Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'A Aldeia de Cima e a Aldeia de Baixo', por João Castelo Branco

O Estado da União

Conta o Leitor

2011-07-25 às 06h00

Escritor

Ao leitor curioso e que goste de contares singelos, permitam-me que narre, à minha maneira está claro, alguns episódios que já faz bastante tempo tive ocasião de vivenciar. Porém, desde já vos esclareço que as memórias que aqui vos trago não resultam de nenhum roteiro efectuado em tempo de férias, antes resultam das vicissitudes de exercício do ofício, cujas origens se perdem nos antigos mestres régios.

Quem realizar o percurso ascendente da vila de Vinco para Soutel, a caminho da serra, há-de deparar-se com uma povoação, no planalto, ponto de cruzamento de vários sentidos e direcções: o Casal de S. João. Pelo posição cimeira que ocupa, passara-se a designá-la por aldeia de cima, ainda que, desculpai-me ó gente, não deslumbrasse ali, naquele modo de ser e de estar na vida, nada que na sua essência eu pudesse designar de cimeiro, superior ou da maior elevação, a não ser está claro, a posição relativa que o povoado ocupava face a uma outra aldeia, situada no vale, de nome Pedril.

O povoado conhecera a má fama desde sempre. De recôndita e perdida localização, ainda que situada num lugar possuidor de encantos naturais, lá vinha conseguindo todavia que a sua escola fosse subsistindo da ano para ano, ainda que com um escasso número de crianças.

Quisera o destino ou acaso, que em Pedril, local de pouca urbanidade e de nenhuma atractividade, se acoitassem alguns (poucos) casais mais jovens, com filhos em idade escolar e outras mães, essas pela sua condição civil de solteiras e constituindo famílias monoparentais.

De resto o povoado contava com a venda do Ti António, a disponibilidade dos irmãos Matoso, sempre de motosserra na mão à cata de carocas, do Serra empreiteiro com dois empregados, com o Silveira das resinas e mais uma dúzia de rapazes solteiros de emprego incerto, que oscilavam entre o escorropichar de copos no tasqueiro, e a migração para Andorra, quando a oportunidade se lhes oferecia.

Na verdade os locais, outrora pertencentes à mesma freguesia, hoje separados, conheciam a rivalidade, a aversão mútua, cultivavam a indiferença, alimentavam bairrismos escusados.

Maria, docente de profissão, provisória de situação e sonhadora de condição, aceitara com abnegado estoicismo a sua colocação em Pedril e tratara logo de se alojar, ainda que provisoriamente, em edifício do foro local, designado por Casa do Professor. Todavia o acaso que a levara a ter uma aparente sorte, viera a revelar-se menos afortunado, quando se inteirou de que a sua presença passara a ser menos bem aceite pelos locais, em virtude de o seu local de trabalho ser Pedril, e o edifício na posse da união dos Vinquenses se circunscrever a Casal de S. João.

Porém, e porque lá não se alojara outro, acabaria por permanecer, ainda que se habituasse ao “ boa tarde” - frio e inóspito e ao cortante e seco: “ - Como está. “

Movida por leituras e com a cabeça cheia de sonhos envolvera-se Maria em audaciosas incursões pela escrita de textos infantis, com a qual queimava tempos e afogava mágoas e paixões por Roberto, um músico profissional com o qual cortara de uma relação intensa, mal resolvida.

Fora numa desses fins de tarde longos e solitários que Maria, entre o balido das ovelhas e o esvoaçar atrevido e espalhafatoso do corvo, se lembrara de avançar com uma iniciativa de animação de leitura, em virtude da falta de apetência dos seus discípulos para tal acto.

Munira-se de literatura avulsa que consultara na biblioteca municipal, inteirara-se e empenhara-se na técnica de fabrico de marionetes, angariara fundos em instituições de juventude e até mandara construir um fantocheiro, que passara a partilhar com Aurélia da escola de Vale de Pião.

Teimara em implementar biblioteca e conseguir computador para a escola, feito que fora aos poucos granjeando a simpatia de alguns Pedrilenses, nomeadamente o benemérito senhor Aldefonso.

