Correio do Minho

Braga, segunda-feira

A Avó

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2014-08-21 às 06h00

Escritor

Silva António

O Zé vivia feliz, do alto dos seus treze anos recentemente celebrados. Contrariamente aos seus amigos, era estudante - actividade considerada muito pouco nobre, naquela altura. Vivia na sua pacata aldeia, com a mãe e duas irmãs, escaladas, sucessivamente, em três anos de diferença de idade - o pai havia emigrado, a salto, para França.
Por via disso, considerava-se “o homem da casa”, como a sua mãe gostava de referir, quando pretendia que ele se portasse bem ou realizasse qualquer tarefa que não fosse do seu agrado. E ele, na sua maturidade dos treze anos, assumia essa identificação, em pequenas coisas, nomeadamente, apoiando a sua irmã, mais velha, nos estudos (que dificilmente aceitava os seus conselhos) e a mais nova nas primeiras letras.

Frequentemente, se lembrava do seu pai, principalmente,  no sossego da noite, em que podia dar largas aos seus sentimentos de tristeza e verter algumas lágrimas. Rapidamente as afastava, lembrando-se das advertências dos mais velhos: Um homem não chora!.
Depois das aulas, regressava a casa e, se possível, ia visitar a avó, a cinco minutos de distância. Encontrava-a, habitualmente, a cuidar dos campos ou, mais frequentemente, no tanque a lavar roupa.

Punha-se a seu lado, no lavadouro de granito, e dizia “Ó vó, quer que a ajude? Tal solicitude era afectuosamente recusada com os argumentos de que era demasiado novo, de que era homem e de que, depois, não lhe cresceria a barba (O que soava a muito grave...). Nunca percebeu tais argumentos, mas apreciava aqueles breves momentos de conversa. Mais gostava ainda quando ela dizia que era a “hora de mastigarem qualquer coisa” e preparava aquelas cafeteiras de cevada, nas brasas da lareira. Num desses dias, o Zé, bebendo a cevada da sua malguita, encavalitado no banco de madeira, lançou:
“ Ó vó, sabia que os ingleses, todos os dias, tomam o chá das cinco? Aprendi isso no meu livro de inglês”...

Não, não sabia, mas achava que esses ingleses deviam ser muito doentes, sempre a tomarem chá.
- Não é desse chá que a gente costuma tomar, quando estamos doentes! O deles não é de cidreira, camomila, tília… É um chá especial que vem lá do oriente...
- Deixa lá isso - respondeu a avó - nós estamos aqui melhor, nós dois, a tomar a cevada das cinco, com estas bolachinhas…

Era uma verdade insofismável. Que se tramem os ingleses e os seus costumes esquisitos!…
Um dia, chegando das aulas, sua mãe disse-lhe que ele deveria ajudar as irmãs nos trabalhos de casa e que não podia sair de lá, uma vez que ela tinha de tratar de uns assuntos urgentes. Achou muito estranho aquele ar sério e austero da mãe. Notou também que ela nunca olhava, directamente, para ele.

Perguntou-lhe: “Está zangada connosco?” 
- Não. Não faças perguntas. Eu e a tua tia temos de resolver uns assuntos e antes do jantar já cá estou. Sê um homenzinho e ajuda as tuas irmãs - respondeu. E saiu.
À noite, regressou e preparou o jantar, como um autómato, sem dizer nada. Jantaram num silêncio estranho, num prenúncio de tempestade. Ninguém ousava dizer nada. No fim, a mãe chamou o Zé de lado e, baixinho, disse-lhe: “Tenho de ir à casa da avó, que está doente. Não sei se vou demorar muito ou não. Rezai o terço e deitai-vos. Eu estou ali ao lado. Se acontecer alguma coisa, chama, mas só se for grave. Não digas nada às tuas irmãs. Não vale a pena preocupá-las com isto”.

O Zé achou perfeitamente natural esse cuidado da mãe, uma vez que a irmã mais velha, contrariamente à outra, chorava e berrava, por qualquer coisa. Iria ser um desassossego...
Contaram-se histórias, aldrabou-se a reza do terço e foram dormir. Começou por pensar na doença da avó, mas, depois, lá adormeceu, embrulhado nas boas recordações do seu pai.
No dia seguinte, não imaginava as horas, foi acordado pela mãe que, baixinho, lhe disse: “Deixa as tuas irmãs dormirem quanto quiserem. Hoje não ides às aulas. Eu, depois, falo com os professores. A tua prima vem fazer-vos o almoço”.
Meio ensonado, perguntou: “Vais para a casa da avó? Podemos ir até lá?”
Não! - respondeu a mãe.

