Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A agressividade como comportamento-padrão

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2018-01-22 às 06h00

Felisbela Lopes

Não somos propriamente uma sociedade violenta, mas a verdade é que, em determinados contextos, se registam gestos de uma enorme agressividade que seria importante conter. O caso do futebol será um exemplo, infelizmente não isolado. Basta simplesmente circular um pouco de carro para perceber aquilo que certos condutores são capazes de fazer. É assustador.
Como sempre, a manhã de sábado começa bem cedo como a leitura da imprensa. De entre os artigos dos jornais do dia, um deles chama-me particularmente a atenção. Falo de um texto sobre a violência nas camadas juvenis de futebol. Não a dos jogadores entre si, mas a dos pais que, nas bancadas, incitam os filhos a comportamentos agressivos dentro do campo. A peça noticiosa, publicada no caderno de desporto do Jornal de Notícias, integra depoimentos de treinadores e de árbitros que reconhecem ser difícil orientar um jogo dentro das quatro linhas, quando, a escassos metros do relvado, estão os pais dos futebolistas a gritar tácticas de jogo, a incentivar reações musculadas em direção ao adversário, a exigir que não se respeitem as orientações dadas...

A maior parte das vezes através de uma linguagem que faria corar qualquer um que não se revê nestes reprováveis comportamentos. Uma jovem árbitra da Associação de Futebol de Braga confessa que já ouviu isto a pais que se sentam nas bancadas: Vai atrás deles. Cospe-lhe! Parte-lhe uma perna!. E o jogador ali, no meio do campo, entre o impulso saudável de atuar segundo as regras do jogo e a pressão dos pais que o puxam para a violência. Como pode isto ser possível?
Segundo os registos da PSP e da GNR, este tipo de violência está a crescer. E a pergunta que se impõe é a seguinte: e ninguém faz nada para travar esta tendência? Clubes de futebol e autoridades policiais deveriam agir rapidamente para neutralizar estes comportamentos. Porque esta violência não é inócua. A curto prazo, mas também numa linha temporal mais longa. Não é possível formar jovens desportistas, fazendo-os mergulhar na convicção de que estas atitudes são normais. Não são.

Integro este tema na revista de imprensa que, ao sábado, faço na RTP e, fora do estúdio, comento demoradamente o artigo com uma jornalista que me diz que deixou de levar o filho adolescente aos treinos de futebol, porque ficava saturada do ambiente das bancadas onde se acumulavam os pais que, sem cerimónias, atiravam todo o tipo de insultos ao adversário que jogava dentro do campo. Perdi o gosto de ir, confessa, avisando-me que o vivido ali ultrapassa o inverosímil. É triste.

Regresso da RTP ainda a pensar nisto, quando, de repente, na faixa mais à esquerda da A3, quase que sou abalroada por uma viatura de alta cilindra que, circulando a uma velocidade estonteante, não me quer à frente. Logo no momento em que eu própria fazia uma ultrapassagem pisando um pouco os limites da velocidade. Desviei-me assim que consegui, não sem me terem sido atirados uns bons vitupérios, bem perceptíveis nos gestos assanhados de tão irado condutor. Que sociedade esta em que desconhecidos se atiram a nós, mesmo quando a razão lhes é completamente desfavorável...

Na verdade, a condução de um carro abre uma plêiade de oportunidades para observar o pior de certas pessoas. Há aqueles que buzinam estridentemente não se percebendo o que querem; aqueles que, através de manobras arriscadas, nos colocam em perigo ou aqueles que nos ultrapassam à socapa para roubar um lugar de estacionamento ou transpor um sinal verde que passa a laranja. Não serão gestos furtivos estes. Antes correspondem a um certo modo de ser. De pessoas com quem seguramente não queremos conviver.
Não haverá chaves miraculosas para alterar estes agressivos comportamentos de um momento para o outro, mas há modos de ir construindo uma intolerância em relação a eles. Por exemplo, na escola. A formação das nossas crianças deveria integrar um espaço para uma educação cívica bem orientada para os valores. Claro que isso não isenta as autoridades públicas de atuarem com mais determinação, quando se violam regras, como é o caso da atual situação do futebol juvenil. Porque a violência nunca poderá ser tolerada, qualquer que seja a causa.

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