Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A 17

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2017-05-07 às 06h00

José Manuel Cruz

Revela-se Deus ao Homem nos brandos desguardados do sonho, no arrebatamento místico de um deserto expiatório, no imprevisto de uma estrada. Revela-se Deus a crentes, por graça e exaltação da fé, e a ímpios, por caridade suprema, para que se redimam, testemunhem e se tornem pastores.
Entrega-se o Homem a controvérsias sobre Deus: existirá? Premiará ou punirá, num Além que com Ele exista? Quanto do que se constrói, ou do que é dado como revelado, respeita à natureza divina? Deus eu tome como hipótese viável, Deus revista, de seguida, de todos os atributos respeitantes à Sua excelsa dignidade, e tenho para mim que torceria o Seu omnipresente nariz às elaborações da Cova da Iria sobre a Rússia.

Teria a Virgem Mãe dado boa conta do recado, ou improvisado em equilíbrio precário sobre a azinheira? Teriam bentos e santos metido os pés pelas mãos, acabando por pôr nos piedosos lábios de Maria o que lá nunca esteve?

Houvesse, que não tivesse havido, em Fátima revelações, descesse dos Céus a eleita entre as mulheres, pelo próprio poder ou por potência do Pai, poderia, sempre, ter apelado à bondade, à virtude, à oração; poderia, naturalmente, alertar para os males do mundo, e sussurrar o que deveriam os homens fazer para prevenir ou reverter barbaridades, mas não me cheira que, no pino de 17, a palestra lhe fugisse para uma “conversão da Rússia” ou para uma “consagração da Rússia” à sua intercedente divindade.

Não! A Nossa Senhora que eu conheço não cometeria essa inverdade. Lúcia e os primos, que ignoravam para que bandas ficava Ourém - que dizer de Moscovo ou Kazan - não saberiam que nessas lonjuras se rezava com todos os fervores a Deus, se louvavam Cristo e Maria. Desconheciam, os iletrados pastorinhos, que o ícone da Virgem de Kazan era o sacro dos sacros, venerado por mujiques e czares. Os pastorinhos não estavam inteirados, mas a Virgem, como parte interessada, estava a par.

Não saberiam, os rudes pastorinhos, que a Santa Rússia era o “Jardim de Maria”. Não lhes passava pela ideia que, andando por cá D. Sebastião com febres de África, se dava a Imaculada a aparecer a russita de nove aninhos, revelando-lhe onde procurar a sua santíssima imagem, perdida de há séculos sob o avanço destrutivo mongol.

Não sabiam, os pastorinhos, que a virginal mãe era a Padroeira e Protectora do Povo Russo a fautora sagrada da vitória sobre Napoleão. Pois tanto era o que os pastorinhos não sabiam, quando se lhes figurou que a Rússia e o Inferno andavam de namorico!
Depois deu para o torto, como se constatou. Mas, à data das revelações, ainda um tal de Lenine pé não tinha posto no kremlin. Poderiam adivinhá-lo, no trono celeste, poderiam ter querido advertir-nos para malefícios em carteira, mas pena é que nada tivesse sido balbuciado sobre as perversões de austríacos e alemães.

Nada como meter Deus ao barulho para legitimar o poder de uns, diabolizando o de outros, para reunir recursos e sagrar uma cruzada contra os inimigos da fé. Há quem faça carreira e ganhe o Céu com estes floreados, mas a pós-verdade só começou há dias. Indo daqui, acho que vou recitar a ladainha de Nossa Senhora: Santa Maria - rogai por nós!

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