Correio do Minho

Braga, segunda-feira

A Amálgama

Sinais de pontuação

Ideias

2015-02-19 às 06h00

José Manuel Cruz

Ainda que ninguém venha a reivindiqcar autoria moral, suporte logístico ou inspiração, a polícia dinamarques crê que o operacional dos atentados de Copenhaga pretenderia emular os terroristas da capital francesa. Segundo informações julgadas credíveis, as autoridades alemãs cancelaram em cima da hora um desfile de carnaval. Houvesse ou não motivações religioso-ideológicas em Copenhaga, certo é que os alvos visados estão entre os que concentram ódios islâmicos. Menos dúvidas tiveram as autoridades alemãs, que justificaram ao quarto de milhão de foliões a quem denegavam a costumeira alegria carnavalesca: em Braunschweig haveria indícios concretos de ameça terrorista islâmica.

Engolfada por flagelo que se propaga da Austrália ao Canadá, mais do que em algures persiste em França a questão islamita. Semanas atrás confirmava o tribunal constitucional francês a perda de nacionalidade de um franco-marroquino julgado por ligação terrorista. Pretende-se, na opinião pública, que esta medida se aplique sem tibiezas a todos os que venham a ser implicados em actos de igual natureza. Pouco antes era Manuel Valls que sugeria a ressurreição da pena de “indignidade nacional”, extinta em 1951, e que vigorara desde 1944 para punir os colaboracionistas nazis.

Na outra ponta do fio vêm os lamentos de dirigentes islâmicos. Nos quinze dias corridos desde os massacres de Paris ter-se-iam registado 128 atentados a interesses muçulmanos. Que me tenha parecido, uma pedra lançada aqui e ali, um tiro ocasional. Paredes marcadas e vidros partidos. Mais grave que os prejuízos materiais é a angústia de que tudo possa piorar.

Centram-se os holofotes no Ministério do Interior e no Ministério da Educação. Vigiar e interceptar a cargo de Cazeneuve; educar para a tolerância, cidadania e laicidade, a cargo da encantadora Belkacen, originária de Marrocos e tida como muçulmana. Quer o seja ou não.

Debates em cadeia. Diante da ministra, Barbara Lefevre, professora de História e Geografia de alunos nos seus 13-15 anos, diz que a identidade islâmica suplanta a identidade de cidadão e de aluno, diz que se confronta com frequência com enunciados anti-judaicos e homofóbicos, diz que é cada vez mais difícil fazer fotografias de classe face às recusas dos jovens de orientação salafita. No mesmo painel, Xavier Lemoine, maire de Montfermeil, comuna às portas de Paris, dá exemplos de impasses em torno da alimentação nas cantinas escolares, em torno da organização das idas à piscina, porque moças e moços não as possam frequentar em simultâneo.

Ressalta do mesmo painel quem se insurja. Durante anos acarinhou-se um discurso favorável às particularidades das minorias. Sustenta-se que as minorias encerram-se em si próprias como resposta à exclusão, em resposta às agressões veladas da maioria. Não há ponto equidistante que possa ser aceite por todos. E se radicalizar é a única saída possível, não vejo como tudo possa acabar em bem.

Volto a uma questão já formulada nestas páginas. Haverá um islamismo moderado que professa a sua fé sem interferir em nada com as posturas laicas do Estado. E nada nos diz que esses não constituam a maioria. Haverá, por outro lado, uma minoria que exacerba os elementos distintivos e que, ao abrigo do direito de exercício religioso, estende os seus preceitos a territórios que melhor nós entenderíamos como nada tendo a ver com a prática nuclear duma fé. Sublinham-se os exemplos de alunos que não aceitam ordens de mulheres, professoras ou não, porque mulher alguma comanda um homem. Em tribunal, Coulibaly, que um dia será o assassino de Montrouge e Vincennes, ter-se-ia recusado a levantar-se diante da juíza que o julgava. Por ser mulher!

Se há um islamismo que pretende que os preceitos da fé abrangem o espaço público e a vida social no seu todo, julgo que não nos resta outra saída que insistir que essa prática não cabe no mundo ocidental. No ocidente não há deus nem profeta à cabeça do Estado. No ocidente regemo-nos pela ética e pela lei civil, e não por arcaicos códices religiosos. No ocidente a blasfémia é crime obsoleto. Por muito que o direito civil recue perante o direito canónico no Irão ou na Arábia Saudita, na Turquia ou no Paquistão, não interferimos nós nos arranjos deles, como não é legítimo que eles aspirem a subverter os nossos.

Dum e doutro lado a mesma advertência: evitar a amálgama. Ao início não entendo. Amálgama? Depois é claro. Não amalgamar significa não misturar o islão com o extremismo islamita e, no limite, com o terrorismo. Não me seria difícil faze-lo, não fosse um certo islão confundir a Religião com o Estado, não fosse um certo islão propenso a pensar que possam ser aplicadas no ocidente as disposições primárias das teocracias muçulmanas. Um passo adiante do mundo árabe em termos de liberdades individuais, admite-se no ocidente a plena liberdade de culto. Mal contentes com a prerrogativa, exigem-nos que acomodemos inteiramente um modo de viver distinto, ainda que isso implique uma delapidação do nosso património cultural.

Encontramos, entre nós, pessoas tão esclarecidas, mas tão esclarecidas, que entendem que nenhum freio deva ser posto a exigências tão estapafúrdias; quem entenda que a indignação, mesmo que violenta, assiste a quem se sente ofendido nas suas crenças sobre o sagrado.
Embora não subscreva a ideia de que estejamos no limiar dum confronto de civilizações, verdade é que do mundo islâmico não sopram ventos de relativismo e tolerância. Contrariamente a um islão que cerra fileiras em torno do que crê, há no mundo ocidental pensadores para todos os gostos. Quanto eles encontrem entre nós quem deplore as caricaturas ou as tiradas jocosas relativas aos costumes islâmicos, isso só os reforçará nas suas certezas e aspirações. Não será uma guerra, mas há dois lados: o deles e o nosso!

Eles defendem-se com unhas e dentes, quanto isso não implique a sujeição das mulheres, a criminalização da homossexualidade, a captura do direito cívil por imãs e quejandos. Nós, em nome de direitos só vagamente sussurrados em estados islâmicos, nós admitimos tudo - mesmo aclamar quem jamais pensaria dizer bem do que quer que seja de ocidental. Da liberdade. Que seja da ilusão de liberdade.

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