Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Universos convergentes

Um futuro europeu sustentável

Conta o Leitor

2018-08-21 às 06h00

Escritor

Autor: Manuel C. Correia

A noite chegou mais cedo do que era normal para a época do ano. Era Outubro, chovia miudinho, uma chuva contínua, misturada com a densa poluição fundiu uma espessa cortina cinzenta que cobriu por inteiro toda a cidade, como que se todos os olhos ficassem doentes de cataratas. Os automóveis ligavam os faróis em automatismo sistemático. O pára e arranca de filas quase intermináveis. Os motores que não se calavam, queimando combustíveis de várias origens, vomitando pelos escapes o maldito monóxido de carbono. O soro da morte: lenta e silenciosa.
O frenesim era tal, que ninguém se apercebeu, que a noite tinha roubado trinta minutos ao dia! A ladra, pela calada, num abrir e fechar de olho fintou o dia, prometendo-lhe uma retribuição para mais tarde. Uma daquelas promessas de político.

Mais tarde, as extensas avenidas ficaram descongestionadas. Apenas um ou outro automóvel rolava no asfalto molhado. A chuva estava para durar, mas agora acompanhada de trovoada que ia aumentando de intensidade. Em pouco tempo os reclamos cintilantes desligaram-se num corte de energia precedido de um relâmpago que penetrou no interior terrestre a uma velocidade estonteante, ouvindo-se o estrondo a um bom par de quilómetros de distância. O corte de energia foi parcial, uma das caixas de distribuição tinha sido atingida pelo forte raio que tinha caído dos céus. De imediato foi chamado um piquete da empresa de electricidade para resolver o incidente metrológico, mas os estragos eram de tal ordem que foi impossível fazer a reparação naquela noite. A caixa ficou totalmente carbonizada por fora e por dentro, com todos os componentes fundidos num bloco.
Na sede da empresa de electricidade os clientes servidos por essa derivação telefonavam para saber quando iriam ter electricidade, mas a resposta era sempre a mesma, “o problema está a ser resolvido, o piquete está no local”. A verdade é que o piquete esteve no local, mas só na manhã seguinte é que ia trabalhar na resolução do problema que pelo aspecto iria demorar dias.

Entretanto os relâmpagos não paravam de fustigar a crosta terrestre, iluminando o céu, fazendo desenhos com traços insertos. O som dos trovões e a luz dos raios de energia estonteante dava um espectáculo único e perigoso. No meio deste espectáculo de som e de luz, um raio atraído pela terra trespassou um desgraçado de um condutor de um camião quase a chegar ao seu destino. Azar do homem que estava no sítio errado à hora certa, mas quem o mandou atrasar ao parar meia hora para beber uma cerveja?
A cidade acabou por ficar toda às escuras! Os relâmpagos após se alastrarem a toda a cidade acabaram por terminar a sessão com um forte conjunto de raios, abrindo uma cratera gigantesca num terreno deserto na periferia da cidade.
A manhã chegou com a falta de energia eléctrica e as pessoas pareciam baratas tontas, sem saber o que fazer, o hábito era tanto que a dependência da electricidade os tornara simples inúteis.

Num décimo andar, um jovem observava a cidade e reparava como estava diferente! Cada pessoa caminhava lado a lado com outra que fazia os mesmos gestos, as mesmas falas, como se fosse um imitador. A princípio até parecia uma brincadeira de apanhados, mas não havia ninguém na rua que não tivesse o seu acompanhante! Um bêbedo dançava ao som de uma música que só ele ouvia, o seu acompanhante dançava como um profissional, cada passo, cada gesto devidamente coordenado, um mestre de dança! Uma jovem mal moldada tinha ao seu lado uma jovem moldada pelos deuses, todos homens a olhavam com espanto e de queixo caído. Um homem de meia-idade caminhava em passo apressado, quando de repente uma viga de ferro cai em direcção a ele, o seu acompanhante voa e apanha a viga levando-a ao seu destino: o cimo do prédio em construção no décimo quinto andar. A cidade estava com um brilho como se fosse uma pintura. O jovem pintor do décimo andar tinha ao seu lado Leonardo da Vinci! Nesse dia pintou a cidade com o toque de Da Vinci, o seu toque, uma mistura dos dois.
Na periferia da cidade a cratera misteriosa lançava uma luz intensa que se espalhava por toda a cidade. Perto da cratera um agricultor lavrava o vasto terreno com o seu pequeno tractor. Cada passagem que fazia o terreno ficava lavrado! Quem era o seu acompanhante? Todos os tractores possíveis para lavrar tudo numa só passagem!

Na universidade um grupo de cientistas tentavam descobrir o mistério do fenómeno. Além dos 20 cientistas cada um deles tinha o seu acompanhante: Albert Einstein, Marx Planck, Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Marie curie entre outros dos mais variados quadrantes da ciência. Todos chegaram á mesma conclusão: aquela cratera era a causa, mas a relação causa efeito era o mistério para durar.
No décimo andar o pintor continuava a pintar juntamente com o Leonardo pintor, porque o cientista estava a tentar desvendar o mistério da cratera luminosa. Foi o dia mais produtivo do jovem pintor. Com os dez quadros de qualidade a Grande galeria da cidade de certeza que não iria recusar novamente expor os seus quadros!
A noite chegou e a cidade brilhava com a luz artificial. Na periferia a cratera parecia que se fechara um pouco e a luz diminuía.

Na universidade os 20 cientistas acompanhados com os cientistas do passado continuavam a suas suposições, mas sem chegarem a um consenso. Uma empregada ia trazendo café e delicadamente enchia as chávenas uma a uma. Estranhamente não tinha acompanhante! Einstein olhava para a jovem e enquanto todos pensavam que ele estivesse admirar os seus atributos frontais e toda a sua beleza, ele olhava para o que normalmente ninguém olha: para aquilo que não se vê, mas sim o que se imagina. E de pronto perguntou à jovem:
- Nunca tiveste a vontade de ser outra pessoa, com superpoderes? Surpreendida respondeu:
- Não, de maneira nenhuma, eu gosto de ser eu como sou.
Einstein fez um aceno de cabeça com um sorriso e voltou a olhar os colegas. Nesse instante fez-se silêncio na sala e quando a jovem saiu um dos cientistas do presente fez a pergunta que muitos queriam fazer:
- A que conclusão o senhor Einstein chegou?
- Apenas uma.
- Mas qual? Voltou a perguntar o tal cientista do presente.
- Que este fenómeno é um caso de convergência de universos.
- Convergência de universos? Perguntou um jovem cientista de física.
- Ao ver esta jovem, vi que ela tem em si a convergência de dois universos: o da realidade e o da imaginação. Ela é tudo que imagina e não imagina ser tudo.

A explicação não convenceu todos os cientistas do presente, já os do passado entenderam a explicação e aceitaram-na como valida.
Para os que não entenderam, acordaram com a prova de que Einstein estava mais uma vez certo: a cratera tinha-se fechado e todos os acompanhantes tinham desaparecido, a cidade voltava ao normal. Os dois universos estavam novamente separados pelo poder da mente de cada um. No décimo andar moravam obras que viriam a ser a prova da convergência dos dois universos: realidade e imaginação. As maiores pinturas do século expostas na Grande galeria da cidade e nas maiores galerias de todo o mundo com o título: universos convergentes.

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