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A banha da transição digital e outras petas

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A banha da transição digital e outras petas

Escreve quem sabe

2020-10-04 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Reconheço palavra em falta, mas não há leitor a quem a «cobra» não venha por associação. Poupei, assim, o que o leitor ajusta, nesta partilha criativa que cara me é, que algo se move o mundo na esteira do que lemos e do que escrevemos, ou devia, pelo menos.
Mas passemos adiante. Consta que virão aí contentores de dinheiro, que há de ser gasto segundo eixos prioritários, entre os quais o da transição digital. Nada a obstar, posto que o computador facilita, acelera, e o que mais queiramos juntar por enxoval. Se de corpo e alma estou com a primeira parte da formulação, dividido ou relutante me encontro com a entronização, se por incontornável a contam para que conheçamos um acréscimo de eficiência, rentabilidade, riqueza e bem-estar.

Entenda-se: eu gostava de ser cidadão da Nação mais eficiente do mundo, fosse eu o menos bafejado dos seus pares, e de vergonhas saísse coberto à rua em dia de paradas. Sim, gostava, eu só não atinjo é a relação de causa-efeito entre a massificação do digital e a eficiência colectiva, e explico. Vejamos, já antes de haver computadores havia quem nos suplantasse em resultados, povos que suspeito que nos continuem a passar a perna, independentemente da ferramenta que esteja em voga. O que quero dizer é que, de computadores em riste, muito temo que atrasado cabeceie o luso, que encalhe em Matrix abúlica o que antes se perdia em escaninhos. Não nos livra a electrónica de quem decide ou protela por algoritmo particular, que avesso é ao interesse colectivo, que a todo o pano se invoca, no entanto, como máscara de vantagens pessoais.
Anulassem os bites a mentalidade do papel azul de vinte cinco linhas, resolvesse o e-mail transparente aquilo que de hábito precisa do empurrãozinho, da palavrinha, da cunhita da praxe! Houvesse por aí um Neo, um Cristo revisitado, que em luz provocasse a implosão de torto-andar!

Vivo Sebastião, ele a modos que há, aquele senhor Costa – o outro, que é muito avisado, honesto e boa pessoa, que Portugal tem mais costas que barriga, e no litoral é que se está bem. Ah plano milagroso! É desta que a coisa se compõe, atrevo-me a afirmar: ele é a educação e a qualificação, ele é a ferrovia bendita contra o maldito alcatrão, ele é o desenvolvimento harmónico, a povoação equilibrada do interior, ele é os salários dignos, a toca honrosa e amiga do ambiente, ele é a justiça social, ele será a morte suave, que em posfácio o autor acrescentará, logo que dê fé do item em falta.

Eu, que dele estou nos antípodas, só mesmo por cotovelite crónica é que me atrevo a dizer que haveria para aí um milhar de patrícios eloquentes – ou gongóricos – capazes de igual exercício, assim por encomenda ou partida resolvessem copiar e colar virtudes intemporais numa vulgata de higiene e etiqueta, com cruciais, fulcrais, capitais, nodais, centrais, e demais variações em ré menor de país sem vante. Paredes me perdoe.
Perdido nos raios da roda do progresso, com eixo bruxuleante no programa de recuperação e resiliência, queria eu saber porque tanto se acena com os ajustes directos e sumários concursos. Que não podemos perder tempo com as morosidades da ordem, dizem. Então: e a transição digital? Que tal começar por cima? Não haverá um supercomputador, no Técnico, na UM, que resolva as adjudicações com cega inteligência artificial?
Transições!? De uma carecemos, a que ponha fim à retórica balofa, a que valorize quem cá nasce e passa a vida à nora.
Talvez não seja missão para quem sonha com crises políticas e se compraz com frasezinhas de circunstância.

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