Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A Braga não basta ser Romana, é preciso parecê-lo

Pecado Original

Ideias Políticas

2013-05-28 às 06h00

Carlos Almeida

Já lá vão dez anos e outras tantas edições. Em 2004 realizava-se pela primeira vez em Braga, por proposta de um vereador da CDU, uma feira romana com o objectivo de recriar a vivência àquela época e valorizar o património que dela herdamos e que entretanto conseguiu sobreviver à falta de sensibilidade por vezes manifestada na gestão da cidade.

Entre os dias 22 e 26 de Maio, da cidade se fez novamente palco para mais uma edição da Braga Romana. A décima e a confirmação de que a aposta no envolvimento da comunidade como via para a realização cultural é, sem margem para dúvidas, uma aposta ganha.

O evento Braga Romana é provavelmente o único que, nos longos anos de governação de Mesquita Machado no município de Braga, conseguiu afirmar-se na cidade, na região e mesmo no país como uma realização aberta à participação dos cidadãos, com rigor histórico aperfeiçoado anualmente e atractividade considerável. Também por isso devesse merecer um investimento maior na sua divulgação, algo em que continua a pecar por defeito.

No entanto, a avaliação parece menos animadora quando fala-mos da Braga Romana à margem do evento de cinco dias. Da Braga que nem sempre soube, ou quis, aproveitar o património arqueológico que a história decidiu preservar. Da Braga que, apesar de ter já descoberto outros espaços e conjuntos arqueológicos de elevado valor, continua a não investir na sua musealização e promoção enquanto afirmação da sua marca bimilenária e aposta no turismo cultural.

É neste contexto que não se compreende a hesitação e as incertezas que envolvem a escavação e o estudo da insula das Carvalheiras e do Teatro Romano, que continuam à espera da vontade política e do respectivo financiamento para que se possam tornar espaços visitáveis.
De todos os edifícios de Bracara Augusta, considerando evidentemente apenas os que se conhecem até ao momento, a insula das Carvalheiras e o Teatro Romano serão provavelmente os de maior valor, mas nem por isso mereceram maior atenção dos responsáveis da Câmara Municipal.

Ao contrário, nos últimos tempos têm sido tomadas outras decisões, de interesse público duvidoso, para as quais não faltam dinheiro nem vontade. Assim foi na expropriação de terrenos no monte do Picoto para a construção de um “parque”, na aquisição da fábrica Confiança para lá se instalar não se sabe bem o quê, ou ainda, mais recentemente, na expropriação dos imóveis contíguos ao Recolhimento das Convertidas porque era preciso “dar um jeito” aos que mais precisam. Prioridades trocadas, direi.

Falo de vários milhões de euros, gastos sem sentido, quando, se aplicados nos investimentos certos, Braga podia hoje orgulhar-se da sua oferta cultural, patrimonial e turística. Mas não foi assim e hoje só podemos lamentar a falta de visão de quem governa há mais de 37 anos a cidade e que, por tais actos cometidos, demonstra o fraco apego que tem à cidade, à sua história e às suas gentes.

Esperemos que nos próximos tempos, quando a festa voltar à cidade, sabendo-se que o Imperador será necessariamente outro, o povo de Braga possa, pelo menos, ter a certeza de que os romanos não viviam apenas cinco dias por ano.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias Políticas

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.