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"Novo Banco não perdeu a confiança dos clientes"
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Entrevistas

2018-07-14 às 06h00

José Paulo Silva

Na passagem por Guimarães e Braga para apresentar os projectos NB Cultura e os ‘Nossos Campeões’ o presidente do Novo Banco, António Ramalho, disse à rádio Antena Minho e ao jornal Correio do Minho que a estratégia centra-se no apoio às empresas exportadoras e que a instituição está a renascer, após três anos muito complicados.

P – O Novo Banco (NB) através da marca NB Cultura está a disseminar por diversas cidades do país e em diversas instituições, o seu património artístico - neste caso uma colecção de pintura e uma colecção de fotografia contemporânea. O que é que norteia esta iniciativa?
R – Trata-se de um projecto desenvolvido em conjunto com o Ministério da Cultura (MC) e que se prendeu com duas preocupações: tirar proveito de um conjunto de obras avulsas de elevada qualidade que o NB tinha no seu património e que era fundamental partilhá-las com o publico; e por outro lado valorizar uma coleção de fotografia que se qualifica entre uma das 30 melhores coleções empresariais, homogéneas, que existem no mundo.

P – Qual foi o caminho escolhido para se chegar ao momento de partilha com o público?
R – Começámos por definir que a Coleção de Fotografia Contemporânea necessitava de um novo espaço preferencialmente fora de Lisboa. Estamos neste momento em negociações com o objectivo de encontrarmos uma solução em Coimbra no Convento de São Francisco. Trata-se de uma coleção com mais de 900 peças que precisam de condições muito especiais para a sua preservação.

P – Faz sentido essa colecção de fotografia ficar confinada ao mesmo espaço e na mesma cidade?
R – Para a gestão da própria colecção, para a sua unidade, pela sua homogeneidade é essencial que fique no mesmo espaço. Neste momento está concentrada nas instalações do NB no Marquês de Pombal.

P – Temos depois a Coleção de Pintura.
R – Neste caso foi mais simples e mais rápida a disseminação das obras. Concentraram-se um conjunto de boas vontades entre o MC e o NB que passou por dar conteúdo e dar unidade a uma coleção de peças avulso que eram os nossos quadros. Essas peças de pintura foram selecionadas, verificadas, analisadas e detectaram-se 97 de elevadíssima qualidade, mas que não tinham uma coesão entre si. Optou-se por fazer um protocolo de carácter geral que depois repetimos em relação a cada um dos museus, descentralizando o depósito destas obras.

P -Tal como aconteceu esta semana em Guimarães.
R – Exatamente. Foi isso que aconteceu em Guimarães com a pintura de Jean Baptiste Pillement, um paisagista do século XVIII. Foi a primeira peça que veio para o Norte, neste caso para o Paço dos Duques de Bragança. Este processo acaba por dar uma certa unidade a uma colecção que não era homogénea, depois o nosso esforço em conjunto com o MC é investigar as obras para lhes dar um novo lar e finalmente conseguir-se que haja uma devolução destas pinturas à sociedade para uma fruição generalizada das peças, enriquecendo o património de muitos museus locais.

P – Braga recebeu a primeira edição de uma outra iniciativa do NB ‘Os Nossos Campeões’ que resulta de uma parceria com a SIC Noticias e o Expresso. Qual é a razão de ser deste projeto?
R – Fomos o único banco na Europa que ultrapassando três anos difíceis voltou novamente ao mercado, ainda que num processo de reestruturação, mas com uma posição particularmente relevante em Portugal.

P – Disse que o NB passou três anos difíceis. Há uma confiança junto dos clientes particulares e dos clientes empresa que é preciso recuperar, atendendo a que o NB surge na sequência da resolução do BES? Como é que avalia neste momento esse nível de confiança?
R – O NB em última instância e esse será porventura o elemento menos percepcionado até em termos internacionais, nunca perdeu a confiança dos seus clientes. O banco tinha mais depósitos no dia da alienação – 18 de Outubro de 2017 do que tinha no dia da resolução do BES em 4 de Agosto de 2014. Internamente não queremos esquecer o passado e entendemos que a melhor forma de o fazer e de honrar aquilo que é o futuro e os nossos objetivos muito concretos é não esquecermos o que correu mal. Temos o esforço de nestas preocupações mantermos vivo algum do nosso ADN: por exemplo o facto de sermos o único banco que tem mais activos em empresas do que em particulares - todos os bancos portugueses têm mais ativos nos créditos à habitação do que têm activos nas empresas, nós não!

