Correio do Minho

Braga,

- +
José Maria Cardoso: "Queremos contribuir para que não haja maioria absoluta do PS"
Eurorregião tem de ser exemplo para construir uma Europa coesa, justa e solidária

José Maria Cardoso: "Queremos contribuir para que não haja maioria absoluta do PS"

Acílio Estanqueiro Rocha ganha II Prémio Sapientia

José Maria Cardoso: ´Queremos contribuir para que não haja maioria absoluta do PS´

Entrevistas

2019-09-24 às 06h00

José Paulo Silva José Paulo Silva

José Maria Cardoso lidera a lista de candidatos do Bloco de Esquerda pelo distrito de Braga às eleições legislativas de 6 de Outubro. O cabeça de lista, que almeja a eleição de dois deputados que escapou por pouco ao Bloco em 2015, considera vital evitar uma maioria absoluta do Partido Socialista.

P - Traz uma grande responsabilidade para estas eleições: substituir Pedro Soares, o único deputado eleito pelo Bloco de Esquerda (BE) pelo distrito de Braga. Há quatro anos, o BE esteve muito perto de eleger o segundo deputado. Sente essa responsabilidade?
R - Quando se assume ser cabeça de lista de uma candidatura, qualquer que seja, assume-se a responsabilidade disso mesmo. Esta assumpção de primeiro lugar na lista não é pessoal, é o resultado de um debate interno durante meses, não querendo dizer com isto que haja desresponsabilização dos outros elementos da lista. O assumir dessa responsabilidade é qualquer coisa que foi criada durante este período de discussão. Em política não se agradece, mas reconhece-se. Reconheço plenamente a importância que Pedro Soares teve na implantação do BE no distrito de Braga, pelo trabalho que desenvolveu neste mandato. É nesta linha de continuidade que queremos manter o BE.

P - Há quatro anos, o BE?quase festejou a eleição de um segundo deputado em Braga...
R - Estivemos a menos de 200 votos de eleger um segundo deputado.

P - Com a evolução política nestes quatro anos, é seguro pensar na eleição desse segundo deputado?
R - De maneira alguma. Nem pensar nisso. Há um princípio que devemos ter com uma certa humildade: deixem as pessoas votar. É uma certa ousadia criar factos sem as pessoas votarem. Compete-nos a nós passar a mensagem e criar debate e esclarecimento dos nossos pontos de vista. Os partidos têm os votos que merecem. Mas se me pergunta se temos objectivos eleitorais, obviamente que temos.

P- Pondo a questão de outra forma: se não elegerem um segundo deputado, isso pode ser uma desilusão para o BE de Braga?
R - De maneira alguma. Temos sempre altos e baixos. O BE já teve vitórias eleitorais importantíssimas, como já teve derrotas.?Nenhum resultado vai fazer esmorecer qualquer acção de luta pelos nossos valores.

P - Quais são as perspectivas do BE a nível nacional?
R - Concorremos para ter o melhor resultado.

P - E ter uma posição que evite uma maioria absoluta do PS?
R - Isso sim. Isso é um objectivo. Percebe-se que, em termos eleitorais, a Direita capitulou, não está a contar. A disputa far-se-à muito entre uma vitória anunciada do PS e a sua maioria absoluta. O que queremos contribuir, de uma forma muito afirmativa, é para que não haja uma maioria absoluta do PS. As maiorias absolutas, já vimos os seus resultados.

P - Para isso a eleição de mais um deputado do BE em Braga é um contributo?
R - Poderá ser muito importante. Com os 10% que tivemos nas últimas eleições legislativas, contribuimos decisivamente para alterar a política no nosso país. Um acordo de incidência parlamentar obrigou o PS a ter um desvio para a Esquerda. Lembro que o PS tinha inscrito no seu programa eleitoral o congelamento das pensões. O que aconteceu foi um descongelamento e um aumento significativo para pensões mais baixas.

P - Mas, para a opinião pública, isso não conta como louro do PS enquanto partido do Governo?
R - Cada um interpreta à sua maneira. Não foi o Governo, foi por este acordo. O programa do PS também não tinha qualquer aumento do salário mínimo nacional.

