Correio do Minho

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ANTÓNIO CARDOSO: Vieira do minho aposta em turismo associado ao desporto
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ANTÓNIO CARDOSO: Vieira do minho aposta em turismo associado ao desporto

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Entrevistas

2017-12-23 às 06h00

José Paulo Silva

ANTÓNIO CARDOSO, reeleito presidente da Câmara Municipal de Vieira do Minho, define a floresta, a agricultura e o turismo como áreas estratégicas de desenvolvimento do concelho. Em entrevista ao Correio do Minho e Rádio Antena Minho, o edil assume que o Município vai continuar a promover políticas de captação de investimento e criação de emprego. Um novo Centro de Saúde é apontado como investimento prioritário num concelho que se quer afirmar como destino turístico associado ao desporto .

P - Em 2013, venceu a Câmara Municipal de Vieira do Minho com quatro vereadores contra três do Partido Socialista. Desde vez, conseguiu uma maio- ria mais reforçada: cinco vereadores contra dois. Quebrou uma alternância política no Município de Vieira do Minho. Isso vem dar estabilidade ao trabalho autárquico?
R - Os resultados eleitorais foram motivo de grande satisfação e orgulho. Depois de quatro anos de trabalho intenso, os resultados foram surgindo. Todos os compromissos que assumi com os vieirenses em 2013 foram realizados. O povo vieirense soube reconhecer o trabalho e a nossa proximidade. Orgulha-nos muito os cerca de 63% de votação na coligação PSD/ /CDS-PP, passando de uma diferença de 470 para cerca de três mil votos. Isso traz-nos uma responsabilidade política acrescida.
P - E quebrou a tal alternância. Há quatro anos, queixava-se de uma certa instabilidade.
R - Quatro anos é muito pouco tempo para mostrar trabalho e criar sustentabilidade nas políticas. Seria frustrante, ao fim de quatro anos, voltar a ceder para que outros viessem ou não fazer aquilo que é necessário para o desenvolvimento do concelho. Os últimos actos eleitorais foram sempre muito renhidos. Há quatro anos ganhei por 470 votos, em 2009 o PS venceu com 11 votos de diferença.

P - Esta mudança de posicionamento do eleitorado vieirense deveu-se a quê?
R - Fizemos uma gestão política, mas também uma gestão técnica rigorosa, criteriosa e muito focada nos compromissos. Cumprimos tudo o que prometemos c. Aliás, ainda fomos além daquilo que prometemos, desde logo na redução da dívida. Reduzimos a dívida em mais de oito milhões de euros. Em 2013, quando assumimos funções, o Município de Vieira do Minho era o 33º mais endividado do país.

P - Há quatro anos tinham 20 milhões de euros de dívidas...
R - Neste momento, a dívida da Câmara Municipal e da empresa Vieira-Cultura e Turismo não chega a 12 milhões de euros. A redução em mais de oito milhões da dívida municipal permitirá a implementação de um conjunto de medidas importantes no decorrer dos próximos quatro anos

P - Foi a redução possível?
R - A possível, fruto de um trabalho criterioso, mas acima de tudo com o conhecimento que nós tínhamos. Atenção que eu e o vereador que está com a área do desenvolvimento económico e financeiro, éramos quadros da autarquia há mais de 30 anos. Este acumular de experiência e de conhecimento das necessidades levou a que conseguíssemos mais facilmente atingir os objectivos e as metas a que nos propusemos. Assumimos as áreas da floresta, da agricultura e do turismo como prioridades de desenvolvimento do concelho, que alavancámos para a criação de emprego. Tínhamos como objectivo criar mais 450 postos de trabalho no Município de Vieira do Minho e conseguimos.

P - Mas onde se criou mais emprego foi na área dos serviços, com a instalação de dois ‘call centers’. Este foi um trunfo que já surgiu depois da sua eleição há quatro anos?
R - Já anteriormente havia contactos com Armando Pereira, co-fundador do grupo Altice, que me garantiu trazer para o concelho de Vieira do Minho um grande investimento na área das telecomunicações. Esta foi uma das áreas de criação de emprego, mas não foi a única. Por exemplo, conseguimos vender todos os lotes do parque industrial na freguesia de Tabuaços.

