Correio do Minho

Braga, sábado

Varejo e retalho (2)

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Escreve quem sabe

2018-04-30 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva

Tradutor do Google. Escreve-se varejo e obtém-se retail e détail, em inglês e francês, respectivamente. Em seguida, escreve-se retalho. O resultado apresenta duas possibilidades: clothing & accessories ou retail, no caso do inglês; vêtements et accessoires ou vente au détail, no caso do francês. Difícil de compreender, esta duplicidade significativa para a forma portuguesa europeia. A etimologia de retail e détail decalca a etimologia da forma portuguesa europeia. Em ciência, como em todas as atividades produtivas humanas, o problema das terminologias em uso, relativas a cada campo de investigação ou de trabalho, é de difícil resolução. Na impossibilidade de tradutores humanos para todos os contextos possíveis, a busca pelo tradutor automático perfeito está, ou estará cada vez mais no futuro, na vanguarda da investigação computacional. A necessidade de taxonomias específicas, comuns às diversas línguas, apresenta-se como uma evidência para agentes ativos e inteligentes nas áreas mais diversas. No retalho, dado o cruzamento de produtos que percorrem geografias e estados linguísticos diferenciados, tal necessidade agudiza-se, sob pena de, involuntária e muito facilmente, se comprar ou vender gato por lebre, com todas as consequências que se adivinham. Em termos comerciais, como catalogar, por exemplo, o ananás e o abacaxi? Poderemos jurar que são a mesma infrutescência, mas o cheiro, o sabor, o preço e a diferente denominação sugerem-nos que são diferentes. Em geografias de língua espanhola, joga-se entre a piña ou o ananá(s), mas seria estulto chamar pinha, em bom português, a esta tão suculenta infrutescência.

O francês chama ananas ao ananás e ao abacaxi, mas o inglês distingue-os: ananas e pineapple. Um novo exemplo confirma esta problemática. A loja comercial X, inglesa, recebe uma encomenda cujo rótulo diz mulberry (morango). Analisado o produto, conclui-se tratar-se de blackberry (amora). Em que momento do percurso aconteceu o equívoco, e porquê? Na origem, o funcionário responsável pelas etiquetas, conhecendo mal a língua inglesa, recorreu a um tradutor eletrónico para encontrar a tradução de amora. Obteve alguns resultados, entre os quais mulberry tree, que significa amoreira, árvore que dá a infrutescência amora. Daí a denominar amora como sendo mulberry foi um passo. Ora, mulberry significa morango, enquanto blackberry significa amora. Confuso? Toda a língua natural tem caraterísticas próprias, de âmbito linguístico e cultural, que justificam designações logicamente difíceis de explicar. É fácil imaginar que, na intertradução, a dificuldade classifica- tória se aprofunda, e que é na situação real de taxonomização que o problema se levanta. No âmbito do retalho, exige-se um conhecimento linguístico máximo, que vai da etimologia das palavras ao processamento algorítmico, morfológico e semântico. Organizar os produtos objectivamente, organizá-los em classes bem definidas, estabelecer correspondências interlinguísticas claras e produtivas, potencia formas de criação de valor. Não reconhecendo a importância do conhecimento linguístico e taxonómico, as empresas sujeitam-se a erros que podem valor milhões.

*Com JMS

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