Salário mínimo de 650 euros e 35 horas para todos

P - O BE defende o aumento do salário mínimo nacional numa perspectiva de igualdade entre sector público e sector privado. E o resto dos direitos? Os privados poderão ter também acesso
à ADSE e a reformas mais cedo?
R - Poderá verificar-se que a Função Pública teve cortes muito efectivos com o anterior Governo, no período da troika. Se toda a gente pagou, a Função Pública pagou mais do que os restantes trabalhadores de uma forma geral. Isso não quer dizer que tenha direito a qualquer diferenciação. Somos muito defensores da igualdade de situações entre o público e o privado. Vamo-nos bater para que as 35 horas semanais sejam reguladas para o privado, para que o salário mínimo seja de 650 euros para o privado e a Função Pública. A ADSE é um caso diferente, é um serviço de apoio à doença dos servidores do Estado. Poder-se-à dizer se a ADSE deve existir ou não, se não é um sub-sistema do Serviço Nacional de Saúde. É discutível.

P - Não admite o alargamento da ADSE aos privados?
R - Não tenho dados para me certificar se é ou não viável que tal aconteça. Não ve- jo nenhum tabu sobre isso.

P - O BE diz que, na escola e na saúde, o que é público é público, o que é privado é privado.
R - Há sectores estruturantes da sociedade em que é obrigatória a presença total do Estado.?São sectores de uma definição económica e social do país.

P - Falemos do caso concreto do Hospital de Braga. O BE sempre defendeu o fim das parcerias público-privadas (PPP)?na Saúde. Os minhotos têm dado boas referências à PPP do Hospital. Isto é ideologia em cima dos interesses do país?
R - Há sectores estruturantes para a economia e para a garantia de um conjunto de direitos. Temos um Serviço Nacional de Saúde que é dos melhores do mundo. É uma criação que nos deve orgulhar. Fez agora 40 anos e essa efeméride deve ser vista como algo a engrandecer.

P - A prestação desse Serviço Nacional de Saúde não pode ser complementada com PPP?
R - Pode ser complementada, não pode é haver uma supremacia do privado em determinadas áreas. O que acontece é que esta promiscuidade entre público e privado, de uma forma geral, tem graves prejuízos para o público. Há interesses em determinado tipo de actividades. A Saúde é extremamente apetecível enquanto negócio. Já há quem diga que, a par das armas, a Saúde é o maior negócio do mundo. O que foi aprovado já em final de mandato, depois de muitos entendimentos e desentendimentos, foi uma Lei de Bases da Saúde que distingue totalmente o que é público, o que é privado e o que é social. Esta distinção tem de existir para criar correspondência a cada uma das partes. Não significa que não haja, em determinados momentos, acordos pontuais e complementariedade entre os diferentes sectores. Não é aceitável um Hospital com a dimensão e a importância do de Braga ser gerido por uma empresa particular. Quando se diz que a maior parte da população está satisfeita é preciso perceber isso. Qualquer um está satisfeito com as novas instalações. Bastou a mudança do S. Marcos para o novo Hospital para haver uma melhoria da qualidade dos cuidados que se prestam. Também é verdade que várias situações ocorreram neste período de tempo, no Hospital de Braga, resultado muito desta lógica mercantilista na Saúde. Muitos doentes foram transferidos para o Porto, porque a medicação era muito cara. Alguns medicamentos encológicos e biológicos foram retirados da lista, porque correspondiam a um valor económico muito elevado. Demasiado tempo à espera de intervenções cirúrgicas levaram a que cheques-cirurgias fossem encaminhados para hospitais do Grupo Mello, uma espécie de negócio paralelo que decorreu neste período de tempo. Há um certo preconceito na Direita de que gerir privado é melhor que gerir público. Ora, nada disto é realidade. Há boa gestão pública e boa gestão privada.

P - Sobre a nova administração do Hospital de Braga impende uma grande responsabilidade?
R - E de que maneira! Estão sobre os holofotes.

