Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A banda pérépépé

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2017-06-04 às 06h00

José Manuel Cruz

Quando se é grande, pode calhar ser-se grande em tudo, até nos absurdos. Com Trump à cabeça, os EUA viraram as costas ao acordo de Paris. Não me armando em sabichão, não me porei com tiques de quem muito abranja sobre o assunto. Fico-me por uma ideia geral: aquele biscate de Paris era para reduzir a poluição.

Ora, a poluição é como Deus: está em toda a parte. Atinjo, assim, a íntima fundamentação teológica do argumento do U. S. Congressman Tim Walberg. Dizia, o eleito pelo Michigan, que se existem, mesmo, as alterações climáticas, então Deus se encarregará de dar solução ao assunto. Fico sem saber se o homúnculo também conta com o Pai Celeste para resolver as questões correntes, já não digo do planeta em geral, mas as dos Estados Unidos, jus se fazendo e proveito eles tirando do lema da nação. Assim como assim, ficaríamos todos um bocadinho mais descansados, deste lado do Atlântico. Pressinto que o Putin ficasse a arder, que Deus talvez não seja fácil de levar por uma beirinha. No entanto, bem lá no fundo, tudo caía em seus carris, nesse sentido absoluto do Bem contra o Mal, de Deus contra o Demo, do Alvo contra o Rubro - quer dizer, da Casa Branca contra a Praça Vermelha.

O senso comum é uma coisa levada da breca: cada época tem o seu, cada terrinha poderá ter o seu. Em suma, nada custa admitir que se reparta o mundo em sensos comuns, cada qual com sua bagagem de argumentos irrebatíveis. Bairrismo, porventura. Eu, por exemplo, ainda não se percebi se o melhor chouriço é o de Vinhais, se o de Montalegre.
No que aqui me trás, vincaria que já havia poluição no século XIX, e coitados dos que viviam nas cinturas industriais de Leeds e Manchester. As chuvas sulfurosas dos anos ’70 - pois não consta que tivesse sido por peta extensiva de 1 de Abril. Pequim e São Paulo arrebentam com os pulmões de quem quer que seja. Paris, que não tem grande indústria nos arredores, é de pôr os cabelos em pé…Tudo verdades factuais, embora…

E no “embora” eu patino. Consta que, pelo ano 1000, o clima aqueceu um pouco, e até a Gronelândia ficou a modos que parcialmente povoável. Também se escuta, por aí, que um dos grandes poluidores, um dos demoníacos produtores de metano são… os intestinos dos ruminantes, que alegremente criamos para transformar em bife. Isto é: a coberto de uma percepção generalizada de que existe algo de nocivo, associado à produção industrial, à vida de grandes metrópoles, ao corrupio dos transportes, logo aparece quem demónios identifica por tudo quanto é lado numa cruzada de exacerbado sectarismo, e fica por esclarecer se operam com medições e factos atestados, ou se operam com ladainhas e crendices paralelas àquelas que brande o Congressista Walberg.

Poderá, um espírito aberto, formular reticências relativamente ao “aquecimento global” sem cair no sacrilégio do negacionismo? Sim, modestamente, julgo eu. Porque é que precisamos do guarda-chuva do “aquecimento global” para racionalizar a produção industrial, para redesenhar as cidades, para optimizar os movimentos pendulares das populações? Não deveria isso ser feito em nome de lógicas intrínsecas? Em nome de uma arquitectura sensata da concha em que o humano habita? A Natureza, que por definição é irracional, porque cargas de água é mais razoável do que as façanhas laboriosas do primor da Criação? Se somos capazes de fazer bem, porque é que deliberadamente fazemos mal? E lá vem a resposta: é o lucro, estúpido! O dividendo, a mais-valia. Ah! Pois, não estava a ver…

Dê por onde der, e na esperança de que Pai se chateie com os desmazelos, e decida tomar o negócio em mãos, deixo um incentivo aos mordomos da cónega: para o ano, é publicidade como a da Via Sacra de Maximinos, com cartazes plantados da Nazaré a Vladivostoque, que mecenas se arranja. A ver se juntamos milhões, do tanque de S. Tiago até á Sé, atrás da banda pérépépé…“ dó, ré, mi, fá… queremos Deus, homens ingratos…”

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