Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Isabel Silva: "Falta uma estratégia nacional para o Património"
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Entrevistas

2018-06-18 às 06h00

Rui Alberto Sequeira

Isabel Silva é a directora dos Museus D. Diogo de Sousa e dos Biscainhos. No ano em que o Museu D. Diogo de Sousa faz um século, convida na entrevista à Antena Minho e ao Correio do Minho, a reflectir sobre a gestão do património. Após de ter assumido funções idênticas no Museu dos Biscainhos, assume ser necessário dar mais brilho ao que considera ser uma pérola de Braga.

P – É directora do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa desde 1990. Olhando para o passado, nem sempre fácil deste espaço de cultura e de património, detemo-nos no presente para compreender o que representa este primeiro século de existência do Museu, que se assinala este ano.
R – É um século de vida com muitas atribulações e com muitos desafios. Percebemos claramente que tem valido a pena o esforço realizado. Estamos a deixar à cidade de Braga um legado que ela não tinha, uma possibilidade de se encontrar com a sua própria memória. Na essência, o Museu é isso mesmo, a explicação do que nós somos no presente. Esta semana na iniciativa “As sete maravilhas gastronómicas” sublinhei a centralidade que Braga tem há milénios de história e que nos permitiu a relação com o império romano e hoje com a Europa e com o Mundo.

P – Os bracarenses têm-se apercebido da importância do património histórico e cultural que o Museu tem?
R – A crise económica que a Europa atravessou nestes últimos anos trouxe a ideia da identidade do país e da atractividade das cidades. Nessa medida, as pessoas começaram a olhar para o seu património e para a sua matriz cultural como um factor muito mais de desenvolvimento e potenciador de outras actividades que giram à volta do património.

P – A ligação da comunidade ao Museu tem-se fortalecido nos últimos anos?
R – Eu diria que hoje o Museu é um lugar central de Braga e isso orgulha-nos muito. A cidade “apropriou-se” daquele equipamento e faz dele um sítio “seu” nos actos mais banais do quotidiano - desde ir almoçar, lanchar, ir à cafetaria, sem compromisso - mas também como sala de visitas da cidade. Acolhemos muitos congresso de natureza científica, económica e social.

P – O ano passado tiveram 75 mil visitantes.
R – Visitantes e utilizadores. Significa que há nesse universo uma percentagem significativa de pessoas da cidade que utilizam o Museu em permanência. É esse na minha opinião o grande contributo que os museus podem dar à sociedade: tornarem-se espaços de identidade e de encontro. Já passou o tempo em que se entrava nos museus quase em bico de pés. Hoje estão no quotidiano das pessoas pelos mais diversos motivos. Os museus são parceiros nas dinâmicas das cidades.

P – Recentemente o Museu D. Diogo de Sousa acolheu também dez moedas romanas resgatadas em Espanha pela Polícia Judiciária e que tinham sido roubadas de uma confraria religiosa em Alijó. Vão ficar também em exposição?
R- São moedas em prata muito bem conservadas. Uma dessas moedas – um denário – tinha sido cunhada na Península Ibérica. É uma moeda rara. Foram todas inventariadas e tratadas. Ainda não se encontram em exposição, mas vão estar. O Museu tem um núcleo relacionado com a circulação monetária no Norte e na Península.

P – O século de actividade do Museu não devia ser assinalado de uma forma mais visível para a Braga e para a região?
R – Nós talvez gostássemos de ter mais dinheiro e fazer um pouco mais de “festa”, mas a verdade é que na essência – e é isso que importa – o Museu está muito vivo na comunidade. Essa relação com Braga é transversal a toda a existência do Museu. Não nos podemos esquecer que na revitalização do Museu D. Diogo de Sousa esteve envolvida a sociedade civil que defendeu a ideia da preservação e da defesa do seu património e da sua identidade.

P – Existe essa referência de centralidade e de relação com o mundo antigo e moderno, no Museu?
R – Albergamos a colecção - porventura a mais antiga, a mais emblemática para nós - dos “miliários romanos”. Foi toda ela reunida por D. Diogo de Sousa. Esta colecção é muito a imagem do paradigma do que foi Braga. Estávamos no extremo ocidental do império romano onde já não tínhamos contacto com o centro administrativo, cultural, económico e político, mas sempre tivemos a ânsia de fazer parte do mundo cheio de potencialidades. Estas vias levaram-nos ao extremo oposto do império romano e trouxeram tudo aquilo que veio favorecer uma elite local que beneficiou desse contacto. A nossa colecção de “miliários” para além de ser numerosa - o que é raro na Europa e nos museus espalhados pelo mundo – exprime uma relação de “clientelismo” por parte das nossas elites com quem detinha o poder e que viam nessa relação um factor de afirmação. Esta marca distintiva dá uma visão daquilo que nós somos na Europa e a verdade é que continuamos a ter um cunho muito próprio por estarmos na periferia. É interessante ver o Museu e as suas colecções nessa interacção entre o passado e o que somos hoje.

