Correio do Minho

Braga,

- +

A (boa) densidade urbana

A resolução de conflitos de consumo através da Internet (RLL)

A (boa) densidade urbana

Ideias

2021-05-03 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Como conclusão do último texto, escreveu-se “distinguir densidade enquanto massificação de densidade enquanto optimização; consensualizar que densidade não depende tanto do seu conceito e significado, mas, estrutural e fundamentalmente, de como se materializa, é tarefa árdua quanto indispensável” e, agora, relembra-se três palavras indissociáveis da (boa) densidade: diversidade, dinâmica e desenvolvimento: diversidade no sentido de que a Cidade deve abarcar ou agregar e não excluir ou discriminar, deve reunir as condições para albergar a multiplicidade de interesses, vontades e necessidades que a todos assiste, na convicção e fundamento de que a Cidade é direito e democracia; dinâmica na correspondência aos fluxos e mudança que gera e que se sujeita fruto das circunstâncias – sejam elas de que natureza forem – que, ao longo do tempo, se vão impondo e condicionando. Assumir que a cidade é uma “realidade em constante mutação”, num quadro equilibrado com a previsibilidade inerente ao suporte da vida de humana, é factor qualitativo e necessário; desenvolvimento na convicção de que a Cidade é uma oportunidade de crescimento e cultura, oportunidade de relação e construção, devendo significar (sempre) melhoria e (boa) atenção ao que necessitamos e desejamos. Desenvolvimento projectando novas exigências e desafios, mas também melhores respostas e concretizações.

Devemos, pois, regressar a esta (boa) densidade e tratá-la em função da circunstância actual que, numa leitura macro, apela à focalização em três grandes áreas: habitação, mobilidade e trabalho (subentendendo-se que a valorização do espaço público é omnipresente sempre que “se fala” da Cidade e desta densidade). Três áreas que, dir-se-á, não são novidade e sempre estiveram latentes e presentes, mas que, no tempo actual, a pandemia veio confirmar o quanto são incontornáveis nas cidades contemporâneas.
Ora por visibilizar problemas resultantes de um uso mais intenso e exigente (habitação), ora por expor benefícios e ganhos na sequência da redução que se sentiu (mobilidade), ora pelas implicações que acarretaram novas formas de laboração (trabalho), reconhece-se que estas três grandes áreas adquiriram um protagonismo acrescido e um confronto com a sua intrínseca qualidade e resposta tão forte quanto inevitável não reconhecer e tratar.
A exigência do confinamento e da permanência prolongada nas habitações, fazendo desta local de abrigo, estar, lazer, ,…, trabalhar, tudo misturando e sobrepondo, veio visibilizar problemas inerentes a esta densidade “massificada” - habitações reduzidas em área, insalubridade, iluminação e insolação, desconforto térmico e qualidade construtiva reduzida, falta de espaços exteriores complementares - numa constatação de que, durante muito tempo, a habitação foi tratada (sobretudo) como um problema quantitativo. Ou dito doutra forma, não se tratou de responder ao desafio da boa e digna habitação, antes procurou-se suprir a ausência de habitação. (Chegados aqui, conclui-se que não se ganhou a primeira nem se eliminou a segunda)

A ausência de movimento automóvel fez ausentar das ruas e espaço público automóveis em série, expondo tanto solo impermeabilizado , o quanto o automóvel impede de se observar e contemplar a paisagem urbana, o quanto a qualidade ambiental ganha proporcionalmente à redução da pendularidade e o quanto espaço público é liberto e disponibilizado para outros usos e apropriações.
A necessidade de recolhimento e de condicionar relações e interacções profissionais e laborais sem evitar ou prejudicar formas mínimas de trabalho, de modo a responder à premissa “a vida continua”, originou a exposição e valorização de novas formas de trabalho, com particular destaque para o teletrabalho. E tal indiciou potencialidades de colaboração até então, de alguma forma, secundarizadas, mas também evidência de conflitos e incompatibilidades entre, sobretudo, modos de habitar e trabalhar que importam atender, considerar e superar, exigindo-se, assim, eventualmente, a criação de espaços colectivos e colaborativos, de partilha e optimização de recursos, de consciencialização de funções, direitos e deveres que a todos assiste no campo laboral, pessoal e urbano.

Na verdade, é convicção de que tudo isto é possível, sendo a (boa) densidade parte da solução e não fonte de (futuros) problemas. E de que, sendo exigente e imenso o caminho a seguir, pouco mais há do que esta alternativa e este cenário, importando, o quanto antes, começar a caminhar…
E, nestas circunstâncias, caminhar constitui o grande desafio porque, realisticamente, não é caminho que se faça rapidamente e sem dor, não é caminho feito de protagonista e, sobretudo, não é caminho sem dificuldades ou armadilhas. Pelo contrário!
A (boa) densidade exige a percepção de que, sendo o caminho evidente, as soluções para concretizar “passo a passo” não serão tão óbvias e consensuais assim, gerando “ruído” e demora; não serão visíveis e apropriáveis no momento, sendo provável “sentir-se” os respectivos efeitos positivos das opções e medidas tomadas muito tempo depois; não serão pacíficas, exigindo resistência à tentação da resposta imediata e de efeito bom, tão aparente quanto efémero.
Talvez aqui se coloque outra forma de ver e percepcionar a (boa) densidade. Porque, na verdade, a mesma também exige que quem governa, gere, desenha e usa a Cidade seja feito de (boa) densidade. De pensamento e acção. De opção e concretização. De ética, procurando sempre o bem. No caso, em benefí- cio da (boa) Cidade que todos desejam!

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho