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Entrevistas

2018-09-15 às 06h00

Paulo Monteiro

Os Transportes Urbanos de Braga vão apresentar os primeiros autocarros eléctricos da sua frota, aproveitando a Semana da Mobilidade. Sem apoios do Estado, o administrador dos TUB, Teotónio dos Santos assinala o esforço sem mexer em tarifários, para renovar os autocarros, recuperar clientes, equilibrar as contas, criando um ecossistema de mobilidade que concorra com o automóvel.

P – Na próxima terça-feira, em plena Semana da Mobilidade, os Transportes Urbanos de Braga (TUB) apresentam os primeiros seis autocarros eléctricos que fazem parte da estratégia de renovação da frota. Um acontecimento que é um marco na vida da empresa.
R – A renovação da frota é uma realidade. Juntamos à melhoria dos serviços prestados pelos TUB nos últimos anos, uma alteração do paradigma da transportadora municipal que passa pela aquisição de novos veículos. É isso que vai suceder na terça-feira com a apresentação dos autocarros eléctricos.

P – O que é que os Transportes Urbanos vão preparar para a Semana da Mobilidade?
R – Para além da apresentação dos autocarros na terça-feira, nos dias seguintes (19, 20, 21 e 22), vamos ter na Avenida Central um autocarro exposto para que os bracarenses fiquem a conhecer este novo veículo. Ao mesmo tempo teremos os outros autocarros eléctricos a fazerem viagens experimentais e gratuitas que possibilitem à população usufruir destes veículos. Na semana seguinte iremos progressivamente introduzir os novos veículos eléctricos nos circuitos onde vão operar.

P – A escolha dos circuitos destes seis autocarros eléctricos vai obedecer às características dos próprios veículos.
R - Vão circular nas linhas que ligam a Estação de Caminhos de Ferro à Universidade do Minho e ao Hospital de Braga. São autocarros com mais de 80 lugares, entre sentados e de pé, com capacidade para transportar pessoas de mobilidade reduzida.

P – A aquisição dos seis autocarros eléctricos pela candidatura ao POSEUR tendo sido garantido um financiamento de 47%. Na Assembleia Municipal foi aprovada a contração de um empréstimo para aquisição destes veículos e até 2021 está prevista a compra de mais 30 autocarros. Como é possível os TUB terem de se endividar e nos casos dos STCP e da Carris, o apoio financeiro restante (53%) ser pago pelo Estado?
R – São situações de desigualdade que já têm muitos anos e que até agora nenhum governo corrigiu. Quer no Porto, quer em Lisboa as duas transportadoras recebiam fundos directamente do Orçamento Geral do Estado. A Carris foi entregue ao Município de Lisboa com um passivo limpo acontecendo o mesmo com os STCP no Porto.

P – No caso da Carris foram 813 ME e nos STCP 600 milhões que saíram do Orçamento de Estado...
R - Essa é uma situação flagrante de desigualdade a juntar aos apoios constantes dados ao longo de muitos anos para a renovação das respectivas frotas. Os TUB vão renovar a sua até ao final deste mandato autárquico. Para além destes seis, teremos mais 30 autocarros. Gostaríamos de obter um apoio mais substancial da Administração Central porque a promoção da mobilidade sustentável é importante para as cidades que estão cada vez mais poluídas e sobrecarregadas com o transporte individual. Nós, em Braga, temos vindo a fazer um trabalho relevante nesse sentido. Em Braga, cada carro que entra na cidade transporta 1,3 passageiros. Na zona mais central da cidade onde estão 100 mil pessoas, existem 50 mil lugares de estacionamento. É uma concorrência feroz ao transporte público. Apesar de todas essas vicissitudes e da falta de apoio do Estado temos vindo a trilhar um caminho de sucesso. Para terem uma ideia do que falo dou o exemplo da Carris que apresentou lucros no último ano, a primeira vez em três décadas.

P – É esse “contra ciclo” dos Transportes Urbanos de Braga que não tem merecido ser, digamos, premiado.
R – O presidente da Câmara Municipal de Braga (CMB) tem vindo a reivindicar esses apoios, juntamente com outros autarcas, para a renovação da frota, para os passes. Existe um apoio que é o “Passe Social +” para famílias carenciadas em função do escalão a que pertencem e que só é aplicado em Lisboa e no Porto; o Governo preconizou estender esse apoio a todo o país, mas, a verdade, é que essa legislação não saiu da gaveta.

P - Os TUB têm passivo acumulado sendo que a autarquia bracarense é o accionista único. O Estado também perdoa as dívidas como fez com a Carris e com os STCP?
R - Não. A CMB ao longo de vários anos não cobriu os resultados líquidos negativos dos TUB. A empresa municipal tem a receber da edilidade 7 ME, que corresponde ao seu passivo. Os Transportes Urbanos de Braga fizeram um acordo com a autarquia em que parte dessa verba será canalizada anualmente para apoio à aquisição dos 30 autocarros, até 2021.


P - Na próxima segunda-feira os TUB vão também colocar em andamento o projecto ‘School Bus’. Do que é que estamos a falar?
R - Temos seis estabelecimentos de ensino - entre públicos e privados - temos quatro ‘interfaces’ onde os pais podem deixar os filhos, com vigilância, os alunos são depois entregues nas escolas com toda a segurança. Queremos promover mais uma vez a mobilidade sustentável evitando que os encarregados de educação tenham de ir com os seus carros para as portas das escolas, criando muitas dificuldades de circulação nas imediações dos estabelecimentos de ensino.

P - Neste primeiro ano como é que estamos de adesão?
R - Esperamos que mais de 400 alunos nas seis escolas possam utilizar este transporte. O ano para os TUB começa em Setembro quando as famílias fazem as suas opções em matéria de transporte para os seus filhos, sobre a forma de se movimentarem.

P - Relativamente à Rua Nova de Santa Cruz existe a possibilidade dos autocarros voltarem a circular no sentido periferia /cidade?
R - Esse trajecto passou a ser efetuado pela Rodovia enquanto no sentido oposto, faz-se pela rua Nova de Santa Cruz. Da avaliação feita não nos parece que esteja a funcionar mal.

P – Braga pela sua morfologia tem condições para criar corredores para os transportes?
R – Fez-se uma pequena intervenção de grande valia na Rua do Raio que permitiu segregar a via dos autocarros do restante trânsito. Às vezes com pequenas intervenções é possível fazer melhorias significativas.

P - Essa comodidade que foi criada contribuiu para o aumento de clientes.
R – As tarifas, a gestão da área comercial, a promoção, o marketing, a melhoria das linhas. Quase 96% da população do concelho de Braga tem uma paragem dos TUB num raio de 350 metros da sua casa. Neste momento temos já o centro de Braga ligado aos pólos principais de mobilidade como é o caso da Estação da CP, o Hospital, a Central de Camionagem, a Universidade do Minho e as zonas habitacionais de Lamaçães e Nogueiró, com uma frequência de autocarros de 15 ou 20 minutos. No fundo, todas estas novas formas de oferta de transporte ajudaram a criar um élan positivo. Temos duas linhas dos TUB (Minho Center/Nova Arcada e Hotel de Lamaçães /Leclercq) que representam um novo paradigma. São percursos que funcionam sete dias por semana de 20 em 20 minutos, permitindo que mesmo ao sábado e ao domingo as pessoas não usem os seus carros.

P – Quantas pessoas foram transportadas no ano passado pelos TUB?
R - Um número muito próximo dos 11,6 milhões de passageiros. Vamos ver se em 2018 conseguimos atingir os 12 milhões.

P – Quantos utentes têm os TUB com passe?
R – Cerca de 20 mil clientes. É um número aquém daquilo que nós pretendemos. Estamos a fazer um esforço para motivar a compra do passe normal pelo cidadão.

P – Os TUB têm criado serviços especiais para alguns dos eventos que acontecem em Braga, criando locais onde as pessoas podem deixar os carros e depois deslocarem de se autocarro para o centro da cidade ou para o estádio.
R – Começámos a usar o conceito de ‘interface’ nos principais acontecimentos da cidade introduzindo uma oferta especial. Este sistema tem funcionado muito bem em variadas ocasiões. Um estudo da DECO colocava os TUB entre as que apresentavam um maior grau de satisfação dos utentes.

P – Já disse nesta entrevista que os tarifários para 2019 não vão ser alterados...
R – Vai nesse sentido a proposta que vamos fazer à Câmara Municipal de Braga que é o accionista.

P -Mantendo os mesmos tarifários e existindo um aumento de custos próprios da exploração deste tipo de actividade como é que se caracteriza a gestão?
R – O nosso volume de negócios tem crescido em todos os tipos de passageiros e em todos os tipos de passe. Crescemos nos bilhetes de bordo e nos pré-comprados. Este aumento tem-nos ajudado a lançar novas linhas, mas fazêmo-lo com alguma prudência. Enquanto empresa municipal temos uma legislação muito restritiva. Temos neste momento mais colaboradores com um aumento significativo de motoristas, em contrapartida temos pessoas que se vão aposentando em especial na área administrativa. Quero ressalvar o apoio dos colaboradores porque têm sido extraordinários. É uma empresa com muito “saber como fazer”.

P – Este ano Braga é a Cidade Europeia do Desporto e alguns jovens praticantes de desporto disseram-nos que em matéria de transportes urbanos faltava-lhes o ‘passe do desportista’. Faz sentido criar esse passe nos TUB para quem é, por exemplo, atleta federado?
R – Todos os estudantes independentemente da distância de casa à escola têm, à partida, um desconto de 25%. O passe para o desportista é uma ideia que tem de ser estudada.

P – Qual é a estratégia dos TUB para continuarem a abrir-se à comunidade?
R – Queremos renovar a frota, melhorar os serviços já prestados. Estamos cada vez mais a apostar nas novas tecnologias, em soluções informáticas, utilizando aplicações móveis. Muito importante é o projecto que estamos a elaborar para melhorar o nosso parque de material e oficinas. Adquirimos um terreno por 425 mil euros, pago inteiramente por nós, escriturado e que nos vai permitir construir um parque com todas as condições para os nossos colaboradores e para fazer a manutenção dos nossos autocarros.

P – Esse terreno fica contíguo às instalações dos TUB em Maximinos.
R – A Bragahabit está a tratar da libertação do espaço. Nós encontrámos um instrumento financeiro que é o IFRU que poderá permitir, com taxas de juro interessantes, avançarmos para essa renovação do parque de material e oficinas.

P – Uma das parcerias dos TUB é com a InvestBraga. Como é que está a ser executada?
R – Quando uma empresa se instala em Braga fazemos uma campanha divulgando os trajectos, horários e serviços junto dos trabalhadores. Criámos a linha 95 - que em dois anos transportou 1,8 milhões de pessoas - que serve o pólo de Negócios em Lamaçães, numa altura em que ainda não estava completo.

P – O investimento na compra dos novos autocarros é de 10 ME. Sendo que desses 30 nem todos serão eléctricos, não há uma contradição com o discurso da política de sustentabilidade ambiental?
R – O valor de investimento é dessa ordem de grandeza. A compra que vamos fazer é um ‘mix’ entre os dois tipos de veículos. O gás natural já está testado, nos TUB já temos esse tipo de autocarros. A tecnologia eléctrica é muito recente, está a evoluir rapidamente, mas precisa de ser testada no terreno. Os autocarros eléctricos que vêm para Braga vão fazer 140 km por dia. A sua autonomia ainda não permite fazer um serviço de manhã á noite. Depois o preço de um autocarro a gás natural comprimido fica em 220 mil euros enquanto o do eléctrico é o dobro.

P – Para quando a saída dos TUB para fora do concelho?
R – Falta alterar a lei. Seria interessante dependendo dos locais. Prado no concelho de Vila Verde será talvez o melhor exemplo dessa possibilidade.

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