Padre Salvador Cabral: Braga perdeu um grande missionário

Braga

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Costa Guimarães

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Comunicador corajoso e desalinhado da ortodoxia hierárquica, trabalhador incansável e multifacetado era um grande amigo do ‘Correio do Minho’, onde colaborou assiduamente. Custa escrever esta notícia mas a lei da vida dita: faleceu sábado, o P.e António Salvador Cabral da Costa, poucos dias após ser dispensado das paróquias de Santa Eulália de Arnoso e Santa Maria de Nine, do Arciprestado de V. N. Famalicão.

“O meu pai dizia que gostava de ter um filho que fosse músico, outro que fosse jornalista e outro que fosse pregador e ele dizia muitas vezes — tu tens um bocado de cada coisa. O meu pai tocava na banda da minha terra. O meu pai era repórter que era o correspondente da terra e gostava de ouvir um bom sermão. Talvez eu tenha tido a propensão, porque dos meus irmãos padres, o mais músico era eu e fiz muitos cursos e ensinei a tocar muita gente e a formar muitos grupos corais” — lembrava o padre Salvador Cabral.

Nasceu a 28 de Fevereiro de 1943, no concelho de Trancoso, distrito da Guarda, e iniciou os seus estudos no Seminário da Congregação do Espírito Santo, no Peso da Régua, tendo pros-seguido por Braga, (Silva) Barcelos e Carcavelos.
Em Braga começa a tocar órgão, com uma orquestra em Fraião, com bandolim, acordeão e começou a fazer música, como o “Hino da minha terra” para a banda onde tocava o pai.

A 18 de Março de 1967 foi ordenado sacerdote, paroquiou em Tires e tinha um grupo de teatro para animar as mulheres presas na cadeia e em Setembro de 1968 partiu como missionário para Angola, onde esteve durante cinco anos.
Com o irmão mais novo perseguido pela PIDE (por causa das canções do Zeca Afonso), saiu a monte para a Alemanha para se despedir do pai e do outro irmão emigrados na Alemanha, antes de ir para Angola.

Foi para Angola e começa a trabalhar com os jovens em Nova Lisboa (Huambo) mas a PIDE começou a desconfiar das suas actividades ecuménicos.
“Vim de Angola passar férias com um projecto de desenvolvimento rural para o Andulo. Eu queria conjugar o espírito missionário com esse projecto” mas a PIDE impediu-o de regressar. Estes episódios são tema de um dos muitos livros que ele escreveu.

A música como meio de evangelização

Com o pai e um irmão, foi para a Alemanha onde esteve vinte anos e dinamizou o Festival Europeu da Canção Emigrante.
Na Alemanha, desenvolve a sua acção sacerdotal, na Comunidade de Mainz, durante 20 anos, tendo trabalhado também como editor de um jornal.
<br /> De regresso a Portugal, em 1993, integrou-se na Diocese de Braga, a partir de 1994, onde paroquiou diferentes comunidades. Depois de Fafe, foi nos últimos anos pároco de Arnoso Santa Eulália e de Nine, faleceu, vítima de doença prolongada, escassos dias depois da tomada de posse do novo pároco nas referidas comunidades.

Ao mesmo tempo publicava artigos de opinião sobre temas da actualidade política e pastoral, envolvendo-se também em actividades cívicas e associativas, tendo sido um dos fundadores do Clube de Jornalistas de Braga. O funeral do P.e Salvador Cabral, professor e jornalista, realizou-se ontem à tarde, na sua terra natal, Fiães, concelho de Trancoso, distrito da Guarda.

Durante dezasseis anos serviu a Igreja no Arciprestado de Vila Nova de Famalicão, e para possibilitar que todos prestem uma última e merecida homenagem ao P.e Salvador Cabral, está marcada para a próxima sexta-feira, às 18h00, na Igreja de Nine, uma missa de sétimo dia, que conta, para além da presença de muitos leigos que se queiram associar a este momento, com a presença de muitos dos seus colegas sacerdotes, sendo presidida por um dos bispos da nossa Arquidiocese de Braga.

A vontade de ter um estúdio de gravação nasceu com o seu gosto para a música mas foi criado apenas em 1990, em Vilaça, com o nome MCF e depois foi mudado para Musibral. “Dediquei-me sempre à música, à literatura e ao jornalismo”, explicava o padre Salvador Cabral, que come-çou por gravar cassetes mas o projecto era criar uma rádio local, tendo colaborado com a Rádio Local de Barcelos. O Rancho Folclórico de Cabreiros foi o primeiro cliente do seu estúdio antes da chegada dos CD’s. Gravou mais de 150 edições de CD’s para diferentes grupos, escolas, novos artistas do Minho, com apoio do Giovanni Goulart.

Grande parte das gravações nos últimos anos eram de grupos minhotos: Origens, Irmãos Ferreira, ACR de Dume, Rancho de Fafe, Cavaquinhos da Trofa, Canto d’Aqui, INATEL, Cruz Vermelha, Escuteiros de Couto de Cambezes, entre tantos outros. Com os cinco grupos corais de Nine e Arnoso, gravou também vários CD’s, com letras e músicas dele próprio, algumas delas compostas ainda quando estava na Alemanha.

“Todas as músicas que eu faço têm letras minhas” — garantia o padre Salvador numa entrevista concedida há um ano à rádio ‘Antena Minho’. “Investir em cultura no nosso país é sempre um drama e um ponto de interrogação” — lamentava o padre Salvador Cabral há poucos meses.

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