Não temos creches públicas no distrito de Braga

R - Numa visita à Escola Calouste Gulbenkian disse que o BE lutou para que existissem mais profissionais no sistema de ensino. Esta Escola estava fechada no início do ano lectivo por falta de auxiliares de acção educati-va. Disse que a responsabilidade não é do BE, que se deve ao atraso do Governo.
R - O facto de se ter aprovado não quer dizer que se resolveu o problema. Está a dar-me o caso da Escola Calouste Gulbenkian e posso dar-lhe mais exemplos. A Escola Alcaides de Faria, em Barcelos, por acaso a minha, encerrou no primeiro dia do ano lectivo. Não é possível ter um ensino de qualidade com um número tão reduzido de funcionários para tão grande quantidade de alunos. Os professores são um elemento fundamental nas escolas, mas e desprestigia-se o papel dos auxiliares de acção educativa, que têm um desempenho muito importante e cada vez mais significativo. O BE assume sempre as suas responsabilidades. Criou condições para que o aumento do número de funcionários nas escolas fosse uma realidade. Está a perceber-se que há um atraso que não tem uma explicação visível. Estão a chegar às escolas alguns funcionários em condições de aumento da precariedade, e não é isso que se defende, de maneira alguma. Em relação à Educação, nós temos um leque variado de propostas a apresentar.

P - A rede de creches públicas é uma das mais estruturais?
R - Sem dúvida. Não temos creches públicas no nosso distrito. As que existem estão ligadas às IPSS ou a privados.

P - Na opinião do BE, as creches privadas e das IPSS não são suficientes?
R - Não são suficientes, nem têm uma cobertura adequada. Esta é uma obrigação de Estado. Os sectores social e privado podem actuar, o que dizemos é que o importante é que a escola pública cubra as necessidades. A partir daí, existir outras escolas é uma opção. Uma situação curiosa, se não fosse dramática: há famílias que pagam mais pela creche da sua criança do que pela propina no ensino superior, tal é a procura e o valor exorbitante da primeira.

Exploração de lítio é uma questão em aberto

P - Questão que tem provocado muita preocupação no Norte de Portugal e, concretamente, na região minhota é a possibilidade de extracção de lítio. Este Governo dá aval político. Como é que o BE se posiciona nesta matéria?
R - Estamos a caminhar num processo de diminuição crescente da utilização dos combustíveis fósseis. Para isso têm de se criar alternativas. Ao momento, uma das alternativas são os automóveis eléctricos e isso implica a utilização do lítio. Temos de ter isso em atenção. Ou queremos uma coisa ou queremos outra. Se há um processo de descarbonização neutra até 2030, tem de se falar em alternativas. Mas é necessário a fabricação de baterias a partir do lítio? Não sei, tenho dúvidas. Há opiniões diferentes sobre isso. Fazer bateriais que não a partir do lítio é uma discussão em aberto que me parece importante fazer-se. Concretamente, quanto à exploração do lítio as nossas dúvidas estão quando isto é entregue a multinacionais, como é o caso. Para já, há licenças de prospecção, não de exploração, na área do Cruto, que alberga partes dos concelhos de Vila Verde, Barcelos e Braga. Quem vai fazer essa prospecção é uma multinacional australiana com muitos interesses nessa matéria. O que é que aconteceu noutras explorações? Falo dos caulinos, em Barcelos. Fizeram-se sem qualquer cuidado na questão ambiental, com lapidação de recursos e do espaço.

P - O BE admite a exploração com regras?
R - Não admitimos propriamente a exploração. É uma questão em aberto. Não podemos querer descarbonizar sem criar alternativas ao uso de combustíveis. Outra questão de acompanhamos de perto ao lado da população é a linha de muito alta tensão que atravessa alguns concelhos do distrito de Braga, nomeadamente o de Barcelos. Até hoje, não houve uma explicação porque se faz a linha. Sem querer ser demagogo, há sempre o princípio da precaução que se deve ter.

Perfil
58 anos de idade, professor de Geografia, com pós-graduação em Sociologia Portuguesa Contemporânea, é membro fundador do Bloco de Esquerda.
Concorreu como candidato dos bloquistas à Câmara e à Assembleia Municipal de Barcelos, de onde é natural e onde reside. Nas legislativas de 2005, foi também o primeiro candidato da lista do BE no
distrito de Braga. É dirigente do Sindicato dos Professores do Norte.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.