Estranhou a resposta brusca, mas agradou-lhe a perspectiva de não ter aulas naquele dia.
Foram acordados pelo barulho dos tachos que a prima manejava, desajeitadamente, na preparação do almoço. E, entre brincadeiras e traquinices, se passou a tarde. Ao fim da tarde, encontrou a prima a chorar, junto à lareira. Tentou encorajá-la: Vá lá! A vó vai ficar boa!
Ela olhou para todos os lados e, ao ver que estavam sós, por entre as lágrimas, sussurrou-lhe: A avó morreu!

Impossível. Devia estar enganada! Ainda ontem anteontem falou com ela, sã como um pêro! Mas ao ver que a prima continuava a chorar, sem dizer nada, convenceu-se. As lágrimas afloraram-lhe aos olhos. Cerrou os dentes e lábios para não chorar. Respirou fundo. Mastigou em seco e, quando as lágrimas recuaram, disse à prima: “Vou até lá! Não digas nada às meninas…”
-Não. Não vais - replicou - a tua mãe disse para não vos deixar sair daqui!..

E não foi. No entanto, quando a mãe regressou, analisou-a, fazendo um esforço para não chorar, numa interrogação muda. A mãe olhou-o nos olhos, adivinhando-lhe a pergunta, e afagou-lhe o cabelo:
- Ajuda-me a deitar as tuas irmãs! Depois falamos..
No sossego da noite, com as meninas já a dormirem, junto à lareira, falaram. A mãe, por entre lágrimas, já cansadas e doridas, explicou: Que a avó tinha morrido e que o funeral ia ser no dia seguinte; Que ela e a tia tinham tratado de tudo e que a “vó” estava bonita, para ir para o céu; Que não! Que não ia poder mais vê-la, visitá-la, mas que ela, lá do céu, ia vê-los; Que não sabia porque é que as pessoas morriam; Que tinham de ir todos ao funeral porque não tinha com quem os deixar, nem ficava bem que não fossem. Que não sabia, mas que era assim…

O Zé ouvia todas estas explicações, com os olhos injectados de lágrimas, cerrando os dentes e lábios. De vez em quando respirava fundo, mastigava em seco. A mãe, apercebendo-se da sua aflição, sentou-o ao seu lado. Passou-lhe a mão direita pelo ombro e com a esquerda puxou-lhe delicadamente a cara contra o seu peito e disse: Sabes, costuma-se dizer que um homem não chora, para que ele não ande sempre por aí lavado em lágrimas, à mais pequena coisa. Mas quando a tristeza é grande e verdadeira, como quando perdemos um amigo, isso não se aplica! Este é o caso e ninguém nos vê… Chora!

O Zé, libertou-se. Chorou. Fungou. Soluçou. Voltou a chorar. Assoou o nariz, limpou as lágrimas com o canto do lenço e lavou-se no resto das lágrimas.
Com os olhos doridos, foi a dormir. Sonhou com a avó, que lhe sorria e dizia: Não ligues! Eu vou estar sempre contigo! Não te esqueças das nossas conversas do tanque e da cevada das cinco… Ai que malandrecos que nós somos… E o Zé, naquele curto e atribulado sono parou as lágrimas, para um breve sorriso.

No dia seguinte foi o funeral. Vestiram-se de preto e, à hora marcada, foram para a casa da avó. O avô parecia enlouquecido, andando de um lado para o outro, esquecendo-se de tudo e perguntando por tudo. A mãe não os deixou ir ver a avó. “Lembrem-se da alegria que ela tinha em vida”.
O Cortejo seguiu até à igreja.
 “Ficam do lado de fora do cemitério”.

Lá dentro, toda a gente chorava e bradava. O Zé, cá fora, vendo todo aquele aparato, silenciosamente, vertia algumas lágrimas, mas já não tinha mais. Cerrava os dentes, apertava os lábios e pensava em momentos alegres que tinha passado com a avó. Olhou para o lado e verificou que a irmã, mais velha, chorava e soluçava, como toda a gente e como lhe era habitual. Passou-lhe a mão pela cabeça e afagou-lhe o cabelo. A irmã mais nova, muito amarela, atordoada, de olhos esbugalhados, cerrava os lábios e não emitia qualquer som.

Agarrou-a pela mão e levou a sentar num banco de pedra, junto à igreja. Passou-lhe a mão direita pelo ombro e com a esquerda puxou-lhe delicadamente a cara contra o seu peito e disse: “Sabes, quando a tristeza é muito grande, assim como, quando perdemos uma avó, podemos chorar à vontade. Faz de conta que estamos só nós dois e que ninguém nos vê… Chora!

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