Correio do Minho

Braga, sábado

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A alegria que matou em Lomar

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2016-12-11 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

NA época que atravessamos, propícia a emoções que resultam do encontro de amigos e principalmente de familiares, muitos deles ausentes há muito tempo, são favoráveis à ocorrência de picos de emoções que, por vezes, não conseguimos controlar.
Neste contexto, recordarei um episódio curioso que ocorreu na freguesia de Lomar, concelho de Braga, e que envolveu um seu natural, que se encontrava ausente da sua terra natal há vários anos.
O episódio ocorreu há 122 anos e é verdadeiramente impressionante.
Bento Barbosa Ferreira nasceu na freguesia de Lomar, em 1851. A época do seu nascimento, marcada por dificuldades económicas, foi também o período de início da Regeneração e, consequentemente, de algum desenvolvimento económico, mas sentido apenas anos mais tarde.
As dificuldades com que se deparava o nosso país eram visíveis também na nossa região, onde se mantinha uma agricultura de base rudimentar e uma indústria quase inexistente. Foi neste contexto económico-social que Bento Barbosa Ferreira passou os seus primeiros anos de vida. Assim, não teve outra alternativa senão abandonar a freguesia que o viu nascer e rumar à terra que então oferecia algumas oportunidades aos portugueses: o Brasil.
Com 13 anos de idade Bento Ferreira embarcou num vapor e, à semelhança de muitos outros minhotos e bracarenses, atravessou o Oceano Atlântico, com destino ao Brasil. Depois de várias semanas de uma viagem torturante, Bento Ferreira lá chegou à Baía, o seu destino brasileiro.
Os primeiros anos deste lomarense foram de adaptação ao novo mundo, mas também marcados pela saudade da sua terra e da sua família, porém, atenuadas por uma ou outra carta que recebia dos seus familiares, em Portugal. Assim permaneceu trinta anos, sem nunca ter vindo ao nosso país durante este longo período. Mais tarde, em 1894, resolveu embarcar para Portugal, num vapor que chegou ao Porto em meados de junho desse ano. Daí viajou num comboio com destino a Braga, onde chegou a 19 de junho, vésperas de S. João.
Na estação de Braga encontrava-se à sua espera, entre outros, um seu familiar, Manuel Ferreira Barbosa, que o levou para a sua casa, em S. João da Ponte, concelho de Guimarães. Aí almoçou e descansou durante algumas horas. A meio da tarde desse dia, por volta das 17 horas, resolveu deslocar-se para a freguesia de Lomar, onde se encontrava a sua mãe, ansiosa pelo encontro com o seu filho, que tinha visto pela última vez há 30 anos e quando era um menino com apenas 13 anos de idade!
O percurso entre S. João da Ponte e Lomar foi efetuado no meio de grandes emoções, uma vez que Bento Ferreira atravessava os campos e montes que, sendo-lhes tão familiares, eram motivo de grande emoção!
Quando chegou a Lomar, dirigiu-se de imediato para a sua casa, onde se encontrava a sua mãe, sentada na soleira da porta. Mal se viram, foram logo ao encontro um do outro abraçando-se, de seguida, durante largos minutos e no meio de muitas lágrimas de emoção e de alegria!
Entrando de seguida na casa que o vira nascer, sempre acompanhado pela mãe e outros familiares, foi recordando a sua infância, que tanto o marcara. A alegria era tanta e descontrolada que, uns minutos depois de ter abraçado a sua mãe, Bento Ferreira foi vítima de um fulminante ataque cerebral, que o atirou repentinamente para o chão.
Rodeado por familiares e outros vizinhos, que de imediato se deslocaram para a casa, Bento Ferreira nunca mais se levantou. Chamadas as autoridades médicas e judiciais, confirmaram a dramática notícia que ninguém esperava: o emigrante Bento Ferreira, de 43 anos de idade, morreu de ataque cerebral fulminante, causado pelas incontroláveis emoções que sofreu no regresso a Portugal e, principalmente, pelo encontro com a sua mãe e com a casa que o viu nascer e que não via há três décadas!
A comovente notícia da morte de Bento Ferreira, o lomarense que esteve 30 anos no Brasil sem vir a Portugal, depressa se espalhou pela sua freguesia natal e por todas as freguesias vizinhas de Lomar. E a emoção esteve bem presente no dia do funeral, que se realizou no dia 22 de junho de 1894, no cemitério do Monte de Arcos, em Braga.
Numa altura em que atravessamos uma época propícia a encontros, e reencontros fortemente emotivos, nada melhor do que tentarmos acautelar as nossas emoções, não vá uma alegria momentânea e extrema transformar-se numa fatalidade eterna!

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