Também na área do turismo. Posso dizer que temos neste momento mais de 170 casas de turismo rural, de turismo de habitação e de alojamento local. São inúmeros os pedidos de criação de unidades de alojamento. Ainda há dias um investidor veio ter comigo para instalar 18 ‘bungalows’. Um conhecido jogador de futebol também quer construir 30 ‘bungalows’ na zona da Caniçada. A oferta de espaços de turismo rural e de alojamento local é muito importante para o nosso concelho. A área do turismo vai alavancar todas as outras. Uma das nossas prioridades era inverter a desertificação e envelhecimento do concelho.

P - E têm conseguido isso?
R - Apesar de o último recenseamento eleitoral registar cerca de 13 mil habitantes em Vieira do Minho, só os eleitores inscritos nas últimas eleições autárquicas são cerca de 15 mil.

P - Os investimentos da Altice e da PT têm atraído população?
R - No ‘call center’ da Altice, cerca de 80 % dos trabalhadores são de Vieira do Minho. No ‘call center’ da PT, os trabalhadores residentes em Vieira do Minho são mais de 90%. No ‘call center’ da Altice, em que o domínio da língua é o francês, há muitos ex-emigrantes que regressaram.

P - Acredita que este tipo de emprego se pode manter durante os próximos anos?
R - Temos contratos de cinco anos para os ‘call center’. Vivemos uma revolução tecnológica tão rápida e uma globalização que não nos permitem prever evoluções muito longínquas. Enquanto o investidor Armando Pereira gostar de Vieira do Minho como gosta e enquanto for acarinhado pelo Município, dará prioridade ao nosso território. Isso é motivo de alguma segurança para nós. Temos fé que os ‘call center’ em Vieira do Minho estão para durar e para incrementar.

P - Há quatro anos, manifestou interesse em ter en Vieira do Minho um campo de golfe, um hotel e uma etapa do Rally de Portugal.
R - A etapa do Rally de Portugal está consolidada. Estou convencido de que enquanto o Rally se mantiver no Norte de Portugal, Vieira do Minho será um dos troços a manter. Atrevo-me a dizer que este é o evento desportivo de maior expressão em todo o país. São 128 milhões de euros de retorno financeiro para o país. Claro está que Vieira do Minho é contemplado com algum desse dinheiro. O investimento da autarquia não chega a 50 mil euros, entre financiamento directo e apoio logístico. É importante que se mantenha esse apoio.

P - O campo de golfe será uma oferta diferenciadora, uma vez que não há muitos na região Norte. Há investidores interessados?
R - Concerteza que sim. Posso dizer queVieira do Minho tem grandes condições naturais para a prática do golfe, como possui quatro albufeiras, uma das quais totalmente no nosso território, a do Ermal. Para a zona envolvente desta albufeira existem dois estudos para o campo de golfe de 18 buracos. Estou convencido de que um deles há-de surgir.

P - O que é que o está a impedir?
R - Numa fase inicial foi a questão financeira, numa fase subsequente foram os planos de ordenamento. Precisamos de acabar com alguma burocracia. Atenda-se que o nosso território é multiparcelar e quando há necessidade de negociar 80 a 100 hectares para um campo de golfe é preciso falar com muitos proprietários. Não posso adiantar muito mais, porque há negociações em curso, mas estou muito esperançado de que, antes de deixar os destinos do concelho de Vieira do Minho, teremos um campo de golfe.

P - Já está a pensar num terceiro mandato?
R - Queria muito que o campo de golfe fosse concretizado neste mandato. Tudo farei para que tal aconteça. Não identifico esse investimento no meu programa eleitoral, sabendo que ele não depende exclusivamente da nossa vontade.

P - Na barragem do Ermal há alguns estruturas de lazer. Há quatro anos falava da necessidade de relançar essas valências turísticas...
R - A empresa municipal Vieira-Cultura e Turismo foi reactivada e está a fazer um excelente trabalho. Estamos a melhorar as condições junto à albufeira do Ermal, nomeadamente as duas praias fluviais, o equipamento de teleski e os bares de apoio. Temos outros projectos sujeitos a candidaturas. Se eles forem aprovados, a zona do Ermal será revitalizada. Já adquirimos um terreno de 3 500 m2 para ampliar o espaço de estacionamento. Queremos também criar uma pista e uma escola de canoagem no Ermal, dar continuidade à ciclovia até ao lugar das Cerdeirinhas e construir uma praia fluvial no Parque dos Moinhos
Também junto ao nosso parque de campismo, em Vieira do Minho, estamos a negociar terrenos para um ‘pich and putt’, uma modalidade de iniciação ao golfe. Vamos fazer um centro de BTT. Por isso é que realizámos o ‘Cabreira Challenge’. Atrevo-me a dizer que temos na freguesia de Mosteiro a melhor pista de motocross do país. Em 2018 vamos desenvolver essa actividade em dois dias. Também tivemos este ano uma prova de triatlo. Temos de associar à nossa oferta turística os eventos desportivos. Há actualmente muitas pessoas que fazem turismo com a componente desportiva associada.

