Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

Via dolorosa

Vamos falar de voluntariado…

Via dolorosa

Ideias

2019-02-03 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Os enfermeiros retomam a greve. Os professores, logo se verá. Reclama-se mais dinheiro ao final de mês e aposentações antecipadas, dada a particular penosidade das profissões, ou riscos acrescidos, ou desgastes acelerados, despique em que contracenam polícias e bombeiros, uns porque não podem com o coldre para lá dos cinquenta e picos, outros porque fraca lhes verta a agulheta. Ironizo para poupar argumentos.
Falasse cada um de si. Portugal é um mar de sofredores, cada lote de sacrificados tem a sua lamuria. Façamo-nos desgraçados, sem excepção, rebaixados a servil estado, anunciemos uma greve regeneradora por tempo ilimitado, inflijamos as provações do purgatório, uns aos outros, em nome das beatitudes do paraíso perseguíveis em vida. Que Portugal fique bloqueado, mas que ninguém saia a rir-se.
Que aprendemos nós com a última bancarrota, com decénios de endividamento progressivo? Qual o sentido de contrair empréstimos para pagar salários, mantendo em alta funcionalismos e redundâncias burocráticas, protocolos e ostentações, dignas de país desafogado que o não somos? Qual o sentido de comprimir uns, para prodigalizar prebendas a outros? Ai o populismo! Pois, se ele jorra, nutritivo, dos peitos chupados da República.
Que linda voz tens, diz a raposa ao corvo vaidoso. Quanto não se promete a partir dos confortos da oposição. Quanto não se reescreve o dia-a-dia. E o dinheiro que não cresce, contudo, como que por teima. Têm razão no que reivindicam, estes, aqueles e aqueloutros? Sim, uma parcela, da Razão que pelo todo não lhes assiste. O demónio, dirão, são os milhares de milhão que foram despejados nos bancos, os fundos que a imbecilidade e a corrupção esturricaram. Se houve para salgados e ensossos, que haja para nós, clama cada estrato de esquecidos. Não chega para todos, tartamudeia um Costa e um Centeno, com voz entaramelada, mas ninguém quer saber.
E diz, uma senhora enfermeira, capitã das hostes, que um mês adicional de atraso se suporta, se um ano espera o utente, por norma. Não lhe gelar a boca! De pele de crocodilo, ainda com dentes, era o cinto do Passos; de pele de dragão-de-Komodo é a pochete venenosa, impingida em sessão de televendas, por um Costa da banha-da-cobra. Nem de propósito, o Marcelo vem de lhe vetar o diploma das medicinas chinesas.
Quem irá ao tapete? Nem o governo nem os enfermeiros parecem ter muita consideração por quem passeia um caso clínico por meses desencontrados. A operação pendente é um animal de companhia, é um tema de conversa: trocamos esperanças, como admirações e elogios pelo bichito do compadre, e distribuímos adjectivos pela corja. O governo não tem como ir ao encontro das expectativas dos enfermeiros, e de nada adianta apelar à razoabilidade da classe – da razoabilidade já eles abdicaram, há muito. O governo não tem como punir os grevistas, porque aí eles retaliariam com os milhões de horas extra por saldar. Costa gangrena. Os professores e os enfermeiros são-lhe uma infecção em cada perna. Acabará amputado em eleições.
A Caixa é só uma comichão, mas há quem coce até à ferida, sem alívio. Costa sabe o que lá se passava, como Rio, aliás. Costa sabe que os cozinhados da Caixa são uma infâmia e a revelação do alegado empréstimo de favor à filha do Vara é um sinal de que não há segredo bancário que se aguente das canetas.
Governar é um fardo, que o sábio aceita com lágrimas nos olhos, sabendo que os sonos e os sossegos terminaram, quando se vê com a chave da cidade. Os nossos comediantes pensam que é uma tarde bem passada na feira popular. Oh, engano.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

10 Dezembro 2019

Regionalizarão?

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.