Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A Braval, o Ambiente e Trump

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2017-06-06 às 06h00

Jorge Cruz

Dados divulgados há dias pela Sociedade Ponto Verde dão-nos conta que a Braval ocupa um lugar cimeiro, a nível nacional, no que concerne à reciclagem. Segundo esses números, esta empresa intermunicipal é aquela que mais resíduos envia para reciclar, per capita, no continente nacional, apenas com exclusão da ALGAR, a empresa que abrange todo o sistema do Algarve, região que, como é sabido, regista altos níveis de flutuação da população.

Creio que numa altura em que as questões ambientais dominam o discurso político, aliás ontem assinalou-se o Dia Mundial do Ambiente, é francamente anima- dor constatar que uma região tão densamente povoada, como aquela que a Braval serve, manifesta grande sensibilidade para as questões ambientais e, mais do que isso, se encontra na primeira linha da reciclagem.

E foi principalmente em função das múltiplas e diversificadas acções de sensibilização junto das populações, acções que se iniciam logo junto dos alunos do ensino básico, que a Braval conseguiu obter os excelentes resultados que agora orgulhosamente apresenta. Resultados verdadeiramente espectaculares, porque superiores à média nacional em cerca de nove quilos per capita. Com a estratégia que implementou no terreno também contribuiu para a melhoria da qualidade de vida ambiental das populações de Braga, Póvoa de Lanhoso, Vila Verde, Vieira do Minho, Amares e Terras de Bouro.

Constata-se, de facto, que nos últimos anos a evolução na área ambiental foi imensa e, como consequência natural desse desenvolvimento, “vai bem longe o tempo das grandes lixeiras a céu aberto”, conforme também nota o gestor.

Claro que o progresso registado serve e satisfaz as populações dos concelhos servidos pela Braval, que aproveitam os seus benefícios, mas também deve encher de orgulho o director executivo da empresa, tanto mais que os excelentes resultados agora divulgados resultam de um trabalho persistente de mais de duas décadas. Contudo, Pedro Machado não descansa à sombra do sucesso e já alerta para a necessidade de alcançar metas bastante mais ambiciosas, no caso mais 16 quilos per capita até 2020, pois considera que só atingindo essa meta será possível garantir às novas gerações um planeta ambientalmente mais sustentável.

Na realidade, o Plano Estratégico dos Resíduos Sólidos Urbanos (PERSU 2020) impõe o envio para reciclagem, naquela data e na área geográfica sob a responsabilidade da Braval, de 53 quilos de resíduos sólidos por habitante, objectivo que face aos resultados entretanto obtidos e à dinâmica em curso parece ser perfeitamente alcançável.

De resto, Machado adverte que “é preciso fazer muito mais” porque “se não fizermos nada, daqui a 40 anos não vamos ter recursos à nossa disposição”. Curiosa e lamentavelmente, temos no outro lado da barricada o alegado mais poderoso homem do mundo que, como se viu agora em relação ao Acordo de Paris, não manifesta a menor preocupação com o futuro do planeta!...

É que não nos podemos esquecer que aquele acordo, formalizado em Paris em Dezembro de 2015 no decurso da conferência das Nações Unidas sobre o clima, foi subscrito por 195 países, além da União Europeia, e constitui o primeiro grande compromisso de toda a comunidade internacional na luta contra as alterações climáticas. Também por essa razão e pela enorme complexidade das negociações, que se prolongaram durante anos, o documento constitui um dos maiores desafios do século XXI.

De facto, o documento representa uma substantiva alteração de paradigma, uma vez que reconhece explicitamente que o desafio das alterações climáticas só pode ser vencido com o contributo de todos. Desse ponto de vista, o “boicote” de Trump pode considerar-se um sério revés para as políticas de descarbonização das economias mundiais que o acordo preconiza, designadamente ao estabelecer o objetivo de limitar o aumento da temperatura média global a níveis bem abaixo dos 2ºC acima e a prosseguir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC.

Percebe-se que o presidente americano sinta grande incómodo em aceitar uma redução drástica das emissões de gases com efeito de estufa através de medidas de poupança de energia e de investimentos em energias renováveis. Mas esse desconforto não decorre de ignorância porque ele sabe que tais políticas contribuirão para reduzir significativamente os riscos e impactos das alterações climáticas. Também sabe, contudo, que a rejeição dessas políticas e a opção por uma estratégia nacionalista de energia baseada nos combustíveis fósseis mais sujos satisfaz uma parte do seu eleitorado, aquele que continua a pensar ser esse o caminho para a América ser mais forte ou mais segura.

A prova de que Trump e os seus assessores do movimento “América Primeiro” estão profundamente errados tem vindo a ser dada através do isolamento crescente em que o presidente está a ser colocado. O coro de críticas, algumas das quais bastante ferozes, tem juntado líderes políticos, empresários líderes da economia mundial, e até mesmo alguns correligionários políticos.

Ignoro se o presidente americano vai ou não recuar nesta mal explicada decisão mas as garantias entretanto dadas, por exemplo, pela chanceler alemã, segundo a qual 'nada pode nos impedir' de preservar conquistas e o comprometimento global com o meio ambiente, e prometendo 'ações mais decisivas do que nunca', constituem um recado com destinatário e contribuem para sossegar o resto do mundo. 'Precisamos desse acordo para preservar nossa Criação', disse Angela Merkel, numa das raras vezes em que fez uso de uma expressão religiosa. 'Nada pode ou vai nos impedir de fazê-lo.' Ainda bem que assim é porque, como também disse o presidente francês, “não se enganem sobre o clima. Não há plano B, porque não há planeta B”.

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