Ao encontro das mulheres desportistas

Braga

autor

Redacção

contactar num. de artigos 19668

O projecto ‘Ao Encontro das Mulheres de Braga: do Pessoal ao Mediático’ do núcleo de Braga do Movimento Democrático de Mulheres (MDM) serve de mote para o novo programa que está a ser promovido em parceria com o jornal ‘Correio do Minho’ e a rádio ‘Antena Minho’. O programa passa na rádio às quintas-feiras, entre as 14 e as 15 horas, e o jornal ‘Correio do Minho’ desenvolverá o assunto nas edições de segunda-feira, de 15 em 15 dias.
Esta semana, o MDM foi ao encontro das desportistas da nossa região.

Treinadoras, professoras, atletas, dirigentes, árbitras, as mulheres têm vindo a ocupar um lugar cada vez mais significativo no mundo do desporto, mostrando que, apesar do tradicional predomínio masculino, também nesta área elas têm uma palavra importantíssima a dizer e, apesar dos obstáculos que perduram no caminho, é enorme o empenho com que se entregam à prática, desenvolvimento e melhoria do desporto.
Quatro treinadoras e quatro atletas partilharam connosco as suas histórias e mostraram-nos que o que não falta às mulheres é amor à camisola.

Sameiro Araújo, 54 anos, professora e treinadora de atletismo, lembra que quando começou, há cerca de 40 anos, o mundo do desporto, particularmente do treino, era um mundo de homens: “Em termos de atletas não se fazia notar tanto, já havia algumas praticantes, agora, treinadoras, não.” Nessa altura, conta, havia naturalmente um certo paternalismo por parte dos colegas homens, mas o trabalho desenvolvido e resultados obtidos acabaram por mostrar que as mulheres conseguiam fazer as mesmas coisas que os homens na área do treino. Hoje, apesar da evolução positiva, considera que as mulheres ainda são algo menosprezadas e têm de se esforçar mais que os homens para obter reconhecimento: “Sinto-me orgulhosa, mas esta luta ainda não terminou.”

De facto, e à semelhança do que se passa em outros contextos, também nesta área subsistem hoje variados factores que limitam a plena participação das mulheres e determinam a subvalorização do seu trabalho. Um dos principais obstáculos que as mulheres enfrentam é o acesso à carreira, nomeadamente as treinadoras, que na sua maioria desempenham essa função como uma actividade complementar à profissão de professora. Assim, para a maioria das treinadoras, o montante de remuneração, quando existe, é meramente simbólico.

Prazeres Rodrigues, 44 anos, professora e treinadora de futebol, considera muito injusto o facto de as mulheres não terem as mesmas oportunidades que os homens, “mesmo tendo as mesmas qualificações”, e confessa que também “gostaria de fazer disso uma profissão”. A seu ver, também as diferenças na remuneração de homens e mulheres contribuem para a desvalorização da actividade feminina: “Se as mulheres recebessem o mesmo que os homens, dariam outro valor ao nosso trabalho.”
Da mesma forma, Sameiro Araújo aponta as disparidades remuneratórias como um dos grandes factores de discriminação que permanece: “acredito que há homens a ganhar muito mais do que algumas mulheres no atletismo, não tendo a qualidade delas.”

Melissa Antunes, 22 anos, futebolista, concorda que no nosso país é dado um estatuto menor aos escalões femininos, alertando para os entraves que isso coloca à prossecução de uma carreira: ”eu acho que quase todas as modalidades em Portugal, na vertente feminina não são remuneradas, logo uma mulher desportista nunca se pode dedicar a 100% àquilo que gosta, tem sempre de conciliar com outra profissão.” Considera por isso que não são criadas condições para que as atletas atinjam o seu máximo potencial. Por outro lado, a atleta lembra que há ainda muitos estereótipos a desconstruir - “pensa-se, por exemplo, que as futebolistas são todas muito másculas” - e atribui um papel aos media, que poderão dar o seu contributo para a desocultação das mulheres: “Terão esse papel na adesão ao desporto feminino.”

Tratamento mediático não valoriza mulheres

O tratamento mediático aparece como uma das principais causas da desvalorização da prática desportiva feminina, quer pela veiculação de enquadramentos estereotipados quer, na maioria dos casos, por condená-la a uma total invisibilidade.

