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Braga, quarta-feira

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Entrevistas

2018-03-10 às 06h00

Rui Alberto Sequeira

Victor Hugo Salgado foi militante socialista, mas é como independente, liderando o movimento Vizela Sempre, que conquista nas autárquicas de Outubro de 2017 uma câmara, ainda que com maioria relativa, governada pelo PS desde a realização das primeiras eleições locais em 1999.

Victor Hugo Salgado foi militante socialista, mas é como independente, liderando o movimento Vizela Sempre, que conquista nas autárquicas de Outubro de 2017 uma câmara, ainda que com maioria relativa, governada pelo PS desde a realização das primeiras eleições locais em 1999. É o único independente a presidir a um Município no distrito de Braga que é também o mais recente. No próximo 19 de Março passam 20 anos sobre a restauração do concelho de Vizela. Um momento para reflexão.

P Como é que surge em Vizela uma candidatura independente capaz de retirar do poder uma força partidária que durante quase 20 anos dominou a vida política no concelho?
R É muito difícil conseguir o que nós fizemos em Vizela, um concelho que em duas décadas foi o mais socialista de Portugal. Em todo o tipo de eleições o PS venceu. Eu acho que o Vizela Sempre conseguiu fazer a diferença não apenas na vitória em que tivemos uma diferença muito significativa em relação ao Partido Socialista quer para a câmara, mas também para a assembleia municipal e para as assembleias de freguesia. Pela primeira vez, também, em Vizela, o PSD ficou à frente do PS. Isto quer dizer que os vizelenses mostraram uma maturidade democrática quando, apesar de na sua génese sociológica serem socialistas, optaram por votar não em partidos, mas em pessoas. Grande parte dessas pessoas tinham militado no PS e tinham trabalho feito. Eu acho que foi não só pelo que nós éramos, mas também pelo projecto que apresentámos para o futuro. Na ultimas autárquicas o movimento independente Vizela Sempre representava muito mais os socialistas vizelenses do que a lista apresentada pelo PS local.

P Os vizelenses tiveram em atenção, na hora de votar, que haveria situações porventura menos transparentes na gestão socialista da autarquia?
R Os vizelenses acharam que a actuação do PS nos últimos anos de governação municipal, em especial o último mandato, não tinha sido positiva para o concelho. Havia um aumento exponencial de divida que não correspondia a um aumento de mais valias para o concelho. Por outro lado, a candidatura do PS que surgiu não tinha muitos rostos conotados com a história socialista em Vizela.

P Quando era militante socialista candidatou-se a candidato à Câmara de Vizela pelo PS, num processo também ele complicado que contribuiu para o seu afastamento da vice-presidência do Município.
R Uma pessoa tem de ser coerente com as suas acções. Se eu era socialista e estava num executivo do PS tinha primeiro de me apresentar aos militantes do meu partido para poder catapultar uma candidatura à Câmara. Fui candidato independente não porque o quisesse, mas porque em determinada altura a estrutura local do PS não me quis. O que ficou claro é que a comissão política local do Partido Socialista não representava a população de Vizela.

P Uma vez que admite que mantém a sua matriz socialista admite no futuro vir a ser candidato pelo PS?
R Acontece que eu neste momento não coloco qualquer tipo de cenário de uma hipotética candidatura à CMV, nem de um hipotético apoio do Partido Socialista. A minha preocupação é centrar-me na actuação do executivo municipal que tem sido muito intensa atendendo às condições que temos dentro da Câmara. Para protagonizar qualquer tipo de candidatura ou de apoio dentro de três anos, será necessário reunir um conjunto de factos e responder a algumas questões e a primeira a que tenho de dar resposta é se desde logo o trabalho que eu me propus fazer, o consegui alcançar. Essa é uma pergunta a que responderei daqui a dois a três anos.

P Certamente que muitos dos votos no movimento Vizela Sempre vieram de socialistas.
R Se analisarmos a candidatura independente que eu liderei e se olharmos para as pessoas que a integraram, não existe qualquer tipo de duvida em reconhecer que eram mais socialistas do que a lista apresentada pelo PS. O cabeça-de-lista já tinha sido apoiante do PSD local. O terceiro vereador candidato à Câmara de Vizela apresentado na lista do PS também já o tinha sido pelo PSD e um ou outro candidato às juntas de freguesia já foram vereadores do Partido Social Democrata. Quem olhou para a nossa lista viu precisamente contrário: pessoas que tiveram uma relação de militância no PS de Vizela e funções autárquicas e nacionais ao serviço do Partido Socialista.

