frança à procura de trabalho, pois nesse tempo era fácil encontrar emprego. Numa das ruas da cidade encontrei o Arlindo, que estava a chegar de Portugal, pois o seu novo trabalho também não tinha corrido bem e tal como eu estava desempregado.

Eu convidei-o a vir comigo a um patrão para quem já tinha trabalhado, mas ele recusou dizendo que já tinha uma promessa de trabalho e despedimo-nos. Eu arranjei trabalho, mas a minha preocupação era conseguir uma situação estável, para poder levar a família em quem pensava noite e dia. Foram necessários três anos de sacrifício, mas enfim, já tinha a minha família comigo, era o nosso lar e estava-mos todos muito felizes. Ainda tinham passados poucos meses de estar instalado com a família, tive um convite para ir trabalhar ao metro para uma boa empresa, era uma equipa de três mas um estava doente e logo que ficasse restabelecido ficaríamos a quatro, eu como tinha espirito aventureiro aceitei. Foi uma grande surpresa ao ver que o doente era o Arlindo, mais uma vez os nossos destinos se cruzaram. Estava muito debilitado à espera de ser operado ao estomago, dizendo ser o ultramar a causa da sua doença.
Seguiu-se a operação, eu ia visita-lo à noite depois do trabalho e soube mais da vida do Arlindo, que tinha mulher em Portugal e um filho, em Portugal por vontade dele, a família ignorava a sua situação. Ele tinha família na cidade e depois foi acolhido pelo tio durante o tempo de convalescença e a sua mulher foi visita-lo quando já quase recuperado. Pouco tempo depois, os médicos davam-no como apto ao trabalho, sua mulher regressou a Portugal, mas o Arlindo nunca recuperou verdadeiramente a sua saúde. Foram muitas as idas às urgências mas diziam tudo estar bem, mas a verdade é que cada vez estava mais frágil, ao ponto de não poder fazer todos os trabalhos. Um dia ao fim da tarde passou o patrão e um Comercial da firma e o patrão usou este termo! Tu vais morrer Arlindo… O Arlindo não falou, fomos nós que relatamos todo o historial. Então o Comercial camado Hilary prometeu fazer alguma coisa por ele, visto a sua esposa ser Enfermeira numa Clinica Privada.

Dias depois, o Arlindo com quarenta quilos de peso entrava nessa Clinica para recuperar peso para semanas depois poder ser operado. Mas o Cirurgião numa conversa pouco ambígua e explicações técnicas complexas, foi claro ao dizer, que restava ao Arlindo apenas dez por cento de vida e sem esta cirurgia estava perdido. O momento aproximava-se, o Arlindo pediu para que a sua esposa não fosse informada da grave situação. Recebeu a visita do anestesista que lhe pediu coragem e para pensar positivo que tudo iria correr bem. Eu visitei-o nesse dia, tinha mudado de quarto e tudo estava preparado para a cirurgia no dia seguinte. Mas encontrei o Arlindo muito resignado, de momento largou um sorriso e disse que tinha um pedido a fazer-me, eu disse estar às ordens para tudo, ele disse, eu sei. Foi ao armário e tirou um pequeno saco dizendo: Está aqui a minha carteira com todos os meus documentos, um cruxifixo que me acompanhou no Ultramar e uma carta fechada para entregares à minha mulher, depois de eu morrer e as lágrimas que á muito tentava conter correram lhe a face. Eu disse-lhe para acreditar num milagre da Medicina e na sua força de lutador, influenciada ou não pelo seu espirito de combatente.

O Arlindo deixou-me preocuado, então se morresse? Teria de ser eu a tratar de tudo! Visto ser a mim que confiou os documentos? A operação correu bem, mas seguiu-se uma complicação e o Arlindo estava num estado crítico, num severo isolamento. A família mandou ir a esposa para trazer o corpo logo que morresse. As visitas eram anunciadas e só podia estar uma pessoa de cada vez com bata e mascara.

De manhã, ao fazer a minha visita, cruzei-me com uma mulher jovem, que suspeitei ser sua esposa, uma jovem que dias depois seria viúva. Senti um arrepio ao pensar, no momento que lhe teria de entregar a carta deixada pelo marido. E depois, o Arlindo tinha família e mais amigos e porquê eu? Então lembrei todos os que não sabiam escrever e recorriam a mim, nos anos sessenta em frança e depois no Ultramar. Todos eles tinham amigos mas era eu o seu confidente, seria eu uma boa sina? O Arlindo esteve do outro lado da vida, mas voltou. E a nossa amizade ficou vincada para sempre. Não tive que entregar a carta, porque o meu amigo Arlindo Fernandes, não morreu…

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.