P – Esse aspecto pode ter sido um trunfo no período mais conturbado na actividade do NB?
R – Eu acho que foi um grande trunfo. De alguma maneira esse projeto assegurou em primeiro lugar a diferença - eu julgo que as instituições europeias compreenderam bem a diferença do banco e a sua importância estratégica e sistémica, por outro lado permitiu-nos ter sempre a confiança de que tínhamos um papel a desempenhar e um espaço a ocupar no sistema financeiro português.

P – Em 2017 o NB teve resultados negativos significativos. No primeiro trimestre de 2018 houve já resultados positivos. Estamos num ponto de viragem?
R – Os resultados dos primeiros três meses deste ano foram marginalmente positivos, mas eu tive o cuidado de dizer que os nossos objetivos ainda não se centram na rendibilidade, mas sim na sustentabilidade. Eu tenho sido muito claro ao dizer que um processo de reestruturação custa tempo e dinheiro e é preciso as pessoas pensarem que esses dois aspectos ainda vão ser necessários para termos um banco perfeito. Recentemente o presidente do Conselho Geral e de Supervisão do NB, Byron Hayes disse que o objectivo era termos - entre os 18 e 24 meses - a “nossa casa limpa”, termos o NB pronto a conceder o crédito à economia e a ser o parceiro que as empresas exigem.

P - Estamos num distrito que tem três concelhos (Famalicão, Braga e Guimarães) que estão entre os dez mais exportadores a nível nacional, com um volume de negócios de muitos milhões de euros. Há alguma estratégia do NB para estes Municípios?
R - É claro que existem alguns aspectos que contribuem para essa classificação, como é o caso da Continental em Famalicão e da Bosch em Braga. No entanto esta é uma apreciação que pode ser injusta se repararmos que os concelhos que estão à frente, como é o caso de Lisboa, albergam as sedes de muitas empresas exportadoras e o de Palmela onde está instalada a Autoeuropa. A importância destas características da exportação portuguesa, para o banco é relevante, mas para a sociedade ainda é maior. No caso do NB, 55% das pequenas e médias empresas (PME´s) são nossas clientes e no caso das exportadoras mais de 60% são também nossas clientes. Nestes três municípios mais de 65 por cento das empresas são nossas clientes. Mas, mais importante que para o banco - porque este se sente bem com as empresas exportadoras pela sua experiência de ‘trade finance’, pela sua experiência de apoio internacional e informativa em relação ás empresas - é a vantagem para o país. Curiosamente os números das empresas exportadoras quando se comparam com o das empresas não exportadoras é avassalador. O crescimento do número de sociedades exportadoras é de 2,9% contra 2,7 % nas outras. A produtividade das exportadoras é 50% acima das empresas normais , os custos e o valor por trabalhador são muitos maiores mas a rendibilidade das vendas também é maior; isto significa, em rigor, que os portugueses sempre que se confrontam com um mercado mais exigente, mais difícil e que tem uma procura mais competitiva ganham na comparação e tiram benefícios que são repartidos por todos.
P - Havendo ainda um número reduzido de empresas exportadoras qual é o papel que a banca pode desempenhar no sentido de facilitar o acesso aos mercados externos?
R - A banca pode fazer duas coisas: a primeira é perceber que a sua função não é meramente financeira. A sua posição muitas vezes é informativa, é colocar as oportunidades de negócio, é determinar projetos que ás vezes são meramente infor- mativos. Nós temos o projecto ‘ISCO’ que cria fichas de informação sobre as oportunidades de negócio que existem do ponto de vista da exportação. A primeira coisa que as empresas têm de fazer é experimentar. Por natureza o país mais atractivo para a experiência de exportação é a Espanha, onde NB se sente particularmente apto. Nós não vamos sair de Espanha precisamente por sermos o único banco português que tem um carácter ibérico. Temos um produto o ‘Express Bill’ que é um instrtrmento que permite que o operador se sinta como se estivesse a trabalhar em Portugal, uma espécie de ‘factoring’ internacional, permitindo uma transacionabilidade mais fácil e um conhecimento maior do mercado. Estes são os passos que nós podemos ajudar as empresas a dar. A banca não se pode substituir aos empresários, nem é bom o contrário. Os exemplos do passado mostraram que é uma lição que não devemos esquecer.

P – Pode apontar uma perspectiva de crescimento dos clientes empresarias e particulares do NB?
R – Do ponto de vista empresarial a nossa tendência será para crescer de uma forma sustentável. Contamos com duas características que consideramos fundamentais. A primeira é que estamos a renascer no mercado. O segundo aspecto é que acreditamos fortemente na alavanca que a nossa presença em Espanha nos permite ter, do ponto de vista da diferenciação em relação aos nossos concorrentes, permitindo dar um apoio fundamental à actividade exportadora. A nossa estratégia é sermos o primeiro banco das empresas portuguesas naquele país e sermos um dos três primeiros bancos das empresas espanholas que queiram trabalhar em Portugal.