Alexandra Rodrigues, 22 anos, voleibolista, é uma das atletas que identifica este obstáculo: “acho que já estamos tão habituadas a não ser divulgadas, a surpresa é quando divulgam!”.
A atleta conta, no entanto, que conseguiram ultrapassar um pouco esta realidade com o desenvolvimento de uma parceria com o jornal ‘Correio do Minho’, bem como com a dinamização de um blog, estratégias que acabaram por conferir maior visibilidade à equipa e à modalidade.

A parca mediatização das variadas modalidades desportivas femininas, quando comparada com a das masculinas, determina evidentemente diferenças ao nível da disponibilidade e da atenção do público.
Ana Rita Barros, 18 anos, voleibolista, explica: “Sente-se por exemplo a nível das bancadas. O número de pessoas que vêm assistir a um jogo de voleibol feminino e o de pessoas que vêm assistir a um de voleibol masculino não se compara”.

Testemunho de uma nadadora

Sofia Fernandes, 18 anos, nadadora, descreve um cenário semelhante: “noto que há mais assistência para as provas masculinas, o público tem mais aquela ânsia de querer ver!”.
A jovem nadadora tinha apenas um ano quando iniciou o seu percurso no desporto e, ao longo de todos estes anos, muitos foram os sacrifícios que teve de fazer em prol da actividade desportiva, desde o cumprimento de rotinas exaustivas até aos gastos com equipamento.

É uma vida dedicada à natação, onde cresceu e se desenvolveu “a todos os níveis”, e é por isso com tristeza que nos confessa que não vislumbra um futuro como nadadora: “Eu espero acabar o curso o mais rápido possível e conseguir arranjar emprego porque a natação não me vai proporcionar assim nenhum futuro”. Sofia acredita que, para possibilitar a prossecução da carreira às nadadoras, era importante que houvesse mais apoios, ainda que fossem simbólicos: “é uma modalidade com um nível de exigência muito grande, acho que um incentivo não era nada de transcendente.”

Isabel Ferreira, 31 anos, professora de fitness aquático, explica-nos que, no seu caso, há dez anos, o facto de ser mulher foi até uma vantagem para conseguir este emprego, - “empregaram-me precisamente porque precisavam de uma presença feminina na piscina” - e conta-nos que também por este prisma há esterótipos a desconstruir: “a verdade é que, infelizmente, o fitness aquático ainda está muito associado à imagem feminina”.

O papel da escola

A sua ligação ao mundo desportivo, conta-nos, vem de há muito tempo. Tudo começou porque teve “a felicidade de ter acesso, em criança, ao desporto escolar”, realidade que gostaria de ver generalizada: “o desporto é um vector essencial para um crescimento harmonioso (…) confere às crianças um grande sentido de liberdade, criatividade, até de cidadania”. Lamenta, por isso, que nos últimos anos tenha havido um desinvestimento nesta matéria, o que acaba por pôr em causa o acesso de muitas crianças ao desporto: “é triste porque há escolas que não têm, mesmo.”

Também Tânia Oliveira, 24 anos, professora de natação, reconhece na escola um papel fundamental para motivar as raparigas e mulheres a serem mais activas física e desportivamente. Explica que, muitas vezes, as meninas acabam por ganhar aversão ao desporto por terem tido más experiências, pelo que defende que é necessário investir mais em recursos e infraestruturas nas escolas, de modo a propiciar uma diversificação da actividade desportiva: “a escola é o local a que todos têm direito, é o sítio ideal para haver oportunidades de escolha e de identificação.”

Empenhadas na promoção da actividade física e de uma vida saudável para todos, tanto Isabel como Tânia acreditam no desporto como elemento agregador e capaz de proporcionar às pessoas um bem-estar inigualável, o que, no momento de crise que vivemos, se reveste da maior importância. Ambas defendem, por isso, o interesse de criar espaços seguros e acessíveis para a prática desportiva: “nem toda a gente tem capacidade de se filiar num clube ou num ginásio, devia promover-se alternativas (…) desporto sénior gratuito, por exemplo.”, sugere Tânia.

Isabel reafirma: “Eu espero muito do desporto, é capaz de juntar pessoas, de acabar com desigualdades.” Quanto ao papel das mulheres nessa transformação, a professora não hesita: “as mulheres conquistaram um lugar que não tinham antes e agora é seu efectivamente e ainda têm muito a dar, o seu contributo é de grande importância”.

vote este artigo


 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos das categorias relacionadas

Tempo

Farmácias de serviço

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia