Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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10 milhões

O espantalho

10 milhões

Ideias

2020-03-31 às 06h00

João Marques João Marques

Será este o número potencial de prejuízos, em 2020, para o orçamento da Câmara Municipal de Braga. Dez milhões de euros contarão a história de um concelho que, como os demais, viu a sua vida económica interrompida, colocando em risco o emprego de milhares de pessoas.
Como disse há duas semanas, o aspeto económico do momento por que passamos não pode ser o decisivo, sobretudo quando há já quase centena e meia de vidas perdidas e muitas outras em suspenso, aguardando a plena recuperação de um vírus que não distingue quem ataca. Ainda assim, a economia é uma parte essencial da humanidade e, para o comum dos mortais, representa o meio pelo qual se sustentam vidas, famílias, instituições e comunidades.
Ao sabermos que só no nosso concelho o impacto potencial da pandemia pode tolher perto de 10% do orçamento municipal, não podemos deixar de t(r)emer pelas consequências para o futuro imediata da atividade do município.
Agora que as principais unidades fabris instaladas no concelho anunciaram a suspensão da atividade, juntando-se ao estado catatónico em que vive o turismo, é tempo de assumir prioridades e descartar várias atividades supérfluas ou não essenciais.
Já sabemos que a Semana Santa não sairá do estrito domínio da espiritualidade de cada crente. Foi também assumido que a Braga Romana não agitará as ruas do centro histórico, nem o S. João que foi já cancelado. Por muito traumáticas que nos pareçam estas omissões da agenda normal da cidade, o custo de não as cancelar poderia ser incomensurável, levando a futuros “mea culpa” de circunstância e dificilmente atendíveis pela população.
O papel dos decisores políticos, como tem sido repetidamente sublinhado, é o de falar verdade e não arriscar vidas humanas com opções temerárias e não testadas. O risco de pecar por excesso não tem paralelo com a sombria perspetiva da perda de vidas humanas que paira sobre quem insiste em desconsiderar a seriedade da ameaça que enfrentamos.
É por isso que não me espantará que iniciativas marcantes como a Noite Branca possam vir a ser igualmente canceladas. Seguramente que, por ora, é extemporâneo considerar uma decisão definitiva sobre a não realização de uma das mais mobilizadoras iniciativas culturais que decorrem no concelho, mas o ajustamento programático pode e deve ser já ponderado.
A sua redução para uma noite ou a sua reconfiguração para moldes compatíveis com as restrições que vivemos e que ainda deveremos viver nesse momento, aparecem como inevitáveis, aconselhando-se o delinear de vários cenários alternativos.
A redefinição ou cancelamento deste tipo de eventos não é uma panaceia infalível para garantir a recuperação das perdas financeiras que o município enfrenta, já que aquilo que deixa de gastar no planeamento e agendamento dos espetáculos dificilmente compensará a perda de receitas indiretas. Contudo, apostar na contenção do vírus num espaço de tempo tão curto e prosseguir com os planos normais destes grandes eventos aparece, à data de hoje, como extremamente arriscado, quando não mesmo irresponsável. E essa irresponsabilidade tem também custos económicos futuros e persistentes.
Não, não vivemos nem assimilámos um “novo normal”. Braga, o país e o mundo não têm de se vergar à inevitabilidade do “distanciamento social” perpétuo ou, sequer, episódico, só que este é o momento de aceitar a realidade sem conjunções adversativas.
Esperamos um regresso à normalidade no mais curto espaço de tempo e ansiamos por reatar hábitos tão despretensiosos como o café ao balcão, bem sabendo que isso, sim, é inevitável.
Só que essa inevitabilidade depende do engenho e capacidade científica da nossa espécie, do labor minucioso de gente muito capaz que tenta, enquanto perco tempo a escrever estas linhas e o leitor o perde a lê-las, encontrar a resposta que nos permita dizer na cara do vírus que (por ora) vencemos.
Até lá, sobra-nos a singela missão de não nos colocarmos na linha de fogo, de resguardarmos os que nos são mais próximos e mais frágeis e de ajudarmos quem mais precisa.
Noto, como linha final de reflexão que, enquanto me encontro enclausurado e protegido em casa, o vírus ganha terreno nos mais impreparados contextos. É para os que aí se encontram, as pessoas sem-abrigo, os refugiados que aguardam em campos sem condições e todos aqueles que não têm a sorte de viver em países que lhes possam oferecer as mais pequenas condições de lutar, de igual para igual com a pandemia, que fica o sublinhado e o clamor (insignificante) de um texto que não chega a ninguém.

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