Outrora presidente da junta , prosador de excelência, poeta de temperamento, aos poucos lhe revelara a sua extraordinária colecção de objectos antigos. Curiosamente, na sageza dos seus oitenta anos, mostrara-lhe também com palavras e factos o quanto era difícil uma iniciativa dessa natureza, relatando-lhe ele próprio as dificuldades que em tempos experimentara, quando autarca, ao tentar implementar iniciativas dessa índole.

Com efeito, viera a docente, no ardor dos seus trinta anos e na teimosia do seu pensar romântico, a enviar pedidos de livros a editoras com um relativo êxito, e a iniciativa que nascera frágil e titubeante começara a dar os seus primeiros frutos.

Começara a registar-se nas escolas das jovens mestras, alguma procura de livro infantil, arremessos de atitudes de consulta nas crianças, e tal atitude alargara-se a mais algumas escolas.

A iniciativa, ainda que um tanto voluntarista e singela, desenvolvera-se à margem dos cânones legais e acabara por suscitar a curiosidade e apreciação dos locais de Pedril, do casal de S. João e até de toda a vila.

Curiosamente, as reuniões periódicas dos profissionais encheram-se de animosidade e as iniciativas arrojadas de Maria acabariam por suscitar a crítica de alguns, a indiferença de outros e o apoio de uns tantos sonhadores.

Movida por alguma falta de protagonismo, Adosinda, directora de escola de S. João, questionara Maria acerca do enquadramento legal da iniciativa, acusara-a de excesso de protagonismo e ameaçara-a de levar o caso às autoridades escolares.

Era uma mulher cinquentona, de voz cheia e possante e de ideias fixas. Conhecera em tempos colégios de freiras e constava-se que o seu falecido pai, o altivo Fonseca dos armazéns da vila, lhe teria traçado em tempos o destino:

- Minha filha, o teu caminho está traçado: ou o Magistério ou o trabalho no nos armazéns.
A escolha teria sido fácil e quem a conheceu atestava sem dificuldade que Adosinda habituada à disciplina dos prazos, à reverencia aos mestres e superiores e à obediência cega aos preceitos legais, geria com mestria e verticalidade a sua relação com os pais, com as autoridades escolares e, de forma diligente, a vida da escola.

Os episódios conflituosos foram-se sucedendo e a iniciativa aventurosa de Maria acabara por ser aceite e até generalizada.

Chegara aos ouvidos de um tal professor Raimundo, experiente em leis e ágil na interpretação de comportamentos dos seus pares, a contenda que se instalara no concelho vizinho. A sua intervenção terá suavizado os ânimos, depois de ter conseguido enquadrar legalmente as iniciativas e reconciliar os colegas desavindos.

- Hoje não viajo assim muito, sabem! - No entanto, certo fim-de-semana dispus-me a dar uma volta até Vila do Vinco.

À probidade vos digo, que a escola de S. João, outrora cimeira e vistosa, onde se ouvia as vozes de setenta crianças brincando, é hoje uma evocação.

O edifício que na década de noventa sofrera remodelações encontra-se inactivo. Ouvira-se dizer que ali iria nascer uma escola profissional, mas até hoje nada.

Desço ao vale. A viagem é vagarosa, estrada em mau estado, ovelhas e cabras fazem travessias ousadas, o travão é um recurso frequente.
Aqui e ali idosos apanhando sol. Além um grupo de homens rurais conversando e jogando às cartas.
Retirada do aglomerado populacional, a escola de Pedril é um lugar abandonado. As portas de madeira, comera-as o tempo na cor e na consistência, os vidros rachados ostentam teias de aranha.

Almoço na vila com Maria. Alguns fiozinhos brancos pendem-lhe na cabeleira farta e negra. O sorriso tornara-se mais baço e contido e o ar sonhador moderara-se. Deixara de escrever histórias, de desenhar e de confeccionar marionetes.

Contou-me que comprara uma máquina digital com a qual fotografa todas as iniciativas que promove e queixou-se-me que se deitara tarde, a preencher documentos e a preparar as reuniões para a semana. A empregada aproxima-se cuidadosa e esboçando um sorriso, interrompe:
- A sô p’sora sabe se o computador Magalhães Já chegou para o meu Raul?





Joao castelobranco








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