P - Apesar do crescimento das exportações a nível nacional e desta região do Minho em particular, Portugal ainda continua a ter uma percentagem de exportações do PIB, modesto.
R - Nós ainda fazemos parte do bloco dos países que estão mais fechados. Temos 43% do nosso PIB em exportação, a média da Europa é 46%, mas o nosso ponto de partida também era muito baixo. Se olharmos para o histórico verificamos que viemos de um valor de 27 por cento para 43 pontos percentuais. Penso que é extraordinariamente positivo.

P - O nosso tecido empresarial é maioritariamente constituído pelas PME´s.
R - No NB sentimo-nos bem com as Pequenas e Médias Empresas e não tenho a visão de endeusamento das PME´s, nem de diminuir a sua importância. Há espaço na diversificação, para todas as soluções. As nossas PME´s cada vez mais se profissionalizam, cada vez mais conseguem aceder aos mercados de uma forma mais ampla. As pequenas e médias empresas conseguem muitas vezes ter uma flexibilidade e um ajustamento que é muito típico dos portugueses.

P - São as PME´s que mais recorrem ao crédito bancário?
R - As PME´s recorrem à proximidade e ao conhecimento. Significa que querem ter alguém que as analise, que lhes dê respostas, que perceba a sua ansiedade, as suas debilidades e as suas mais valias. Nós temos a vantagem de ter essa proximidade e esse conhecimento.

P – Os níveis de poupança em Portugal são baixos?
R – Os períodos de austeridade têm várias características. Um deles é alguma contenção das famílias e a outra é alguma contenção em relação aos bens de investimento, isto é, bens de consumo duradouro em que o adiamento da necessidade pode ser assegurada de outra forma. Esta realidade concreta leva a que os números após uma crise também sejam um pouco empolados. Julgo que também aqui vamos encontrar rapidamente o equilíbrio, obviamente com os níveis de poupança de um país que ainda não cria a riqueza que todos gostaríamos e nem a distribui da melhor forma.

P – Do ponto de vista da banca e em particular do presidente do NB, a evolução da economia portuguesa é positiva nos próximos tempos?
R – Acho que a sociedade está hoje mais bem preparada para soluções de futuro, ainda que tenhamos cautelas e riscos para gerir. A abertura ao mercado internacional permite-nos ter uma visão mais otimista. Mas eu ainda tenho uma segunda análise que é também positiva: a banca está hoje em dia mais bem preparada, está muito mais sustentada, tem um nível de endividamento muito menor que lhe permite gerir os seus riscos de forma diferente. Nós hoje financiamos a actividade com a poupança nacional que possuímos, só isso faz a diferença.

P – O turismo tem sido muito importante no alavancar da nossa economia, no entanto há sempre o perigo de haver um esvaziamento neste sector mais sujeito a flutuações.
R – O turismo tem um efeito multiplicador fantástico porque há inúmeras actividades que vivem deste sector. No caso português acaba-se por tornar transacionável aquilo que não o é, o território, que, passa a ser exportado. Podem existir fenómenos de moda, mas eu noto que Portugal é um país que atrai para se visitar uma primeira vez e depois para voltar uma segunda vez. Sou optimista em relação ao grau estrutural do turismo em Portugal.

P – Disse que não é sua intenção propor uma mudança de nome do NB.
R –A notoriedade que o nome conseguiu precisa sobretudo que os valores certos lhe sejam colocados. É um desafio de quem não se esconde do seu passado e de quem acredita que fez um trabalho notável que colocou o banco novamente no mercado. Em termos internacionais o nome é conhecido apesar de ainda não termos o ‘rating’ que ambicionamos.

P – A situação dos lesados do BES ainda não está resolvida. O que é que está a ser feito?
R – Quando cheguei ao NB foi uma das minhas preocupações. Trata-se de uma questão de reputação, de prestígio. Tenho tido reuniões permanentes com a Associação de Lesados. Encontrámos solução para grande parte das séries que foram realizadas, mas temos duas para as quais tecnicamente ainda não conseguimos encontrar solução, ainda que uma delas já tenha tido um pagamento intercalar de10%. Eu próprio lidero a equipa dentro do banco para tentar encontrar uma solução, mas não é fácil juridicamente e tecnicamente. Houve quem saísse da associação dizendo que não quer repartir sacri- fícios e só aceitam a totalidade dos resultados. Esses terão de recorrer aos tribunais.

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