P - Vieira do Minho está a assumir-secomo um concelho muito ligado ao desporto?
R - Sim. Queremos que o nosso turismo seja associado ao desporto, porque dessa forma vai ter muitos mais aderentes.

P - Que outras prioridades tem no plano de actividades para 2018?
R - Reforçaremos o investimento nas estradas municipais, iniciado em 2017, bem como no alargamento das redes de água e saneamento. O arranjo e a requalificação urbana fazem também parte do nosso plano de investimento. Na área da Cultura e Associativismo, requalificar o edifício da antiga Casa do Povo. Outras propostas são a elaboração de candidatura para construção de um canil. Continuaremos a apoiar os agricultores através do pagamento de taxas de sanidade animal e o apoio na legalização das explorações.

P - O orçamento da Câmara Municipal de Vieira do Minho para 2018 é de 16 milhões de euros. Que peso têm os fundos europeus?
R - Muito pouco. Temos um orçamento realista. Posso dizer que os nossos orçamentos, desde que assumi funções, ultrapassam sempre uma taxa de execução superior a 80 %. Posso dizer que o meu antecessor, no mandato anterior ao meu, chegou a aprovar um orçamento de 27 milhões, totalmente irrealista para um concelho da dimensão de Vieira do Minho. Nós fazemos um orçamento realista, a contar com as nossas verbas e com as transferências da administração central e, aqui ou ali, quando temos a certeza da aprovação de financiamento de um ou outro projecto. Temos um projecto financiado em fase inicial de desenvolvimento de ajuda ao empreendedorismo, ao auto emprego e ao desenvolvimento de ideias de negócio, no valor de dois milhões de euros, que vai ser desenvolvido em três anos. Temos o projecto de requalificação da Escola Básica e Secundária Vieira de Araújo, de três milhões de euros, revertido em parte neste orçamento de 2018.

P - E o Centro de Saúde?
R - Temos incluída verba para a aquisição do terreno. Temos duas ou três opções para o Ministério da Saúde poder construir um Centro de Saúde de raiz no nosso concelho.

P -Isso é prioritário?
R - Sim, a requalificação da Escola e a construção do novo Centro de Saúde são prioritárias.

P - Até para a fixação de pessoas no concelho como desejam.
R - Exacto. São obras da responsabilidade da administração central. Com o Ministério da Educação já temos um protocolo em que a obra é financiada a 85 %, por fundos comunitários, na qual a Câmara Municipal de Vieira do Minho assume 7, 5 % da parte não financiada. Apesar de ser um equipamento do Estado, tudo fasremos para acelerar a obra que é muito importante para alunos, professores e outros profissionais da Educação. É precisa a recuperação daquele edifício que é antigo e obsoleto, ainda com coberturas de fibrocimento. Fruto desse acordo, vamos iniciar a obra em 2018 e concluí-la, no máximo, no espaço de ano e meio. Assumimos 225 mil euros de encargos financeiros.

P - E para o novo Centro de Saúde perspectiva a criação de novas valências? Vieira do Minho é um dos concelhos que, em termos de socorro, possui viaturas médicas de emergência e reanimação (VMER).
R - O actual Centro de Saúde está num edifício com cerca de 30 anos, desenvolvido em quatro pisos, contra o que as normas de acessibilidade e mobilidade aconselham. O Centro de Saúde tornou-se pouco funcional, com espaços de circulação muito reduzidos. Precisamos urgentemente de um novo. A própria Administração Regional de Saúde do Norte recohe- ceu que, neste momento, Vieira do Minho é uma prioridade em termos de novos centros de saúde, até porque o concelho tem duas extensões de saúde, em Rossas e Ruivães, que têm boas condições. Só precisamos agora de um bom Centro de Saúde de raiz, funcional para os utentes e os profissionais de saúde. Tudo faremos para isso seja uma realidade, desde logo disponibilizando o terreno de forma gratuita e estaremos na disponibilidade de realizar os projectos de arquitectura e especialidades. Eventualmente, poderemos assumir o actual edifício com alguma contrapartida. Já fizemos chegar uma nota ao Ministério da Saúde da nossa disponibilidade em ceder o terreno. De facto, Vieira do Minho precisa urgentemente de um novo Centro de Saúde.