P - A ausência de renovação tem a ver com uma lacuna na formação de técnicos, com os salários serem pouco convidativos ou com estes dois factores?
R - Tem a ver com a falta de estratégia do Estado para a cultura de uma maneira geral, está é a verdade e a nossa circunstância. O Estado nunca teve uma estratégia estável e continuada para o seu património, a ponto de nós hoje nos confrontarmos com situações de absoluta fragilidade daquilo que, porventura, é a nossa maior riqueza. É uma riqueza que se vai permanentemente transmutando e adaptando á realidade dos tempos e cuja matriz é valorizada de forma, também ela, permanente. Como nunca tivemos uma estratégia estamos confrontados com décadas de ausência de intervenção e de valorização do património. O Museu tem um aspecto decadente quando se olha para ele. Uma das nossas ambições é , pelo menos, “lavar-lhe a cara” e resolver alguns problemas infraestruturais que decorrem dos anos de utilização. O Museu dos Biscainhos é uma pérola que está numa fragilidade absoluta porque há 40 anos que não tem obras de fundo.
P – Como é que se pode contornar a perda de técnicos especializados para trabalhar restauro e preservação do património?
R – Podia-se contornar com uma estratégia do Estado. A Função Publica poderá estar saturada em algumas áreas, mas não nestas de conhecimento específico. No sector do património tem havido perda de capacidade de intervenção. Temos vários jovens a trabalhar connosco e muito competentes, o problema está em integrar essas pessoas e conseguir afectá-las a um laboratório e ao Museu.

P - Quando refere essa ausência de estratégia do Estado para a valorização e preservação do património, entende que o poder local poderia ter uma palavra a dizer?
R - O grande factor de desenvolvimento e de superação de falta de recursos pode estar numa gestão de proximidade e não apenas numa transferência de competências e de dinheiro. Nós temos de caminhar para novos modelos de gestão mais flexíveis que envolvam a sociedade no seu todo mediante contrapartidas.

P - Parcerias com o sector privado, por exemplo?
R - Existem diversas empresas que têm uma preocupação de intervenção social na cidade. Temos de ter a capacidade de as trazer para o domínio do património no sentido de valorizar aquilo que é a nossa riqueza comum. Se um de vocês me quiser dar um donativo para o Museu, eu não posso aceitar e isto é uma perversidade. O produto do nosso trabalho no Museu, por exemplo a cedência de espaços para a realização de eventos, vai para o Ministério das Finanças. Mesmo que nós nos desdobrássemos a fazer serões para angariar verbas não veríamos a “sombra” desse dinheiro.

P - Daí ser necessária a gestão de proximidade que referiu.
R - Tem de haver esse tipo de gestão. A proximidade é importante, conhecem-se as debilidades e as fraquezas, mas sobretudo a gestão de proximidade pode trazer novos modelos de gestão e é isso que nós temos de ousar fazer diferente. Não chega transferir dinheiro e depois continuarmos a funcionar de modo espartilhado.

P - As autarquias podem liderar esse processo?
R - Eu acho que sim. Em Mérida existe um consórcio para o qual todos revertem dinheiro. São diversas entidades que patrocinam a manutenção, a valorização e as dinâmicas do património, mas têm uma autonomia de gestão que permite que uma empresa invista o seu dinheiro com contrapartidas.

P – A transferência de competências da Administração Central para as Câmaras nesta área obrigará a um enquadramento legal que estabeleça o mesmo critério de actuação, não ficando ao livre arbítrio de cada Município a forma de melhor gerir o património arqueológico?
R – Esse é um grande desafio de mudança. Devemos gerir a cidade cada vez mais como um todo. Um Município tem de ser dinamizador de tudo o que é equipamento instalado na cidade, independentemente das suas tutelas, porque é à autarquia que compete, em primeira linha, a promoção da identidade e da actratividade da cidade. Não se pode dizer o que é “nosso” e o que é dos “outros”. O outro grande desafio é perceber que qualquer equipamento cultural tem de se alinhar por aquilo que é a especificidade de intervenção quer nacional, quer internacional. Os museus têm normas especificas e identidades próprias, têm funções e uma missão que é única: cuidar e saber promover património e isto não pode ser feito de qualquer maneira, senão qualquer dia temos mais um sitio onde se fazem verbenas e se assam sardinhas.

P – Um turista que chegue a Braga não tem um ingresso comum para visitar os museus que aqui existem?
R - Não faz sentido efectivamente. Do ponto de vista administrativo estamos todos muito condicionados.

P - Em relação há necessidade de alguma reabilitação do espaço físico do Museu D. Diogo de Sousa vê a possibilidade de tal vir a acontecer brevemente?
R - Neste momento estamos a trabalhar numa candidatura para a limpeza e a reparação de alguns problemas infraestruturais no edifício. Esperamos que ao longo de este ano seja possível fazer uma qualificação do espaço. Não são processo fáceis, nem garantidos.

