Correio do Minho

Braga,

Zorro

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2018-08-16 às 06h00

Escritor

Recordo-me que crescia feliz, como quase todas as crianças crescem, sem nunca pensar nisso. Queria ser grande, ser como “os grandes”. Todos queríamos, nessa época em que ser criança era sinónimo de “não ter voto na matéria”, estar calado à mesa, cumprimentar qualquer desconhecido amigo do pai ou da mãe, com a maior cortesia; enfim, tudo era “uma seca”, um deserto que todos tínhamos de atravessar para chegar à tão desejada idade adulta, aquela em que, aparentemente, tudo era permitido. Eu nem sonhava que vivia em ditadura. Não sabia o que isso era, nunca tinha ouvido a palavra, mas se alguém ma tivesse explicado, certamente teria pensado que os ditadores do mundo eram os pais, todos os pais que conhecia.

Um dia o Zorro morreu. Morreu, assim, sem aviso, estava a dormir e não acordou mais. Eu chorei. O Zorro era o meu gato, o nosso gato. Era um pouco mais velho que eu. E morreu de velhice. Chorei muito. Nem queria chorar, pois não servia de nada, queria era trazê-lo de volta, voltar a afagá-lo, a tê-lo no meu colo, brincar com ele, ouvir o seu ronronar de satisfação, repetir-lhe o quanto a amava. Percebi o peso do “nunca mais”, do definitivo; que o passado perdura, mas o futuro pode acabar a qualquer momento. O futuro do Zorro terminara. E eu não estava apenas inconsolável, sentia-me, sobretudo, inconformada, incapaz de aceitar.

Foi então que ouvi, pela primeira vez, um discurso sobre essa história de crescer. O meu pai, na beira da minha cama, sentou-me ao colo, aconchegou-me nos braços e conversou comigo por muito tempo, com calma, doçura, paciência. Disse-me muitas coisas, ensinou-me muito, falou-me que todos temos de crescer, e que o aprendizado da morte faz parte desse processo que é duro mas gratificante. Também falou que eu iria continuar a crescer, mesmo depois do meu corpo alcançar a altura definitiva. Disse-me que o crescimento dura o tempo todo de uma vida, que ele próprio continuava a crescer todos os dias e que ninguém, mais do que eu, lhe ensinara ou fizera crescer tanto.
E o meu sonho de ser grande foi esmorecendo enquanto ele falava. Pensando bem, talvez fosse preferível continuar assim pequenina para sempre, ao colo do meu pai, escutando a sua voz doce e grave, suavemente acompanhada pela batida ritmada do coração, bem ali por baixo do meu ouvido encostado no seu peito.

Ele afagava os meus cabelos. E a certa altura começou a falar do Zorro e a recordar as suas histórias e como o haviam encontrado, bebezinho ainda, na rua, sozinho. Bem antes de eu nascer. Contou muitas coisas sobre ele, coisas que desconhecia: como era assustadiço e medroso, como lentamente foi crescendo ele também e como me “adoptou” desde o dia que nasci. A certa altura já não havia mais lágrimas, apenas risos e alegria nostálgica em memória do nosso doce gatinho, chamado de Zorro devido a uma tira negra na zona dos olhos e que mais parecia uma mascarilha.

Ficámos muito tempo ali. Por fim, chegou a hora do jantar. A minha alma lavara-se e revigorara-se, tinha o Zorro dentro de mim, para sempre. Ainda cá está. Sem o saber, cresci muito nesse dia.
Passaram muitos anos, tantos que prefiro nem dizer. Ontem à noite, da mesma forma e pelas mesmas razões, o meu pai foi juntar-se ao Zorro.

Nunca somos suficientemente crescidos para perder os nossos pais com serenidade. Choro o meu pai, como chorei o Zorro. A dor é mais madura, o sofrimento mais profundo. E eu, eu sou quase velha. Mas o que me apetece mesmo, o que sinceramente desejo, é sentar-me ao colo do meu pai e ouvir a sua voz, embalada pelo bater do seu coração (agora parado), consolando-me, explicando-me os porquês de tudo e rindo comigo das suas próprias histórias de quando era vivo e jovem.
Ah! Falta-me tanto por crescer…

Ana Maria Monteiro

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.