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A arte de “se” vender

Regresso às aulas e acesso ao ensino superior

A arte de “se” vender

Escreve quem sabe

2020-11-09 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva Álvaro Moreira da Silva

Comprar e vender são artes convergentes. Há quem consiga vender uma galinha a um preço exorbitante como também comprar um ovo de ouro a uma bagatela. Nestas duas artes de negociação, existem sempre denominadores comums. Por um lado, o artista, aquele que não raras vezes aproveita aquele momento para tirar um belo coelho da cartola e assim amealhar mais alguns trocos. Por outro, surge o pobre coitado, que, na sua ignorância, lá vai caindo repetidamente nas mesmas armadilhas.
Durante a presente semana assistimos ao duelo político entre Biden e Trump, dois candidatos à presidência dos EUA. Neste frenesim mediático, procura-se alcançar o número mágico de 270 delegados através da contagem final dos votos por correspondência em alguns estados ainda pendentes. Desenha-se, paulatinamente, uma nova peça de teatro recheada de imprevisíveis artistas capazes de preencher, com destacadas manchetes, as próximas semanas jornalísticas. Na peça, onde a comé- dia se sobrepõe à tragédia, os atores são malabaristas de nível superior, especialistas na retórica e na propaganda, hábeis na arte de bem falar e mal dizer. Tentam, através de discursos antagónicos e persuasivos, a mobilização de uma inteira nação.

Na sequência deste evento, que se aproxima de uma pintura colorida de Max Ernst, analiso um slogan promovido por determinadas marcas nacionais com o objetivo de captar novos clientes e fazê-los comprar os seus produtos: “todas as nossas peças têm garantia vitalícia”. As ditas marcas atestam, aparentemente, cobrir qualquer anomalia apresentada pelo produto adquirido nos anos vindouros. Por desacreditar deste tipo de publicidade falaciosa e por ter sido também vítima de al-gumas situações menos agradáveis no passado recente, a minha confiança neste tipo de publicidade e ações de marketing é diminuta. Abro o portal da queixa português. Constato diversas opiniões negativas que remetem, curiosamente, para o tal certificado enganador “vitalício”. Leio, por exemplo, a queixa de uma senhora, constrangida com uma situação de estrago de algumas peças, que reporta a queixa neste portal após ter-lhe sido negada a reparação das mesmas. Destaca, também, a menção ao mesmo certificado e a falta de compromisso e ética da marca. Curiosamente, em resposta à acusação da cliente, a empresa desresponsabiliza-se de qualquer obrigatoriedade para a resolução da situação, escusando-se em repetidas e questionáveis desculpas.

Segundo Louis XIV, tudo começa com o cliente. Na minha opinião, o cliente é o foco principal dos processos de compra e venda. Mais do que suprir ou satisfazer as suas necessidades, a arte de o seduzir e encantar irá determinar o seu interesse e nível de conexão ao produto ou à marca. Nestes processos, como na política, vamos constatando que a genuidade e transparência da sedução vai dando lugar a falsas promessas e expetativas, quebrando o encantamento e a confiança depositadas. Surge a frustração, a ira, a revolta e o sentimento de impotência, sobretudo para os apreciados cidadãos com nobres valores e virtudes. Na caminho percorrido entre a sedução e a desilusão surge a aprendizagem. Aprendemos que há propagandas e publicidades enganadoras, que outros como nós já imergiram no encantamento falacioso de um qualquer político ou vendedor, e que somos os atores principais no processo de tomada de decisão. Sim, podemos escolher, conscientemente, dançar em redor de discursos persuasivos enganadores, recheados de obscuros matizes psicológicos e linguísticos sem, no entanto, dançar com eles.

*com JMS

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