Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A aceleração escolar

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2014-10-07 às 06h00

Cristina Palhares

ANEIS - Associação Nacional para o Estudo e a Intervenção na Sobredotação levou a efeito o seu Congresso Internacional neste último fim de semana, na Universidade do Minho. Não queria deixar de assinalar neste artigo o meu mais profundo agradecimento a todos os que, de muitas formas, ajudaram na concretização de um dos grandes objetivos desta associação: reflexão e troca de saberes e experiências sobre a temática da sobredotação.

Com um leque de congressistas, provenientes de vários países da Europa, América do Norte e do Sul, Norte de África, foi possível assistir a um momento privilegiado no que a esta temática diz respeito. Mais, ficamos com a certeza que a nossa associação promove e implementa muito do que se faz pelo mundo fora. Tal como em alguns países, com as mesmas dificuldades, constrangimentos legais, e na desconstrução de preconceitos.

Tal como em muitos outros, com a certeza de que na demonstração do que somos e do que fazemos, da nossa dedicação e trabalho junto de toda a comunidade educativa, um dia atingiremos o patamar de quem já tem, como prioridade educativa, o atendimento às crianças e jovens com características de sobredotação.

A aceleração escolar, como temática centralizadora, foi um dos temas de maior relevo. A conferência do Professor Nicholas Colângelo, da Universidade do Iowa, USA, desmistificou o que ainda está demasiado consistente na nossa comunidade educativa: a crença de que a aceleração escolar não torna os alunos mais felizes e que as relações sociais com os outros alunos e professores não são positivas.

Na área da aprendizagem, a crença de que os alunos não estão preparados para o avanço escolar ainda subsiste, sendo certo que os professores têm muito mais facilidade em avaliar o que os alunos não sabem, do que o que eles sabem para lá do que é exigido pelo currículo escolar. As expetativas de professores sobre possíveis dificuldades de comportamento destas crianças e jovens podem atuar como profecias autorrealizadoras que podem influenciar atitudes de outras pessoas em relação a elas, inclusive dos seus pares.

É consistente que os professores têm pouca familiaridade com as pesquisas e resultados da investigação sobre aceleração escolar. Ainda permanecem filosofias pessoais segundo as quais a criança será mantida distante dos seus pares em idade e a crença de que a aceleração suprime parte da infância da criança.

Por último, o entendimento de que a aceleração causa uma série de problemas na organização horária da escola. Felizmente, os estudos internacionais trazem boas notícias: um estudo meta-analítico sobre procedimentos de aceleração verificou que esta estratégia escolar tem ajudado no desenvolvimento académico de alunos de diversas idades, sem acarretar problemas sociais ou emocionais; a aceleração promove um impacto positivo nos planos profissionais dos estudantes que, quando acelerados, apresentam projetos mais ambiciosos em relação à sua carreira profissional quando comparados com colegas não acelerados.

Normalmente os alunos acelerados envolvem-se mais em atividades extracurriculares do que os seus pares. Não há base empírica para se acreditar que o avanço de ano resultará em desajuste socioemocional ou dificuldades de aprendizagem.

As investigações acerca do desempenho educacional, da opinião de alunos e do nível de satisfação de pais sugerem que o avanço de ano resulta em mais consequências positivas do que negativas e em termos de aproveitamento de conteúdo curricular, o ano que o aluno deixou não faz falta para ele nos anos seguintes. Algo que os nossos professores tanto reclamam…

Muitas outras vantagens foram sendo enumeradas, muitas outras crenças foram desmistificadas. Acresce apenas o que apresentei: que possamos desenvolver nas nossas crianças e jovens com estas caraterísticas, uma das capacidades em que se baseia qualquer tipo de aprendizagem, em qualquer ano de escolaridade, em qualquer idade, a capacidade de espanto. O “espanto” aristoteliano de que tantas vezes falo. Aquele que permite, e apenas este, que as aprendizagens se sucedam, se integrem, num desenvolvimento que se quer harmonioso, não de acordo com a idade, mas com o nível de aprendizagem.

Deixando que a serendipidade atue… (com origem na palavra inglesa Serendipity, criada pelo escritor britânico Horace Walpole em 1754, a partir do conto persa infantil “Os três príncipes de Serendip”, esta história conta as aventuras de três príncipes do Ceilão, actual Sri Lanka, que viviam a fazer descobertas inesperadas, cujos resultados eles não estavam realmente à espera. Graças à capacidade deles de observação e sagacidade, descobriam “acidentalmente” a solução para dilemas impensados.

Esta caraterística tornava-os especiais e importantes, não apenas por terem um dom especial, mas por terem a mente aberta para as múltiplas possibilidades). … deixando que a serendipidade espante!

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