P - O recente caso de suspensão de um ajuste directo de obras no pavilhão da escola é um sinal desse período que se reflecte agora?
R - Houve um concurso público para reconstrução de um pavilhão escolar na ordem dos 200 mil euros. O concurso ficou vazio porque não surgiu ninguém que por aquele valor quisesse fazer a obra. A Lei diz que a seguir a um concurso que ficou vazio pode haver um ajuste directo por aquele valor. Mas, a Lei, também diz que o ajuste directo não pode ser objecto de alteração de qualquer tipo. Acontece que houve uma alteração substancial do caderno de encargos. Na nossa opinião o ajuste directo que foi feito é ilegal porque entre o concurso e o ajuste, o caderno de encargos foi alterado. Essa alteração permitiu reduzir significativamente o valor da obra o que significa que se essa mudança tivesse sido colocada no concurso publico, as empresas poderiam ter apresentado uma proposta vantajosa.

P - Ter optado por funcionários do Município para funções de alguma confiança politica como assessores e adjuntos, em vez de ter optado por contratação externa, teve algum significado no orçamento da autarquia?
R - Não fazer contratações externas é muito relevante. Primeiro eu acho que os funcionários da Câmara têm competência. Em segundo lugar as juntas de freguesia precisam de financiamento. Em terceiro a CMV não reúne hoje as mesmas condições financeiras do passado. Atendendo que uma reorganização do quadro de pessoal não colocava entraves ao funcionamento do Município, vamos com esta medida poupar anualmente 100 mil euros que iremos transferir para as juntas de freguesia.

P Venceu as eleições, foi eleito presidente da CMV, mas não conseguiu uma maioria absoluta sendo obrigado a um entendimento com a coligação PSD/CDS para garantir estabilidade.
R Poderíamos ter optado por fazer acordos pontuais, mas entendemos que era preferível para garantir a estabilidade governativa do Município de Vizela, um acordo de regime. Esta estabilidade permitir-nos-ia governar ao longo de quatro anos sem haver uma excessiva preocupação com as questões políticas, mas uma preocupação quase total com as questões relacionadas com o nosso concelho. Foi com este pensamento que tomámos a decisão de conversar com a coligação.
P O Partido Socialista estava arredado desse acordo?
R Em absoluto porque não me revejo minimamente nas pessoas que estavam na candidatura do PS.

P O acordo pós-eleitoral com a Coligação PSD/CDS-PP foi fácil de alcançar?
R Nunca nenhum acordo pós-eleitoral é fácil. Tínhamos um objectivo que era demonstrar em todas as nossas acções que íamos pugnar pela diferença. Desde logo dissemos que só aceitaríamos um vereador a tempo inteiro enquanto a coligação pretendia dois porque a nossa estratégia era demonstrar claramente a diferença em relação a práticas do passado. Os assessores e os adjuntos foram escolhidos entre os funcionários da Câmara numa lógica de conseguirmos poupar dinheiro aos cofres do Município.

Endividamento para não perder eleições

P Um dos entraves á resolução dos problemas do concelho é o endividamento da autarquia que não o apanhou de surpresa.
R Não apanhou de todo. Em 2012 assumi a pasta financeira da autarquia sendo responsável por fazer uma reestruturação financeira da Câmara Municipal de Vizela (CMV). Fui buscar nove milhões de euros ao Programa de Apoio á Economia Local, mais três milhões ao BPI e outros três milhões à CGD. Com estas verbas consegui fazer uma reestruturação financeira absoluta do Município, fazer cortes na despesa e fazer uma convergência para aquilo que é a racionalização de meios da CMV. Ao longo do ano e meio do anterior mandato e desde que fui afastado de funções pelo então presidente, verificou-se que as pessoas que ficaram no executivo municipal percebendo as dificuldades que iam ter para ganhar as eleições autárquicas, cometeram alguns excessos. Num ano e meio a anterior CM Vizela gastou entre projectos não realizados e obras em estradas 1 milhão 475 mil euros. Em pessoal avençado a câmara aumentou a factura em 100 mil euros/ano. Foram atribuídos subsídios num montante de 1 milhão de euros quando o valor é em média de 600 mil. Encontrámos a CMV debilitada. A divida da Câmara andará na ordem dos 15 ME a longo prazo.

