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Braga, segunda-feira

Fé e devoção continuam a alimentar tradição multissecular do Banho Santo
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Fé e devoção continuam a alimentar tradição multissecular do Banho Santo

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Cávado

2018-08-25 às 06h00

Paula Maia

São Bartolomeu do Mar viveu ontem o dia alto da romaria. O apóstolo e mártir protector das crianças continua a levar a esta freguesia milhares de fiéis que, através do Banho Santo e da oferta da galinha preta, procuram respostas aos seus problemas.

As primeiras horas do dia deixavam antever que a Romaria de São Bartolomeu, em Esposende, mantém bem viva a sua identidade, apesar de ser uma tradição multissecular. É a fé e devoção dos fiéis que mantém vivo este legado que tem passado de geração em geração. Hoje são muitos os avós que acompanham os seus netos depois de, há vários anos, terem entregue as suas preces nas mãos do Santo protector para cuidar dos seus filhos.
O tradicional Banho Santo e a oferta do galo negro ao Santo, - que se cumpriram ontem, dia alto deste romaria - continuam a levar milhares de pessoas a São Bartolomeu do Mar, Esposende, em busca de auxílio divino para os problemas terrestres.

O Apóstolo e Mártir S. Bartolomeu é protector das crianças sendo invocado por quem tem problemas ligados à fala e à gaguez, à gota, epilepsia e a todo o tipo de medos e fobias.
Assim, a promessa cumpre-se fazendo os dois ritos: dar três voltas à igreja paroquial com uma galinha preta ao colo, passando também três vezes por debaixo do andor do Santo. No final, o galo é oferecido ao padroeiro. Depois, ruma-se à praia para tomar o Banho Santo. No areal, encontram-se religiosamente, todos os anos, algumas pessoas que se encarregam, a troco de cinco euros, de dar banho aos mais novos. Mas, não é um banho qualquer. Reza a tradição que o mergulho deve ser feito em número ímpar: três, cinco, sete ou nove. Dada a temperatura da água, o habitual é as crianças furarem as ondas apenas por três vezes.

“Os meus filhos têm medo de tudo. Pode ser que o Banho Santo os ajude”, diz Andreia Afonso que ontem confiou aos seus rebentos a São Bartolomeu para o Banho Santo. Enquanto que para o mais velho este é já o terceiro banho, para o mais novo, com apenas dois anos, esta é uma estreia. “Não os tirou de vez, mas noto que o meu filho mais velho perdeu um pouca dos temos que tinha”, justifica Andreia, da Póvoa de Varzim, que cumpre esta tradição todos os anos. “Até faltei ao trabalho este ano”, continua.

E foi por causa dos medos que Sónia e Eugénio, de Guimarães, decidiram trazer o seu filho, de dois anos, ao Banho?Santo. “Qualquer coisa lhe faz medo. Tenho fé que este banho o vá ajudar”, afirma Sónia.
Emigrante em França, esta é a primeira vez que Júlio traz o seu filho, de cinco anos, para o Banho?Santo. Movido pela fé, procura neste ritual a esperança que possibilite ao seu filho falar melhor. “O meu filho não fala bem. Por isso, venho pedir ajuda ao santo”, diz emocionado.
“Foi a minha família que me falou deste santo. A minha avó faz criação de galinha e, como nasceu uma galinha preta achei que era um sinal do destino para vir cá”, argumenta este vianense de gema.
E foi pelas mãos de José - mais conhecido na localidade por José Pulgas - que grande parte destas crianças cumpriram este ritual antigo. Já assistiu ao que chama de alguns “milagres”. Mas teme que os banheiros desapareçam por falta de interesse dos mais novos em dar continuidade a esta tradição.

Galinha preta serve também para ‘afugentar’ o diabo

No dia em que o ‘diabo anda à solta’, em S. Bartolomeu do Mar a ‘expurgação dos males’ inicia, antes de mais, com o aluguer de uma galinha preta que é passeada debaixo do braço das crianças que, acompanhadas pelos familiares, dão três voltas à capela de S. Bartolomeu. Posteriormente, entram no templo e voltam a passar por debaixo do andor do santo.
As galinhas são posteriormente oferecidas e colocadas num galinheiro ao lado da igreja para depois serem leiloadas. O montante arrecadado reverte para as Festas de S. Bartolomeu.
O preço do aluguer - 10 euros - tem-se mantido nos últimos anos. Assim como a fé de quem pratica este ritual.

José Fernandes, membro da comissão de Festas de S. Bartolomeu, esteve, este ano, responsável pelo aluguer. É junto à igreja que os devotos deixam as galinhas que trazem de casa e que, depois de cumprir o ritual, as oferecem ao Padroeiro. Servirão, posteriormente, para alugar a quem não tenha possibilidade de trazer de casa. E, o preço não serve de impeditivo para cumprir a tradição.
“Em anos anteriores o preço era mais baixo e as pessoas deixavam sempre mais dinheiro do que o pedido. Por isso, até para facilitar os trocos, arredondamos para os 10 euros”, diz José Fernandes, que integra a comissão há três anos. Para o responsável é a fé e a devoção que tem mantido uma cariz singular desta romaria que, volvidos pelo menos três séculos, continua a atrair milhares de fiéis a esta freguesia do concelho de Esposende.

Depois de ter intercedido junto de S. Bartolomeu pelos seus filhos para que lhes “curar” os medos, Maria acompanha hoje o seu neto no mesmo ritual. “Tenho fé em S. Bartolomeu que nunca me deixou mal”, diz enquanto tratava do aluguer da galinha preta que a criança haveria de levar nas três voltas ao redor da igreja.
Apesar de considerar o aluguer do animal “um pouco caro’, encara-o como “uma esmola” para o Santo.

Este é o segundo ano que Lia Jorge traz o seu filho à romaria de S. Bartolomeu. “O meu filho tem epilepsia e venho pedir ajuda a este santo padroeiro”, diz a jovem mãe natural de Montalegre, mas actualmente a residir em Braga.
Quem visita a romaria de S. Bartolomeu por estes dias percebe que, apesar da sua longevidade, consegue hoje atrair fiéis de todas as idades, assumindo uma grande importância no contexto cultural e religioso da região. Tanto, que a Câmara Municipal de Esposende efectivou, em 2017, a candidatura da Romaria de S. Bartolomeu do Mar e Banho Santo a Património Cultural Imaterial Nacional.
O dossier com o pedido de inscrição na Lista Nacional do Património Imaterial deu entrada no Museu Nacional de Etnologia em Junho do ano passado. O pedido está a ser alvo de apreciação por parte de várias entidades, prevendo-se que o processo demore alguns meses.

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