Correio do Minho

Braga, sábado

A abstenção e os políticos menores

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2014-06-03 às 06h00

Jorge Cruz

Creio que a altíssima taxa de abstenção verificada nas recentes eleições europeias só pode constituir surpresa para os mais desatentos ou para aqueles que insistem numa realidade virtual, ou seja, os que vivem de costas voltadas para o país real.
Há pouco mais de dois meses, precisamente nestas colunas do Correio do Minho, tive oportunidade de chamar a atenção para algumas das razões que contribuem para aumentar cada vez mais o fosso entre eleitos e eleitores. E avisei que certos comportamentos recorrentes da classe política teriam consequências ao nível da ampliação do número dos abstencionistas e do incremento eleitoral da extrema-direita na Europa. Infelizmente, as eleições de 25 de Maio confirmaram amplamente as minhas previsões.

Embora em planos diferentes, ambos são factos preocupantes. A abstenção a nível interno atingiu números quase obscenos, com apenas cerca de um terço dos eleitores portugueses a ir às urnas. Acresce que uma boa parte desses votantes, cerca de 250 mil, decidiu manifestar o seu protesto através de voto branco ou nulo. Por outro lado, no plano europeu, e para além do fenómeno da abstenção, assistiu-se também a um inquietante aumento do peso eleitoral da extrema-direita e dos eurocépticos, o que não augura nada de bom.

Mesmo que um tanto tardiamente, creio que o momento é propício a uma profunda reflexão sobre a Europa, sobre o projecto europeu e, em especial, sobre o que dela se pretende. Esta discussão, que até poderá ser lançada a partir de Estrasburgo e Bruxelas, tem que se estender a todos os estados-membros num processo tão aberto, transparente e abrangente quanto possível, por forma a envolver o maior número de cidadãos.

Como muito bem acentuou há dias o Arcebispo de Braga, “não se tem discutido o suficiente, não se tem conversado, não há diálogo, não há informação sobre a realidade da Europa”. E D. Jorge Ortiga, que também manifestou preocupação com o crescimento das forças nacionalistas e eurocépticas no Parlamento Europeu, chegou mesmo a advertir que se não houver essa reflexão “vai haver muito choque, muito confronto”.

Torna-se cada vez mais claro que persistir numa postura retrógrada de imitação da avestruz, enfiando a cabeça na areia para escapar à discussão de questões melindrosas, nunca foi nem será boa solução. Acontece que essa prática, própria de governantes e políticos fracos, tem tido mais seguidores do que seria desejável em regimes democráticos. E esta asserção tanto é válida para as questões europeias como para as nacionais.

A grave crise que assola a Europa ganhou um cunho epidémico em grande parte pelo facto de já não existirem, hoje em dia, líderes como outrora. Políticos com a dimensão de um Jean Monnet, de um Robert Schuman ou de um Jacques Delors, para só evocar alguns, são apenas uma (boa) recordação do passado. Desgraçadamente, o destino dos europeus está agora entregue a governantes menores, a políticos da laia de um Durão Barroso, de uma Ângela Merkel ou de um François Hollande. E os que agora começam a emergir, tipo a francesa Marine Le Pen, o holandês Geert Wilders, o britânico Nigel Farage ou o italiano Beppe Grillo estão longe de tranquilizar quem quer que seja, antes pelo contrário.

Os altos índices de abstenção e os resultados eleitorais na França, Hungria, Reino Unido, Holanda e Grécia já não podem ser lidos como meros sinais de que as coisas não andam bem. Não, o que assistimos foi a manifestações legítimas, porque expressas através do voto ou da abstenção, da vontade de mudança, da condenação das políticas de austeridade e da rejeição de derivas relativamente aos princípios que enformam o Tratado de Roma.

Ainda estamos a tempo de inverter esta inquietante viagem. Pelo contrário, se nada for feito rapidamente, espera-nos o desmembramento da União Europeia e, eventualmente, aqui e além, a alternativa da democracia - a ditadura. Ora, sou dos que acreditam que tal cenário pode e deve ser evitado. Diria que tem de o ser. Eventualmente com novos protagonistas. Seguramente com novas políticas.

Enquanto tudo isto acontece, a coligação de direita no poder em Portugal assiste deliciada e com indisfarçável gozo à guerra fratricida entre socialistas, uma contenda que atirou para segundo plano a derrota histórica sofrida nas europeias pelos partidos de Passos Coelho e Paulo Portas.
Creio que os mais recentes desenvolvimentos políticos em Portugal demonstram, uma vez mais, que a realidade por vezes ultrapassa a ficção. Se não vejamos.

Após a pesada derrota eleitoral sofrida pela direita coligada, o socialista António Costa resolveu desafiar publicamente o secretário-geral do seu partido para a disputa do cargo. Claro que esta posição pública do presidente da Câmara de Lisboa fez esquecer a vitória do PS mas, principalmente, a derrota sofrida pelos partidos do governo e, nessa medida, serviu os interesses da dupla Passos Coelho-Paulo Portas.

Na realidade o PS venceu as eleições, embora com resultados nada famosos, mas acontece que António Costa também é de certa forma corresponsável pela votação obtida na medida em que ele próprio havia garantido estar tudo bem quando recuou pela segunda vez na sua candidatura à liderança do partido.

Ignoro o que vai suceder nesta guerra fratricida, mas sei que António Costa será provavelmente o político português com melhor imprensa. Se isso será suficiente para ganhar o PS é o que veremos, mas admito que ganhar o país pode ser mais fácil do que ganhar o partido.

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