P - O que estará em excesso na dívida da CMV?
R - Na minha opinião foi a dívida contraída entre 2008/09 e 2010/11. Foi um período de tempo em que se verificou um aumento exponencial da dívida sem que houvesse um retorno do ponto de vista de obras.

P - A divida da CMV de vários milhões de euros é muito limitativa de investimentos neste mandato?
R - Limita. A entrada da troika no país criou entraves do ponto de vista legal, ao funcionamento das câmaras municipais criando um limite de endividamento. A Câmara de Vizela, de acordo com dados da Direção Geral da Administração Local, só tem um limite a mais do endividamento existente de cerca de 900 mil euros. Quer dizer que mesmo que consiga contrair um empréstimo bancário, 900 mil euros para fazer um grande investimento ou até para acabar as obras do edifício-sede é um valor reduzido. Temos de ter alguma criatividade do ponto de vista da nossa acção e começar a adoptar medidas que permitam liberar alguma receita através do corte de despesas.

P - O actual quadro financeiro impede a autarquia de Vizela de se candidatar a fundos comunitários?
R - Não impede. Mas é bom que se diga que nem todas as soluções de investimento para Vizela passam pelo quadro comunitário. Não existe qualquer mecanismo financeiro para apoiar a conclusão das obras do edifício-sede nem para acabar a biblioteca e o auditório.

P - São intervenções da responsabilidade do Município?
R - Não. São competências da concessão.

P - Quando falamos das termas falamos do principal activo turístico de Vizela?
R - Eu tenho para mim que não é apenas uma área que vai resolver o problema do turismo de Vizela. As termas surgem primeiro lugar, mas de uma forma complementar. Depois o rio Vizela onde estamos a trabalhar.

P Ainda surgem aqui e ali problemas de poluição?
R - Sim, mas estamos a conseguir resolver.

P - Vem aí a Feira do Bolinhol (17 a 19 de Março) que é uma receita exclusiva de Vizela criada pelos seus familiares (risos). A gastronomia é sempre uma mais valia turística.
R - A minha trisavó foi a criadora da receita do "Bolinhol. No passado existia a "Feira do Açúcar, mas nós estamos a ir buscar aquilo que está na nossa essência. A Feira do Bolinhol contribui também para a marca Vizela

P - Há pouco falava-se do rio Vizela e de alguns episódios de poluição. A CMV está atenta?
R - Existe um plano de despoluição do rio Vizela. A autarquia está a acompanhá-lo na integra e há uma melhoria substancial. Estamos a trabalhar junto do ministério do Ambiente no sentido de ser criado um despacho com condições específicas para o rio Vizela no sentido de criarmos as novas condições de fruição do rio. Na próxima segunda-feira (12 de Março) vamos apresentar juntamente com a Vimágua um levantamento exaustivo e iniciar uma fiscalização integral dos cursos de agua que atravessam Vizela por baixo das ruas e das casas do centro.

P - Em que medida é que o rio pode ser usufruído?
R - Em duas vertentes essenciais. Criar condições para ter uma praia fluvial, o mais rapidamente possível. Depois temos o lado desportivo criando uma pista para a prática de canoagem em águas rápidas.

P Mencionou a construção de uma nova ponte sobre o rio Vizela.
R O concelho de Vizela é dividido pelo rio e sucede que na freguesia de Tagilde e São Paio existe uma única ponte que serve aquelas freguesias: Tagilde, São Paio e Santo Adrião. Verifica-se que muitos dos transportes que são feitos para São Paio que tem uma zona industrial - têm de através da zona centro do concelho. Esta situação cria constrangimentos de trânsito no concelho, dificuldades para os próprios empresários e por isso queremos construir uma nova ponte.

