Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Veranear pelas catedrais da criatividade – os nossos jardins

Um futuro europeu sustentável

Escreve quem sabe

2018-06-20 às 06h00

Anabela Guimarães

“O Tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. E o Tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.” Vem à memória este delicioso trava-línguas porque teimamos dizer que o tempo passa a correr e num instante começa a Primavera e no outro estamos no Verão.
E se há verbo que no Verão mais sabe entreter é veranear por aí, aproveitar os dias preguiçosos e soalheiros para sair de casa e sobretudo para quem tem crianças e adolescentes, aproveitar os muitos dias de férias grandes para as tirar da sua zona de conforto de quartos armados com televisão, computador, tablet, e smartphone. Não porque todos estes equipamentos não tenham capacidade de estimular a criatividade, mas porque na maior parte das vezes são usados unicamente para sociabilizar em redes e aplicações pensadas para potenciar comportamentos mímicos e seguidistas, acríticos e viciantes.

E os jogos, os bem ditos jogos que nas infâncias pré-jurássicas informaticamente, tanto serviam para sociabilizar e testar capacidades cognitivas e físicas (olhando para trás, o jogo da macaca parece-me uma prova bem robusta), prendem magneticamente os jovens aos écrans, como se estivessem prestes a descobrir o maior tesouro da humanidade ou a salvar o último dos Moicanos.
Serve esta pequena prosa a propósito dos (poucos) dias de sol que finalmente se dignaram aparecer e do Verão que amanhã se instala oficialmente. As catedrais de consumo são fresquinhas e sedutoramente encantam os mais jovens com salas atapetadas de tecnologia de ponta, que ao invés do que apregoam, limitam as liberdades individuais ao manipularem consumos e comportamentos, tal como com os pais, aliás, na extensa oferta comercial ao dispor.
Opção?
Veranear!
Nestes dias mais luminosos, em vez de acorrermos aos ventilados centros comerciais, vamos conhecer e desfrutar dos magníficos espaços verdes que esta cidade de Braga oferece. Temos um dos mais belos jardins barrocos de Portugal no Palácio dos Biscainhos, onde entre outras maravilhas podemos observar um tulipeiro da Virgínia com mais de trezentos anos; o precioso jardim e cafetaria do Museu Nogueira da Silva, bem no centro da cidade; o jardim de Santa Bárbara, tão perto; também o Museu D. Diogo possui uma pequena esplanada e um jardim nas traseiras. Não esquecendo os vastos espaços verdes do Museu de Tibães e a sua horta, o lago e os campos circundantes. Geralmente todos estes espaços têm agendas culturais dirigidas para os mais novos que é um privilégio desfrutar.

Li recentemente um excelente artigo na Revista Rua, que chamava a atenção para um facto aparentemente tão simples quanto este: quantas vezes não dizem de alguém que tem um especial talento para a música, que nasceu para a música? Quando na realidade cresceu para a música.
São os hábitos familiares ou de amigos que influenciam o gosto musical dos jovens. Se na família se ouvir muito Fado, Jazz ou Rock-an-Roll, a criança crescerá com essa influência, que se irá manifestar gradualmente na formação do seu gosto musical e isto replica-se nos demais gostos estéticos.
Os bons hábitos pegam-se, tal como as tradições que transmitimos de geração em geração. Queremos crianças viciadas em quartos fechados com vista para um computador?
Não querendo enveredar por fundamentalismos, dado que uma vida equilibrada tem de ter lugar para tudo, deixemos a criatividade brotar e manifestar-se livremente nas nossas crianças e jovens e nos espaços verdes com toda a certeza ela fluirá muito mais naturalmente.

Fica um convite para belos passeios descontraídos em família à descoberta dos jardins citadinos de Braga, de Guimarães - Palácio Vila Flor, jardins do Convento de Santa Marinha da Costa, entre outros - e em qualquer cidade que tenha o privilégio de manter estes pulmões de boa energia, ar puro e fruição natural.
E falávamos de tempo.
Faz dois anos que iniciei esta partilha na rubrica ‘Braga nas Tradições’, a convite do Maestro Félix Alonso Cabrerizo, a quem agradeço
publicamente pelo seu amor à cultura, tradições e arte bracarenses, reflexo da sua paixão por esta cidade que adoptou como sua.
O espaço vai terminar neste início de Verão, porque há sempre tempo para nascer, renascer ou talvez partir.
Em jeito de partida, deixo um hasta la vista, Maestro e leitores do Correio do Minho, vemo-nos num jardim próximo neste Verão!

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