Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Uns “merdas”

Muro de Gelo

Ideias

2015-01-16 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Sem se enveredar por uma linguagem grosseira e plebeia, a grande verdade é que o que vem acontecendo no país nos faz perfeitamente compreender que num conhecido diário um dos seus responsáveis tenha há uns tempos se referido e escrito sobre os “bardamerdas”(sic). Aliás uma palavra que não encontrámos nos habituais dicionários muito embora admitamos que já esteja incluída num dos modernos, elaborado em conformidade com o famigerado novo acordo ortográfico, onde de certo se deparará com muitas outras como bué, bunda, cantera, carona, coroa, NDA, mirim, bala, etc., e ainda mais algumas “importadas” de países ditos lusófonos e mesmo de Timor se o Xanana “democraticamente” autorizar. Aliás o vocábulo “bardamerda” tem todo o cabimento e explicação, diga-se!...
Claro que não o desconhecíamos pois lembramo-nos bem das vezes que ouvimos na aldeia alguém mandar outro à bardamerda ou a dizer mesmo tu és um bardamerda. Sibilada, expressa ou abertamente, mas muitas das vezes com “carradas” de razão e a propósito de atitudes, posições ou palavras de indivíduos sem préstimo, merecimento, crédito, respeito, valia, honestidade ou honra, sendo nosso entendimento, ainda que nada se percebendo de linguística nem de semiótica, que assim, e com um “bardamerda”, se queria acentuar e dar mais realce e ênfase à insignificância do interlocutor e ao desprezo que se sentia.
Sendo óbvio que não pretendemos continuar a dissertar, a revolver e muito menos a mexer na “porcaria” ou “medalha” a que se chegou neste país, temos no entanto de convir que efectivamente vimos sendo dominados, dirigidos e mesmo contagiados por uns “merdas” (uma palavra que surge no Grande Dicionário da Língua Portuguesa de José Pedro Machado) que vêm enchendo as televisões onde têm por hábito dar palpites, bolsar opiniões, extravasar simpatias, revelar velhos rancores e manifestar os seus mais esconsos desígnios e intenções, embora a culpa seja apenas nossa por continuarmos a ouvir e a dar-lhes atenção.
Então aos domingos, quem quisesse “fugir” à Teresa Guilherme e à sua Casa dos Segredos, aliás vergonhosa, popularista, de uma moralidade e seriedade discutíveis e em atropelo aos sentimentos, inteligência e sensibilidade normais de uma sociedade com bons costumes e algum sentido de honra e moral, ou pretendesse “escapar” às “palhaçadas e patacoadas” de um qualquer Factor X e a um juri de bacoco falaciar a “divertir-se” com as tremuras e os nervos dos concorrentes, acabava então e sempre por cair nos “painelistas” ou “paineleiros” que se debruçavam sobre o futebol, seus problemas e casos. Fazendo conjecturas, debitando interpretações e “arremessando” palpites, muitas das vezes na sequência de deturpadas ou enviezadas visões e do imaginário de certas linhas traçadas nas transmissões televisivas.
Uns “comentadores” que sempre se apresentavam e figuram como uns “apaixonados adeptos” ou uns subservientes “palradores” ao serviço dos clubes em que gastaram a sua juventude e “passearam” alguma técnica, quando a tinham, mas que, de palavra em palavra, de comentário em comentário e de observação em observação, acabam também por se assumirem algumas vezes como uns “merdas” dada a sem valia, vacuidade e o demérito do que dizem e afirmam. Isto não obstante os ares doutoral e professoral destes “especialistas” na matéria, e todo aquele convencimento de que a razão e verdade estão apenas do seu lado.
Uma vacuidade e um vazio quase idêntico ao de alguns opinadores políticos ( serão os famigerados politólogos?) que sabem de tudo, de tudo falam e sobre tudo se expressam, ainda que por regra ficando-se por uns cautelosos, inócuos e cuidadosos “sim”, “não”, “talvez” e “vamos a ver”, ainda que lhes reconheçamos conhecimentos alargados de factos, casos, situações e pessoas, ... e muitos contactos. Como aliás flui de certas “revelações” no mínimo curiosas e caricatas, como a de se ter andado com a Carminho ao colo e jogado à bola na rua com os tios e pai, de nula relevância e interesse para um país que continua a “suar” com impostos e a viver do ridículo e fantasioso de mediocridades, de comentários “encomendados” e de todo um palavreado balofo, estéril e sem valor. Mas como estamos num país em que o maior denominador comum é o de um miserabilismo de vida, de inteligência, de carácter, de seriedade, de honestidade e de verdade, não será de admirar que continuemos a ser dirigidos, dominados, condicionados e governados por tipos sem mérito e sem valor, por uns “merdas”, no seu linguístico significado e sentido vocabular, o que aliás ficou bem retratado no parlamento com a aprovação do orçamento para 2015 e as “palhacices” assumidas por alguns deputados e outros.
Até se falou em Sócrates, actualmente “recolhido” em Évora, “apresentando-o” como uma “assombração”, “um fantasma”, mas a incontornável realidade é que são os portugueses que por mal dos seus pecados têm de viver com o fantasmagórico e o fantasioso das habituais e recorrentes figuras parlapatonas ainda não “recolhidas”, e que continuam a infestar a política. Com o gravoso de que há quem nelas se reveja e acredite em fantasmas e no feiticismo e misticismo das que desde há muito têm vindo a “acompanhar”, “dirigir” e “condicionar” a vida política, social e económica do país e dos portugueses, crentes e não crentes, sendo incontornável ainda não haver “mezinha”, “queimada”, “dom bruxo” ou esconjuro que produza efeito, libertando-nos.
E temos pena, diga-se, porque um bom “esconjuro” do padre Fontes, através de uma boa “queimada” de aguardente, canela, açúcar amarelo e maçã e uns “salpicos” de azevinho, sem dúvida que não deixaria de ser sempre um bom augúrio, pelo menos como primeiro passo para pôr termo à muita porcaria que nos vem “sufocando” e afastar fantasmas e outros que tais, como os muitos “merdas” que pululam no nosso dia a dia. E num incomensurável número, diga-se, importando ainda, e já agora, “esconjurar” todos os banqueiros e “fazer umas rezas” sobre as suas mal contadas e sempre mirabolantes “estórias” de aldrabice !...

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