Correio do Minho

Braga, quarta-feira

2010, um ano “sem açúcar”…

Saboaria e Perfumaria Confiança – pela salvaguarda do seu património

Ideias

2010-12-26 às 06h00

Carlos Pires

2010 está a terminar. É tempo de efectuarmos um balanço daquilo que o ano representou para o país e para os portugueses. Foi um ano difícil. Arrisco mesmo em afirmar: foi um ano muito difícil. Esta é a primeira conclusão a retirar, inevitável, e infelizmente.

Em 2010, a mais terrível das frases - há fome em Portugal! - foi profusamente badalada na comunicação social. Qualquer um de nós, minimamente atento e interessado pela realidade que nos rodeia, facilmente conclui que uma maior percentagem da população vive no limiar da pobreza.

Em 2010, pela primeira vez, todos os portugueses começaram a ter consciência da crise económica, financeira, social e política em que o país está mergulhado. Acrescento: o país e a Europa. A situação portuguesa tem contornos únicos, mas coincide com a crise de outros países europeus. De resto, é notório o novo desafio que se coloca à Europa e à moeda única - o ano que finda revelou-nos uma “Velha Europa” tensa, no seu interior, que lida com desigualdades e assimetrias a um nível que não julgávamos existirem. Entende-se que os alemães não queiram pagar as ineficiências de outros estados a quem apelidam de PIIGS - acrónimo pejorativo que designa o conjunto das economias de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha que, ao contrário deles, têm adiado reformas e sacrifícios.

Em 2010, pior e mais assustador do que a constatação das dificuldades em que o país e a Europa estão mergulhados, é percebermos que não se consegue descortinar qualquer rumo ou iniciativa política que nos faça sair desta crise.

2010 foi o ano da “indefinição” por excelência. Para além de se ter continuamente debatido uma crise que agora se começa a sentir nos bolsos dos portugueses, no plano político, o ano revelou-se de uma crise de ineficácias e “falácias redundantes”. Nada de novo! Nada de concreto! Nada de soluções que nos tragam, na entrada de 2011, uma mensagem de esperança! É certo que o Governo português incrementou a sua saga de tornar credível a intenção de controlo do défice e de redução da dívida pública. As medidas de austeridade sucederam-se e, a par, os economistas de renome dividiram-se na análise das medidas adoptadas.

Para uns, o rumo implementado pelo Governo apresenta-se correcto no plano dos princípios e serve para acalmar a desconfiança dos credores relativamente à possibilidade do país pagar as suas dívidas; para outros, “há vida para além do défice”, pelo que a falta de um factor alavancador da economia real, o investimento público, se revela ruinosa. “Todos falam, mas ninguém tem razão” - é o que parece. Fala-se de “dívida soberana”, de “mercados”, como estando no cerne do reboliço em que vivemos. As pessoas não sabem do que se trata e os próprios políticos parecem desorientados. O que permite que a ambiguidade persista. Mais do que ensurdecedor é comprometedor.

2010 foi um ano estranho. De repente, dizem-nos, serão países como a China, a Líbia, a Indonésia, os Emirados Árabes, Singapura e Brasil que nos poderão emprestar os quase 46 mil milhões de euros de que vamos precisar em 2011. Como se algum destes estados - a maioria com reputação bem pouco recomendável - estivesse disposto a financiar um país falido a troco de nada. Que nova ordem mundial é esta que 2010 nos apresentou?

Portugal, a Europa, o Mundo estão diferentes. 2010 foi indiciador dessa nova realidade, mas foi pouco claro quanto ao destino de todas essas “placas tectónicas”, perigosas e movediças. E, de repente, já próximo das festas natalícias, eis que faltou, imagine-se, “o açúcar”. Um “amargo de boca” , a juntar a tudo o demais, que, culinária à parte, constituiu uma alegoria ou metáfora que bem podemos utilizar para definir o ano português de 2010. Um ano amargo, estranho e indefinido.

Termino esta crónica com a partilha de um pequeno texto - “Nevoeiro”- do nosso grande Fernando Pessoa, retirado do livro “Mensagem”. Transmite uma imagem disfórica da realidade de Portugal, contudo, no final, um grito de esperança. A sua actualidade pareceu-me incrível, porque capta com nitidez aquilo que fomos, somos e porventura seremos.

“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer -
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!”

PS - Aos leitores e colaboradores do Jornal “Correio do Minho” desejo um ano de 2011 com alegrias, saúde e sucessos! É a Hora!

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