P – A dra. Isabel Silva é desde 2013 também a directora do Museu dos Biscainhos integrado no palácio do mesmo nome. Um Museu com caraterísticas bem diferentes na função e na época que retrata. Como é que assume esse desafio?
R – Assumi o desafio não por espontânea e livre vontade, mas com o sentido de muita responsabilidade perante uma medida administrativa, que, decorreu da fusão da direcção dos dois museus. A especialização que fui adquirindo não permite ter um conhecimento intrínseco tão aprofundado do período histórico a que se refere o Museu dos Biscainhos. Não obstante estas circunstâncias assumi a responsabilidade por uma questão de consciência do valor patrimonial dos Biscainhos e contribuir para que o museu esteja integrado nas dinâmicas da cidade. O Museu dos Biscainhos é uma pérola para Braga. Está situado num ponto estratégico, mostra uma grande capacidade de atractividade por estar localizado no centro e por se encontrar nos circuitos que os turistas fazem pela cidade.

P – Os Biscainhos são um “diamante” que precisa de mais brilho?
R – O Museu dos Biscainhos tem características excepcionais e que são paradigmáticas daquilo que é a casa senhorial desta zona do Minho e do Norte. Simboliza o papel da aristocracia fundiária nos séculos XVII e XVIII e está num imenso estado de fragilidade. Não está pior porque quem ali trabalha vai fazendo algumas reparações muito pontuais. Quando chega o inverno é uma angústia.

P – Há alguma candidatura em perspectiva para obras nos Biscainhos?
R – Tenho insistido bastante com a Direcção Regional de Cultura do Norte, mas infelizmente ainda não foi possível. Era necessária uma intervenção de qualificação e de valorização do jardim do Palácio, do circuito interno de visitas. O jardim é de acesso livre e tem características únicas em termos de espécies e preserva o traçado do século XVIII.

P – Os Biscainhos são actualmente propriedade da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Cávado. As autarquias que fazem parte da CIM não poderiam ser elas a avançar para esse investimento?
R- A propriedade efectiva do imóvel é da CIM, a gestão é do Ministério da Cultura. Esta situação cria alguma entropia.

P – Há uma parte do palácio que não é usada pelo Museu.
R – Essa é uma outra luta da qual ainda não desistimos. A cidade irá perceber quando começar a entrar na outra ala do Museu, o que poderá acontecer este ano por ocasião da “Braga Barroca”. De facto, aquele edifício foi cedido à Assembleia Distrital de Braga para as suas reuniões. A Assembleia foi extinta e por circunstâncias várias o edifício não foi devolvido à gestão da tutela da Cultura. Para a manutenção daquela ala do palácio foi ali instalada uma associação de reformados dos Transportes Urbanos de Braga. Já tentámos que fosse mais célere a devolução do espaço ao Museu, mas porque não há espaços na cidade para alojar essa associação, a devolução ainda não foi possível. A verdade é que esta é uma situação que não é justa e a cidade está a ser prejudicada porque lhe está a ser negado o usufruto daquilo que é seu.

P – A propriedade dos Biscainhos é da CIM do Cávado a gestão é do MC. Há alguma perspectiva de clarificação da situação?
R – Há a possibilidade da permuta de edifícios que estão registados no património do Estado - entre eles as Convertidas - com o Museu dos Biscainhos, no sentido de este ser integrado no património do Estado e os outros edifícios passarem para a propriedade da CIM do Cávado. A intenção é abrir, depois, uma janela de oportunidades de candidaturas a apoios financeiros para projectos de valorização dos imóveis que vão ser permutados.

P – O Museu D. Diogo de Sousa não é um museu com peças muito vistosas. A colecção dos marcos miliários é a mais emblemática, mas não será para um público pouco informado sobre a história. É mais um desafio para o Museu se promover junto de turistas e de outro tipo de visitantes?
R – É mais um desafio, sem dúvida. Nós tivemos uma doação que tencionamos expor até ao final deste ano constituída por peças de um “calibre” artístico superior às nossas. São as grandes esculturas, os grandes vasos gregos, aquilo com que normalmente as pessoas se identificam quando pensam no mundo clássico do Mediterrâneo, são as peças de arte.

P- Como é que essa doação acontece?
R – Foi um casal alemão, que vive em Setúbal, ligado à arte, ao património e que durante toda a sua vida organizaram uma colecção fundamentalmente de objectos arqueológicos que foram adquirindo. O casal tem já uma certa idade e por circunstâncias de vida queriam doar as peças a um museu que pudesse cuidar delas e que as colocasse para exposição. Em Portugal o Museu D. Diogo de Sousa surgiu como o único com condições, relacionadas com a natureza das peças de arte, para acolher o acervo. Depois de uma visita a Braga e de estabelecer contacto connosco, procedeu - se à doação das cerca de 200 peças, a maioria de grande porte, que vão ter um espaço no Museu. Esperamos até ao final deste ano abrir esse núcleo expositivo permanente e assim ter em catálogo as tais obras de arte que todos gostamos de apreciar.

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