P - A floresta é um activo importante no concelho de Vieira do Minho. Anunciou a intenção de criar uma bolsa de terras...
R - E criámos. Com pouca adesão, mas criámos.

P - Há potencial para ser explorado?
R - Cada vez mais. O que aconteceu no país deve levar à reflexão das autoridades nacionais e locais. Pensar aquilo que já foi uma das grandes riquezas nacionais e do concelho de Vieira do Minho. Somos um concelho com cerca de 220 km2 e será talvez o concelho com mais área florestal do distrito, que necessita, urgentemente, de políticas para a floresta. O Município, além dos 80 mil euros anuais que damos aos Bombeiros Voluntários de Vieira do Minho, tem feito tudo em termos de chamadas de atenção da administração central no sentido de para dar outra dinâmica à nossa floresta.

P - A gestão das equipas de sapadores florestais provocou alguma polémica entre a Câmara Municipal e a entidade gestora...
R - Sim, a Associação de Defesa da Floresta do Minho (ADEFM) não estava a conseguir dar resposta de boa gestão: os equipamentos estavam a ficar ultrapassados e sem reparação, os pagamentos iam-se atrasando sucessivamente, apesar de a autarquia comparticipar 50 % dessa equipa de sapadores. Os cinco funcionários vieram à Câmara em Março preocupados com os salários em atraso. Disse-lhes que tínhamos os pagamentos em dia e que iríamos fazer a primeira transferência de 2017. Eles ficaram com receio que, ao fazê-lo, a equipa que geria não lhes pagasse os salários em atraso. Concertámos então que só iríamos fazer a transferência quando tivéssemos a certeza que a mesma seria para pagar vencimentos. A equipa da ADEFM reconheceu a dificuldade que estava em gerir essa equipa de sapadores e acordámos passar essa gestão para a Associação para o Ordenamento da Serra da Cabreira. A equipa de sapadores está a funcionar lindamente, até já pedimos ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas uma nova equipa. Queremos constituí-la em 2018.

P - Vieira do Minho não escapou estes ano aos fogos florestais. As consequências destes incêndios não podem levar os investidores a pensar duas vezes?
R - Concerteza que sim. É preciso fazer algo diferente, diria mesmo radical. É preciso reconhecer que a floresta pode e deve ser uma grande fonte de receita para o país, não só em termos directos do que representa uma reflorestação e os seus produtos, mas também em termos turísticos. Nenhum turista gosta de vir para um concelho como Vieira do Minho, que tem uma beleza ímpar, e estar no seu alojamento com tudo queimado à volta. Precisa o país de perceber que é urgente reduzir drasticamente o número de incêndios, que tem de se actuar acima de tudo na prevenção com medidas que incentivem os municípios e os particulares. E não pode ser com medidas repressivas, mas sim incentivadoras para a limpeza das manchas florestais e para o reaproveitamento dos resíduos.

P - O que é que as câmaras municipais podem fazer nesta área?
R - Está comprovadíssimo que os serviços funcionam muito melhor quando são geridos próximo dos locais. Acontece com a prevenção e o combate aos incêndios como acontece com tudo o resto. O Município de Vieira do Minho, consciente dessa proximidade, por iniciativa própria tem, desde há três anos, o primeiro sistema de vigilância e de primeira aproximação ao combate aos fogos florestais com três elementos em cada freguesia, em colaboração com as juntas. Por que é que o Governo não cria mais equipas de sapadores florestais? Por que não dá essa gestão às juntas de freguesia?

P - Competências nesta área eram vistas com agrado pelo Município de Vieira do Minho?
R - Transferências de competências e meios financeiros para fazer mais com menos. Está comprovado que as autarquias fazem melhor e mais com menos. Se se fala da descentralização de competêcias nas áreas da Educação, Saúde, porque não se pensa na área da Protecção Civil?

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