Correio do Minho

Braga, quinta-feira

2017

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2016-12-23 às 06h00

Margarida Proença

Por esta altura, a generalidade dos media faz todos os anos, um ponto da situação, uma espécie de “revisão da matéria dada”, destacando os aspetos mais importantes do ano que se passou, e por essa via desenhando pistas para o futuro. Confesso que de entre tudo o que tenho lido, e ouvido, o que mais me ficou foi na TSF, um comentário num programa de humor de Miguel Guilherme - Não é Mau. Dizia ele a certa altura que 2016 tinha sido tão estranho, que se a seguir a dezembro, acabasse por vir um bidezembro, e depois um tridezembro, etc, não se admiraria. Estou mais ou menos nessa onda.

2016 teve aspetos positivos, claro, mas surpreendentes quase sempre. Em Portugal, uma solução política inovadora, independentemente das críticas, que se revelou bastante eficaz. De acordo com o último Boletim Económico do Banco de Portugal, prevê-se um crescimento de 1,2% este ano, que deverá acelerar em 2017; a crise fez os seus estragos significativos - lá por 2019 o PIB deverá chegar de novo aos níveis por onde andava em 2008. Curioso é que apesar de um crescimento moderado, a situação no mercado de trabalho tem evoluído favoravelmente, bastante melhor do que mesmo muitos académicos acreditavam como sendo possível; a taxa de desemprego tem vindo a descer, e as ofertas de trabalho a aumentar. E isso é muito bom.

O turismo continua a fazer a sua demonstração efetiva da nossa vantagem comparativa, o rendimento disponível real aumentou, os consumidores estão mais confiantes. Para o que todos previam ser uma gerigonça de mecânica instável, não há dúvida que funcionou.
Claro que o investimento continua anémico de todo, com impacto sobre a adoção de novas tecnologias e a produtividade, a evolução das exportações dependerá como sempre do que acontecer nos mercados internacionais, o setor bancário e financeiro tem os problemas bem conhecidos já, o maior peso do emprego continua concentrado em setores menos produtivos, jovens com elevadas qualificações profissionais e académicas continuam a ser menos utilizados e menos preferidos nos processos produtivos face á alternativa salários baixos, ou seja , os desafios são muitos , diversos e complexos.

Mas o principal desafio para o futuro, para este 2017 que alguém me dizia no outro dia dever ser encarado com “o pessimismo necessário para permitir a sobrevivência”, vem da estranheza de 2016, do populismo crescente, das semelhanças com o que aconteceu pela Europa no pós recessão de 1929, do assumir que a globalização é um perigo muito mais do que uma oportunidade, da ideia de que as nações ”devem ser grandes” no contexto internacional, deste novo tipo de terrorismo que não tem face, nem limites e que se transmite por contágio nas redes sociais, da decisão de abandono da União Europeia por parte da Inglaterra, etc.

2016 teve coisas boas, certamente que sim. Mas hoje é tudo muito mais complexo.
E quando vejo coisas como o que aconteceu em Berlim, um camião de novo contra pessoas indefesas numa feira de Natal, ou vejo as notícias de Aleppo, e de tantas, tantas crianças abandonadas, não posso deixar de pensar para com os meus botões que tive o privilégio enorme de viver toda a minha vida numa das épocas de ouro da economia mundial, em que houve crescimento real e a implementação de um modelo de bem estar social, em que a saúde e a educação se tornaram incomparavelmente melhores, em que o acesso à tecnologia se vulgarizou, em que foi possível criar uma União Europeia e fazer em Portugal um 25 de Abril. Apesar de tudo.

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