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Maria de Lurdes Rufino: Tibães duplica visitantes com quadro de pessoal “muito frágil”
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Maria de Lurdes Rufino: Tibães duplica visitantes com quadro de pessoal “muito frágil”

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Entrevistas

2018-10-27 às 11h00

José Paulo Silva

O Mosteiro de São Martinho de Tibães reafirma-se a cada momento como um monumento vivo e dinâmico. O número daqueles que usufruem das suas valências aumenta todos os anos. Maria de Lurdes Rufino, coordenadora do Museu do Mosteiro de S. Martinho de Tibães, releva o papel das parcerias, os resultados do serviço educativo e deixa o alerta para a fragilidade decorrente dos poucos recursos humanos disponíveis.


P – Está há quatro anos como coordenadora do Mosteiro de São Martinho de Tibães, um espaço monumental quanto ao património edificado e natural. Sente que Tibães tem vindo a ganhar mais reconhecimento no plano cultural, educativo e até turístico?
R – Eu penso que, pela importância nacional e internacional que o Mosteiro de São Martinho de Tibães tem enquanto património, é impossível que Braga não tenha consciência, o gosto e o orgulho em ter um espaço patrimonial com a qualidade de Tibães.

P – O usufruto de Tibães por parte da cidade tem vindo em crescendo?
R- Tem vindo a aumentar, mas como se diz 'santos da casa não fazem milagres' e eu também sou dessa opinião. Desde pequenos que não fomos habituados, nas escolas, a fruir os espaços museológicos, nem a tê-los como uma perspectiva enriquecedora da educação não formal. Recentemente têm-se tentado dar alguns passos nesse sentido.

P- Nos últimos anos também se verifica que os museus tornaram-se espaços mais vivos, mais presentes na sociedade com iniciativas que tentam chamar as pessoas para o seu conhecimento, afastando uma ideia soturna das unidades museológicos.
R – Eu penso que é uma preocupação primordial de quem hoje em dia está à frente deste tipo de instituições. É impossível estarmos desligados desta imensa preocupação e responsabilidade que é ter o património ao serviço da sociedade.
P – E no caso do Mosteiro de Tibães em concreto, tem-se conseguido estabelecer essa relação biunívoca com a sociedade bracarense?
R – Tem-se vindo a fazer. É um caminho de dois sentidos. Por um lado, a cidade e o concelho têm vindo a ter cada vez mais conhecimento do Mosteiro, por outro lado, nós temos tido cada vez mais a preocupação de nos relacionarmos com a comunidade.

P – Esse trabalho de aproximação à cidade deve-se muito á dinâmica do serviço educativo do Museu, mais até do que por uma dinâmica turística?
R – Sem dúvida. Eu olho sempre com alguma reserva para o turismo, isto é, o turismo interessa-nos como fonte de receita e enquanto alavanca económica da sociedade, mas não pode ser um valor 'per si' .Se o turismo nos ajudar a preservar o nosso património, a dar-lhe maior valor e servir para fruição e para aumentar o conhecimento da sociedade, acho bem. Se pelo contrário, se for apenas uma demanda económica já não considero tão interessante esse caminho.

P - O trabalho do serviço educativo tem tido reflexos no aumento do número de visitantes?
R – Desde que assumi as funções de coordenação que o programa educativo foi a minha maior preocupação, foi um centrar de todos os esforços no serviço educativo. Importa dizer – com justiça – que o Mosteiro de São Martinho de Tibães não tinha qualquer relação com a cidade, porque até 1986 era privado, ao contrário de outros museus que já existem há décadas e que, por isso, já estão muito mais presentes na memória coletiva.

P – Nos anos seguintes à aquisição pelo Estado o Mosteiro esteve em obras.
R – Sim, esteve mais de uma década e a preocupação dos responsáveis por Tibães eram as obras, era a recuperação do espaço, por isso não existiria de uma forma mais vincada a preocupação da abertura à comunidade.

P – Este trabalho de afirmação do Mosteiro junto da comunidade bracarense pode dizer-se que é um processo recente?
R – Completamente. Eu considero que é um processo recente. Daqui a 50 anos, as preocupações serão outras, porque a relação com a sociedade será muito mais sólida.

P – A ação do serviço educativo do Mosteiro de Tibães na sua interacção com a comunidade tem dado resultados? Estando quase no final do ano, tem já uma ideia de que como tem corrido 2018 nesse capítulo?
R – Quando cheguei ao Mosteiro de Tibães, eram quase 60 mil os fruidores por ano, sendo que os visitantes das nossas actividades eram pouco mais de metade. Neste momento duplicámos o número de visitantes e o de fruidores mantêm-se. Os fruidores são todas as pessoas que fruem e usufruem do Mosteiro e que não têm a ver exclusivamente com a actividade educativa ou com as propostas de programação de Tibães. A paróquia vive dentro do mosteiro e representa um grande volume de pessoas que diariamente usam aquele espaço. Todos os encargos com este movimento de pessoas é nosso (estado).

P – Um dos aspectos menos conhecido é que o Mosteiro alberga a actividade paroquial.
R – Toda a vida paroquial de Tibães existe dentro do mosteiro. A residência paroquial, a igreja, os serviços religiosos.

P – Como é que é conciliável essa acividade com a função de museu?
R – Estar à frente do museu que é o Mosteiro de São Martinho de Tibães, ou á frente de qualquer outro museu de arte sacra, é uma experiência completamente distinta, mas muito exigente, porque temos de estar permanentemente a conciliar três entendimentos e três usos muito diferenciados do mesmo espaço. O uso do Mosteiro como paróquia tem um sentido, como hospedaria/ restaurante tem outro e como museu tem de estar a supervisionar estes entendimentos: criar as melhores condições e o melhor ambiente, gerir diferentes sensibilidades e diferentes interesses, permanentemente.

P – Os Transportes Urbanos de Braga (TUB) criaram uma linha que vem até à porta do Mosteiro. A procura desta carreira levou os TUB a prolongarem o seu período de funcionamento. Um serviço que revelou ser de interesse para Tibães?
R – Tivemos uma receptividade enorme por parte dos TUB ao nosso pedido. Foi um período experimental para vermos a adesão e, depois de feita a avaliação, entendeu-se prolongar o serviço. O turismo em Braga tem aumentado consideravelmente e no Mosteiro também se tem notado, ainda que de forma menos expressiva. Há quatro anos os turistas representavam dois a três por cento dos visitantes, hoje já são dez por cento.

P - Percebemos que não é adepta de uma grande massificação turística envolvendo o Mosteiro, mas não considera que este ainda está algo desligado dos circuitos de visita da cidade.
R - Os dados disponíveis mostram que nós estamos muito bem posicionados nos melhores números de visitantes a monumentos nacionais no Norte do país. É um dado relevante, porque nós estamos localizados fora da zona urbana e a maioria dos museus encontram-se nesse perímetro. Apenas mais um aspeto: a massificação do turismo desagrada a todos, mas eu quando falava nessa situação pretendia sublinhar que muitas vezes há uma hipervalorização - mesmo no âmbito político - do turismo em detrimento dos recursos que se afectam ao património , quando é por demais evidente que é o património que sustenta grande parte do turismo.

P - No caso de Tibães , chamava há tempos a atenção para um paradoxo: aumento do número de visitantes e uma redução significativa dos recursos humanos do Mosteiro.

R - Se por um lado duplicámos o número de visitantes; por outro, diminuímos para metade os recursos humanos. As pessoas que fazem parte dos quadros do Museu são 13 neste momento.

P - O ideal seria?
R - Vinte cinco era o mínimo. Há outras funções que resultam de contratos com empresas que asseguram a segurança, a vigilância, a limpeza.

P - Na sua opinião, o que é que leva as pessoas a Tibães, sendo certo que não existe o espólio artístico que é mais convencional nos museus.
R - A minha área de formação é museologia e tenho um particular gosto e conhecimento de arte sacra. Por isso, compreendo muito bem os visitantes que, quando chegam ao Mosteiro, dão esse retorno: os corredores estão vazios onde é que estão as peças expostas? O que se passa é que se nós tivéssemos - como em outros museus - as peças todas em vitrinas, iriamos ter colecções superiores. Se eu pegasse na Igreja de Tibães e a desmantelasse, não chegavam os corredores e as salas do Mosteiro para expor as peças. Acontece que em Tibães o Museu está integrado no seu local de origem, com a leitura mais correcta e a única possível, com as peças no sítio para onde foram pensadas.

P - A igreja de Tibães e´ um património muito valioso?
R - Extraordinário. Mas o que leva as pessoas a Tibães é o Mosteiro estar impecavelmente preservado com a verdade histórica que chegou aos nossos dias e contar essa historia que reflecte a do país, que se inicia com a formação da nacionalidade, passando pela escolha de Tibães como Casa-Mãe da congregação beneditina em Portugal e no Brasil e as ligações à Europa .O património é o testemunho desta riqueza de relações,de poder e de riqueza religiosa. Há ainda a extraordinária mais valia de Tibães ter a Cerca de 43 hectares praticamente intacta

P - Voltando aos recursos humanos, são apenas quatro as pessoas que fazem a manutenção da Cerca?
R - Sim. Qualquer pessoa mais conhecedora deste tipo de trabalho percebe que o número de colaboradores é irrisório para o que há a fazer. Apenas com quatro pessoas eu não conseguia ter os jardins impecáveis. No passado, com outra capacidade orçamental, o Mosteiro estabeleceu contratos de comodato com agricultores locais, mas o projecto acabou por esmorecer e apenas ficou um, o Vicente Paulo, que trabalha para o Mosteiro e explora parcelas agrícolas. A Cerca fica muito bem cuidada.

P - Ao longo do ano, existem vários momentos de ligação com a comunidade mais próxima: vindimas, presépio movimentado, festas de S.Bento, desfolhada. Essa é também uma linha de orientação do Mosteiro?
R - Sempre foi. A relação de proximidade com a freguesia de S. Martinho de Tibães vai-se estabelecendo, às vezes como dificuldade. Existe o sentimento de que o Mosteiro é da freguesia e é preciso explicar que é do país. Durante muitas décadas, a população habituou-se a entrar e sair do Mosteiro sem qualquer restrição. Mas a relação vai sempre melhorando, até porque, em simultâneo, existe o orgulho do Mosteiro ser em Tibães. Institucionalmente, a relação com a Junta de Freguesia é óptima.

P – Tem focado a importância das parcerias no concretizar das actividades do Mosteiro, sendo que não existe um orçamento próprio e há as despesas correntes. Como é que estas questões orçamentais são resolvidas?
R – Esse é o maior desafio para quem estiver à frente de uma instituição desta natureza: os recursos. .

P – Em Tibães, já sabemos que a nível dos recursos humanos a situação não é famosa.
R – É muito frágil. Os recursos financeiros são na linha do país que não dá uma importância de maior à vida cultural. Essa atitude nacional tem reflexos no plano político. Os museus vivem sempre numa fragilidade e numa precariedade. Sendo este um diagnóstico transversal a todos os museus da rede pública, cada direcção procura, de forma activa, estabelecer o máximo possível de parcerias com as instituições à sua volta: autarquia, universidades, empresas, instituições ligadas ao sector das artes. Termos o Município como parceiro permite-nos desenvolver inúmeras actividades dentro do Mosteiro. Todas estas parcerias vão-se reflectir no enriquecimento da programação.

P – O Mosteiro tem receitas próprias?
R – As receitas das entradas, das lojas, da cedência de espaços, que vão directamente para a Direção Regional de Cultura do Norte.

P – Com o passar dos anos e mudança de políticas, entidades como o Mosteiro de Tibães foram perdendo autonomia?
R – O Mosteiro tinha uma situação mais privilegiada, porque dependia do IPPAR, que tinha capacidade de resposta orçamental, ao contrário do Instituto dos Museus e Conservação.

P – Houve uma regressão?
R – Houve e é essa regressão que agora está a ser debatida.

P – Fala-se numa municipalização destes equipamentos...
R – É uma discussão que está na ordem do dia. Está em cima da mesa a reorganização destas unidades culturais. Com que dependência, com que autonomia e com que direções irão continuar?

P – Há várias opiniões sobre a passagem de monumentos nacionais e de outras unidades culturais para a esfera das autarquias. Qual é a sua sensibilidade acerca deste debate?
R – Eu penso que os museus com a importância e com dimensão nacional como é o caso de Tibães, estão melhor se continuarem na alçada do Ministério da Cultura. Isto é, se houver um pensamento nacional para o património. Acredito que se os museus nacionais voltassem a ter autonomia esta discussão não se colocava.

P – Há muitos anos que se fala de um campo de golfe nas proximidades do Mosteiro de Tibães. É uma preocupação?
R – O projecto está todo aprovado. Eu penso que ainda não foi implementado por causa do financiamento.

P – Pode constituir, caso venha a ser materializado, uma mais valia para o Mosteiro?
R – Em determinado sentido, creio que sim. Colocam-se questões ambientais e alguma pressão urbanística que pode ter um impacto menos positivo. O movimento de pessoas provocado pelo campo de golfe terá interesse para o Mosteiro.

P – No interior do Mosteiro funciona uma hospedaria e um restaurante que foram geridos por uma congregação de religiosas que, entretanto, foi-se embora e que resultou de um acordo com a arquidiocese de Braga. Está valorizada essa valência?
R – Creio que existe um potencial enorme de exploração. Como a hospedaria é pequena - tem nove quartos - regista um movimento muito interessante. Do lado da restauração, parece-me existir claramente um subaproveitamento.

P – Enquanto historiadora, veria com algum interesse que na oferta gastronómica se fizesse a ligação com a tradição beneditina?
R - Certamente. Ter um ‘chef’ que trabalhasse receitas históricas e alguma investigação associada a hábitos alimentares de uma comunidade religiosa, mais consumidora do que autora de receituário.

P – Admite que Tibães volte a ter uma congregação monástica?
R – Em resultado da minha experiência e formação, penso que não será profícua a convivência das exigências do museu e de uma ordem religiosa. Algum dos dois tem de estar limitado. Temos boa colaboração com o abade geral dos Beneditinos em Portugal e com o Mosteiro de Singeverga as melhores relações.

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