P Vai avançar este ano?
R A nossa intenção é lançar a primeira pedra no dia 19 deste mês quando se assinala 20 anos da restauração do município de Vizela. Neste momento já estamos em contacto com todos os proprietários de terrenos na zona envolvente e estamos com todas as autorizações necessárias para fazer avançar a obra. Dentro do calendário que nós definimos queremos ter a ponte concluída até ao final deste ano.

P É uma boa prenda para assinalar os 20 anos do município.
R Será sobretudo uma homenagem a todos aqueleis que lutaram pela autonomia provando que valeu a pena. Obras como esta ponte e outras que iremos fazer a seguir vão provar isso mesmo.

P Para além do lançamento da primeira pedra da nova travessia estão previstos outros momentos para assinalar as duas décadas do concelho?
R Muitas vezes as pessoas discutiam se o feriado municipal deve ser a 19 de Março, dia da restauração do município ou no dia de S. Bento que é o nosso padroeiro. Esta divergência surgia porque ao longo dos últimos anos as comemorações do 19 de Março começaram a ser cada vez mais tépidas. Vamos ter varias iniciativas ao longo dos dias para que os vizelenses voltem a sentir a importância do 19 de Março de 1998. Vamos apostar numa grande festa de cultura e de tradição. A Feira do Bolinhol é uma iniciativa que tem lugar nessa data.

P Estes 20 anos valeram a pena?
R- Eu creio que sim. É preciso ter alguma frieza para avaliarmos de forma objectiva. Eu acho que enquanto presidente da CMV tenho uma responsabilidade reforçada e a minha opinião é que houve períodos nestas ultima duas décadas em que efectivamente valeu a pena, houve períodos em que Vizela estagnou, mas analisando de forma global e pensando naquilo que os vizelenses podem conseguir no futuro, não tenho duvidas que foi uma grande mais-valia Vizela ter-se torna- do concelho e consolidar a sua identidade.

P- E as relações com Guimarães?
R (risos)Temos uma óptima vizinhança.

Marca Vizela

P - Recentemente foi apresentada a marca Vizela para a promoção do concelho, balizada pelo sector industrial e pelo termalismo. Olhando em separado para cada um destes dois pilares, Vizela é um município sedutor para as empresas?
R - Vamos criar condições para fixar as empresas no concelho e depois cativar, de novo, o investimento em Vizela. Queremos criar uma Vizela mais amiga das industrias e dos empresários. Criámos um Conselho Económico-Social que na sua primeira reunião contou com a presença do ministro Vieira da Silva e de cerca de 80 empresários de todo o município. Internamente vamos ter um mecanismo o InvestVizela que vai ter duas áreas distintas. Por um lado, vai criar condições, principalmente fiscais, de apoio ás empresas que se queiram fixar e por outro ter uma Via Verde que através de um gabinete na câmara apoie um empresário que deseje fixar-se no concelho, a ultrapassar com mais celeridade alguns procedimentos municipais.

P - O conselho económico e social de que falou é consultivo?
R - É consultivo e é muito importante para anular o distanciamento entre a CMV e os empresários.

P - Reganhar a confiança dos empresários?
R - Se existia um descontentamento da população em geral para com o anterior executivo municipal também existia do lado empresarial.

P - O têxtil e o vestuário continuam a predominar em Vizela?
R - Sim muito fortes no concelho juntamente com o calçado. Começam também aparecer um conjunto de empresas vocacionadas para outras áreas como a cartonagem.

P - O termalismo é outro dos pilares da marca Vizela.
R - Temos uma estratégia que assenta principalmente no que é a nossa essência. A essência do concelho de Vizela tem a industria e o termalismo associado ao turismo. As termas encerraram em 2009. Foram reabrindo paulatinamente, mas neste momento há um problema que o anterior executivo camarário achou sempre que era do concessionário das termas. Para mim esse problema não é só do concessionário, mas também da autarquia porque tem a ver com os vizelenses. Desde que assumi funções reuni com a secretaria de estado do Turismo. Reorganizamos tudo o que tem a ver com o financiamento e a estrutura que estabelece a relação financeira entre a edilidade e a entidade que está a explorar as termas. Já criámos condições para durante o mês de junho a unidade termal abrir em pleno ultrapassando três dificuldades: espaço envolvente, acessos ao balneário termal e a concretização de uma das piscinas termais (das maiores da Península ibérica) que permite também ter a valência de SPA.

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