Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A Alegria no Amor e a Educação Escutista

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Escreve quem sabe

2016-05-20 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Quando uma criança, um jovem ou um adulto assume o compromisso de ser escuteiro, no final do cerimonial da Promessa, o dirigente cumprimenta-o e diz-lhe: «Desde este momento, fazes parte da grande família escutista». Esta designação de família, independentemente da sua amplitude, remete-nos para A Alegria no Amor - a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia, do Papa Francisco e ao lê-la, de um modo especial, os capítulos II (A realidade e os desafios da família) e VII (Reforçar a educação dos filhos), a todos os adultos do movimento escutista, coloca-se, inevitavelmente, a pergunta interior: “será que, 108 anos depois da criação do Escutismo e 93 anos da fundação do Corpo Nacional de Escutas (a celebrar no próximo dia 27 de maio), a educação escutista, à luz desta visão que o Papa Francisco nos apresenta de uma educação pelo amor e com amor, ainda permanece pertinente e atual?”
Foi sobretudo o VII capítulo que me levou a reler a conferência que Baden-Powell apresentou no III Congresso de Educação Moral, realizado nos finais de 1922, intitulada: A Educação Pelo Amor Substituindo a Educação pelo Temor, publicada nas revistas “Jamboree” em janeiro de 1923 e “Flor de Lis” em 1928 (número de novembro e dezembro) e em livro, com o mesmo título, editado pelo CNE em 1976 e 2002.
Segundo o fundador, a velha máxima de Júlio César “se vis pacem para bellum”, isto é, “se queres a paz, prepara a guerra”, influenciou, pelo temor a educação social e até muitas vezes a religiosa onde «não é tão comum que seja o Temor a Deus e não o Amor de Deus, a base da moralidade, isto é, a superstição a substituir a fé», onde «a pretendida disciplina é obtida principalmente com ameaças de punição» e onde «os fortes serviram-se do medo como arma para aterrorizar os mais fracos».
Baden-Powell sugere uma nova orientação defendendo que o Temor tem de ser substituído por uma influência bem mais poderosa o Amor. Só a partir do amor se poderá construir a Paz entre as nações. B.-P. estabelece uma relação entre a oração do “Pai Nosso”, que «fala de um Deus de quem todos somos filhos. De um Pai - não de um tirano, [...] Deus é Amor. É pois, o Reino do Amor o que pedimos».
Partindo do resultado de um inquérito realizado, à época, onde entre os jovens, dos 12 aos 14 anos, o livro mais lido era “Robison Crusoé”, de Defore e o autor mais lido era “Júlio Verne” que também era o autor preferido pelos jovens dos 15 aos 18 anos, concluiu que os jovens «apreciam muito mais as aventuras em terra e no mar, [...] e outras narrações na qual os personagens dão provas das mais altas virtudes viris.
E mesmo que não saibam ou não gostem de ler, são raros os rapazes que não imitam nos seus jogos ou brincadeiras os heróis dessas histórias.»
E esclarece que «A educação, tal como eu a entendo, não consiste em introduzir no cérebro da criança uma certa dose de conhecimentos, mas sim em despertar-lhe o desejo de os conhecer e indicar-lhe o método para os adquirir.
Além da formação puramente escolar, a educação moderna procura desenvolver o caráter, assim como a habilidade técnica e a saúde do corpo» e que «esta educação seria uma autoedu- cação voluntária em que a juventude colocaria toda a sua energia e todo o se entusiasmo».
Para Baden-Powell este sistema é orientado por quatro objetivos principais e «tem por fim desenvolver:
1. O caráter e a inteligência, isto é, a virilidade e o sentimento de responsabilidade individual.
2. A habilidade manual, isto é, uma perícia e um espírito inventivo pessoais.
3. A saúde e o vigor físico, isto é, a energia individual, a resistência e a alegria de viver.
4. O hábito de servir o próximo, isto é, a cooperação e a boa vontade coletiva.
O Método consiste em obter do jovem que ele desenvolva essas qualidades por si próprio, em virtude de um incentivo pessoal interior e não por um ensinamento exterior imposto.»1
Dito de forma diferente, sobretudo 94 anos depois, o Papa Francisco, com o olhar de Pastor, retoma os mesmos temas estruturantes e reafirma, na envolvente do século XXI o papel dos pais, primeiros educadores, do clima de tranquilidade, de compreensão, de liberdade e responsabilidade que deve marcar o espaço e o ato educativo, bem como a importância do Amor que deve envolver a educação. «A educação envolve a tarefa de promover liberdades responsáveis, que, nas encruzilhadas, saibam optar com sensatez e inteligência2» e «A liberdade é algo de grandioso, mas podemos perdê-la. A educação moral é cultivar a liberdade, através de propostas, [...]. A virtude é uma convicção que se transformou num princípio interior e estável do agir3» finalmente, «E, no coração de cada família, deve ressoar também o querigma, a tempo e fora de tempo, para iluminar o caminho. Todos deveríamos poder dizer, a partir da vivência nas nossas famílias: “Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele” (1Jo 4,16).4»
1Sobre este assunto, oito anos mais tarde, no V Congresso Internacional de Educação Moral, Paris, 1930, Jean Piaget tece fortes elogios à educação escutista, em “Os Procedimentos da Educação Moral, no livro Cinco estudos de Educação moral / Jean Piaget ...(et al) organizado por Lino de Macedo - São Paulo: Casa do Psicólogo, Brasil, 1996. - (Coleção psicologia e educação)
cfr.: http://materiadeapoioaotcc.pbworks.com/f/Jean+Piaget+-+Os+procedimentos+da+Educa%C3%A7%C3%A3o+Moral.pdf
2A Alegria do Amor, Papa Francisco, Editorial Paulinas, Coleção Voz da Igreja, 2016, nº 266.
3Ibidem, nº 267.
4Ibidem, nº 290.

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